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"Ousadia e ambição." Vamos falar de Ambiente

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FOTO NUNO BOTELHO

Hoje respira-se melhor nas cidades europeias, as águas para consumo ou para banhos têm mais qualidade, há maior recurso a energias renováveis e mais reciclagem de resíduos, devido às políticas ambientais seguidas nas últimas décadas. Porém, "a Europa continua ainda longe de alcançar o objetivo de viver bem dentro dos limites do planeta, até 2050".

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

É certo que a política ditada pela União Europeia nos últimos 40 anos permitiu significativos progressos ambientais. Mas certo é também que a Europa ainda tem pela frente crescentes desafios ambientais. E "para lhes fazer frente, é preciso realizar mudanças fundamentais nos sistemas de produção e de consumo que se encontram na sua origem", reconhece a Agência Europeia do Ambiente (AEA) no relatório "O Ambiente na Europa - Estado e Perspetivas 2015", divulgado esta terça-feira.

Para efetuar essas mudanças "é preciso mais ousadia e ambição nas políticas ambientais", sublinha o diretor executivo da AEA, Hans Bruyninckx, em declarações ao Expresso, após um encontro com jornalistas de Ambiente, em Copenhaga.

A análise feita pelos técnicos da agência mostra, segundo ele, "que as políticas europeias enfrentaram com sucesso muitos dos desafios ambientais ao longo dos anos". Mas também demonstra "a contínua destruição dos sistemas naturais que sustentam a nossa prosperidade". Por isso, defende que, para se atingirem os objetivos definidos para 2050, é preciso "uma abordagem sistémica que junte as políticas de energia, transportes, alimentação, etc, encontrando na preservação do capital natural oportunidades para o crescimento económico". Isto sem esquecer que o setor ambiental cresceu mais de 50% entre 2000 e 2011, sendo um dos poucos que criou receitas e emprego desde a crise financeira de 2008.

Portugal não entregou relatório sobre ruído

A recessão económica, que se arrasta há sete anos, permitiu afastar algumas pressões sobre o ambiente, por um lado. Mas, por outro, dificultou a colocação das políticas ambientais adequadas nos carris. Em alguns países, regista-se mesmo retrocessos. No caso de Portugal, "serão razões financeiras" que estão na base da não entrega dos dados portugueses para o relatório da poluição sonora na Europa, editado em 2014, segundo Colin Nugent, especialista em ruído na AEA.

A legislação sobre poluição sonora entrou em vigor na UE em 2002 e já foram  produzidos dois relatórios. Portugal respondeu ao de 2007, mas não o fez em relação ao de 2012. Questionada sobre o porquê, a Agência Portuguesa do Ambiente não deu qualquer justificação ao Expresso até ao momento. Os Estados-membros não são obrigados a reportar os dados, mas têm de cumprir os limites de ruído.

"Pelo menos 10 mil pessoas sofrem de morte prematura todos os anos devido a problemas cardiovasculares ou hipertensão relacionados com a poluição sonora, sobretudo associada ao tráfico automóvel nos meios urbanos", explica Colin Nugent. O coordenador do relatório sobre o Ruído na Europa lembra ainda que se estima que "a poluição sonora afeta anualmente 20 milhões de europeus, conduz 43 mil todos os anos para os hospitais e provoca distúrbios do sono a oito milhões". Porém, "o cenário pode ser ainda pior, tendo em conta que não temos toda a informação", acrescenta.

Degradação dos ecossistemas

Mas a falta de financiamento para gerir as políticas ambientais no terreno, na Europa, tem mais consequências, entre as quais "a degradação contínua dos ecossistemas e o surgimento de ameaças à produção económica e ao bem-estar dos europeus", diz a AEA.

"É insustentável a forma como pressionamos os nossos ecossistemas", afirma Ronan Uhel, um dos biólogos responsáveis pelo diagnóstico do estado da biodiversidade na Europa, durante a apresentação do relatório a jornalistas europeus, na sede da AEA, em Copenhaga. "Uma coisa é ter uma área como a rede natura 2000 para gerir, outra é ter recursos financeiros para fazê-lo", admite ao Expresso outro dos autores do relatório, Frank Larsen, que lamenta o facto de "a Europa não estar a proteger os seus habitats e espécies como devia, levando a uma quebra de biodiversidade e perda de áreas naturais".

 

DIAGNÓSTICO POR ÁREAS

Biodiversidade: Os dados recolhidos pela AEA indicam que 60% das espécies protegidas e 77% dos habitats estão em estado desfavorável de conservação. Assim, a Europa não cumprirá a meta de contenção da perda de biodiversidade até 2020. As espécies marinhas e costeiras são motivo de especial preocupação, devido às pressões sobre elas exercidas. No Mediterrâneo, 91% das espécies marinhas eram alvo de sobrepesca em 2014.

Poluição: As políticas da UE reduziram a poluição e melhoraram a qualidade do ar, porém a AEA estima que continuem a morrer prematuramente cerca de 430 mil pessoas por ano na Europa, devido à má qualidade do ar. Segundo o físico ambiental da AEA, Valentin Foltescu, "a qualidade do ar não está significativamente melhor, em parte, porque ainda há muitos Estados-membros que não cumprem os limites de poluição, sendo o tráfico automóvel a principal fonte das emissões poluentes". A AEA também estima que as melhorias previstas não sejam suficientes para evitar os danos na saúde humana.

Água: A qualidade da água doce tem melhorado nos últimos anos, mas cerca de metade das massas de água doce da Europa não terá "bom estado ecológico" em 2015. Contudo, há uma significativa redução da exposição das pessoas a poluentes perigosos.

Agricultura: Menos de 6% da área cultivada da Europa foi utilizada para a agricultura biológica em 2012. Por isso, "devemos focar-nos nos serviços dos ecossistemas", lembra o biólogo da AEA, Frank Larson. "É preciso uma perspetiva sistémica, de forma a ter uma agricultura, florestas e pescas mais sustentáveis", acrescenta, defendendo que os fundos comunitários devem apostar na agricultura biológica.

Utilização de recursos: O consumo de recursos baixou de 16,7 toneladas por habitante em 2007 para 13,7 toneladas em 2012, em parte devido ao colapso da indústria da construção em vários países.

Resíduos: Há melhoria na gestão do lixo. A taxa de deposição em aterro baixou em 27 dos 31 países que entregaram dados e a de reciclagem aumentou em 21, entre 2004 e 2012. Em média, a taxa de reciclagem ronda 29%. Em Portugal está abaixo dos 20%.

CO2 e outros gases: As emissões de gases com efeito de estufa diminuíram 19% desde 1990, mesmo com a produção económica a aumentar 45%. A diminuição da utilização de combustíveis fósseis e de alguns poluentes provenientes dos transportes e da indústria, contribuíram para isso. Porém, as políticas em campo não permitirão à União Europeia cumprir as metas de redução das emissões em 80-95% até 2050.