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Ou o futuro ou a morte

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Imagem de um dos naufrágios mais recentes: Rodes, na Grécia, esta segunda-feira

FOTO REUTERS

"Lampedusa, 14 de março de 2011. Num só dia desembarcaram na ilha italiana 1682 imigrantes. Nunca tantos tinham chegado em tão pouco tempo. As notícias desta semana, o Mar Morte em que se tornou o Mediterrâneo, levou-me de volta àquele cais, devolveu-me aqueles rostos." Crónica de Raquel Moleiro.

Há imagens que não se apagam, que nem sequer se turvam com o tempo, com os quatro anos que passaram desde que estive em Lampedusa. Março de 2011, primavera, o mar em acalmia, as temperaturas já amenas - começava a época alta da imigração ilegal no mediterrâneo. No porto de pesca da ilha turística esperava a chegada de dezenas de embarcações lotadas de imigrantes, sinalizadas de véspera, em alto mar, pela marinha e aviação italianas. A Tunísia estava em revolução, a Síria a destruir-se na guerra, e dois países atiravam-se à água rumo à Europa. A Europa era ali.

Ao longo de horas, de um dia apenas, chegaram uma a uma, em fila, como aviões à espera de vez para aterrar no aeroporto. Barcos invisíveis, enterrados na água pelo peso dos homens que traziam dentro. Só cabeças, uma amálgama de corpos que parecia flutuar, devagarinho, que tapava cada milímetro da madeira dos barcos de pesca que os transportava. Cada vez mais perto da margem, de mim.

A terra já ali e a tragédia a rondar ainda. Parecia, a quem via, que bastava que um homem se levantasse para que o equilíbrio periclitante daquela carga excessiva acabasse. Passaram um dia inteiro de viagem, ou mesmo dois ou três, naquela imobilidade. O terror a cada onda, a cada corrente mais enérgica. Sem coletes ou boias. Só esperança.

E eu, no cais, à espera de ver rostos sofridos, a preparar-me para a dor de alma, a fazer-me forte. E afinal, à chegada, sorrisos, quase só sorrisos, os rostos cansados rasgados numa alegria que arrepiou tanto então como hoje quando a lembro. Os corpos a separarem-se do monte, só homens - homens não, rapazes, miúdos -, com uma energia que dispensava o apoio dos voluntários da Cruz Vermelha. A adrenalina da sobrevivência a ter efeito de Red Bull. Os dedos em V de Vitória. A voz a gritar vivas à Europa, ou só a gritar.

E logo ali, meia dúzia de passos dados em terra firme, a tirarem do bolso das calças de ganga o telemóvel impermeabilizado com plástico e fita-cola, daqueles Nokia que resistem a tudo, a telefonar, como nos aviões quando aterram e ainda nem soou a autorização para desapertar os cintos. E aí apareceram as lágrimas, palavras choradas, a esperança de famílias inteiras a informar que tinha chegado à Europa. Do outro lado da linha, mães e pais que pagaram para que um filho embarcasse numa viagem que podia ser para a morte ou para o futuro.

Nenhum trazia identificação, para que não pudesse ser repatriado. Abdicaram da pátria em nome da sobrevivência. Sabem que serão enviados para campos de refugiados no continente (a ilha não tem capacidade para todos; no centro de acolhimento não se aloja ninguém, amontoa-se). E daí vão fugir para França, Alemanha, Holanda, pedir refúgio, asilo, trabalho.

As notícias desta semana, o Mar Morte em que se tornou o Mediterrâneo, levou-me de volta àquele cais, devolveu-me aqueles rostos. Será que o Ali conseguiu reencontrar-se com o irmão mais velho em Milão? Karim estará a trabalhar em Paris, como sonhava? E Ahmed terá conseguido vencer o medo de andar de metro? Esta semana, mais de 800 imigrantes iguais a eles não chegaram a Lampedusa. Procuram-se culpados, apontam-se dedos em direções cruzadas, acusam-se traficantes e governos ocidentais. Lançam-se à água operações de emergência quando a urgência já tem meses, anos. Na Síria, Mali, Eritreia, Somália, Gâmbia, Senegal, Bangladesh há famílias que só queriam receber um telefonema, de um telemóvel revestido a plástico, de uma voz que chegou ao futuro. O silêncio soa a morte.