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Os mistérios do beijo estão no olfato

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Beijamos por paixão, mas também por costume, educação, respeito, por mera formalidade ou até por pacificação - como Astros e Karmen, grego e alemã a aproximarem nações

FOTO EPA

Um beijo é muito mais do que lábios que se fundem ou línguas entrelaçadas. Os cientistas acreditam que pode determinar o futuro de uma relação e até combater a depressão. Um estudo científico revela que 59% dos homens e 66% das mulheres admitiram já ter perdido o interesse por alguém após o primeiro beijo. Esta segunda-feira é dia mundial do ósculo - fomos descobrir os mistérios.

Lembra-se do primeiro? Olhos nos olhos, mãos suadas, coração acelerado, lábios hesitantes. Tensão e emoção. Num sopro, paraíso ou inferno. Afinal, porque beijamos? Simples: porque queremos. Porque nos rendemos aos afetos e nos deixamos levar pelos impulsos românticos. E, contudo, explicam os cientistas, o fenómeno é muito mais complexo do que a simples comunhão de duas bocas, seja no entrelaçar das línguas ou, com menos saliva, na união de dois lábios (ou, para ser mais rigoroso, dois pares de lábios). Por isso criaram a filematologia, a ciência que estuda o beijo e as suas funções.

Como na canção "As Time Goes By", imortalizada em "Casablanca", "a kiss is still a kiss" mas será sempre algo mais do que a estrofe em que duas bocas rimam, para usar outra citação famosa. Por detrás de cada gesto escondem-se não só um emaranhado de reações orgânicas, mas também uma miríade de motivações que nem sempre são óbvias. Beijamos por paixão, mas também por costume, educação, respeito e até por mera formalidade. A própria forma como beijamos varia de acordo com o que queremos expressar.

Segundo o antropólogo inglês Desmond Morris, as origens do beijo estão num instinto bem mais primário: o das mães primatas mastigarem a comida e a passarem às crias através da boca, um costume que sobrevive ainda em algumas tribos do Planeta. O gesto, especula Morris, terá evoluído para uma forma de confortar crianças esfomeadas quando a comida escasseava e, mais tarde, para demonstrar amor e carinho. 

Para outros cientistas, beijar está ligado ao complexo processo de escolha de um parceiro. Quando duas pessoas se beijam, trocam uma série de informações (gustativas, mas também olfativas, táteis, visuais e até de postura) que, inconscientemente, as ajudam a perceber o grau de comprometimento do outro na relação. O gesto pode revelar até que ponto se está perante a pessoa ideal para formar família, sendo por isso uma ação fundamental para a sobrevivência das espécies.

Um ósculo diplomático: Merkel beijada pelo primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb

Um ósculo diplomático: Merkel beijada pelo primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb

FOTO EPA

A chave deste fenómeno está no olfato. Beijar ativa a libertação de feromonas que, ao serem detetadas, de forma inconsciente, pelas mulheres, as ajudam a escolher os parceiros que terão uma melhor descendência. A explicação está num conjunto de genes ligados a uma parte do sistema imunitário conhecida como complexo maior de histocompatibilidade (CMH), que, através do olfato, desempenha um papel fundamental na atração sexual. Aqui funciona a lei de que os opostos se atraem: elas preferem homens com um CMH diferente do seu, uma escolha influenciada pela Natureza: juntar parceiros com diferentes genes do sistema imunológico fortalece as defesas da geração seguinte, melhorando, assim, as hipóteses de sobrevivência da espécie.

Talvez por isso, a ciência tem demonstrado que o primeiro beijo pode ajudar a afastar o que as forças do romantismo uniram. O sucesso de uma relação depende, muitas vezes, desse momento único em que os lábios se tocam pela primeira vez. Segundo um estudo publicado na revista científica "Evolutionary Psychology", 59% dos homens e 66% das mulheres admitiram já ter perdido o interesse por alguém após o primeiro beijo.

A investigação revela outros dados interessantes, que vêm confirmar alguns estereótipos sobre os comportamentos sexuais dos dois géneros: os homens utilizam mais o beijo como um meio para atingir um envolvimento sexual e estão mais predispostos a ter sexo sem beijar com alguém que considerem beijar mal ou mesmo com alguém por quem não se sintam atraídos. Já as mulheres, intuitivamente, tendem a usar o beijo para avaliar o estado da sua relação e o grau de comprometimento do seu parceiro.

O estudo revelou outro dado curioso: os homens preferem beijos mais molhados e com mais contacto de língua. A opção, percebe-se agora, não é ingénua. A saliva masculina contém grandes quantidades de testosterona que podem afetar a líbido das mulheres. Os cientistas baralham outra hipótese: a dos homens terem uma menor capacidade de deteção química e sensorial, precisando por isso de mais saliva para fazer a sua avaliação da parceira.

Igualmente complexa é a equação anatómica e fisiológica de um beijo. O ato põe em ação diversos músculos, cujo número varia em função da intensidade: um beijo carinhoso mobiliza 17 músculos; um mais apaixonado pode chegar aos 29, segundo a tese de doutoramento em Medicina da francesa Martine Mourier, que dedicou as duzentas páginas do seu trabalho aos efeitos do beijo. Outras revelações: a pressão exercida pode atingir os 12 quilos, os batimentos cardíacos disparam dos 70 para os 150 por minuto e são trocadas pelos menos 250 bactérias. Citando um filósofo dos tempos modernos, Duff McKagan, ex-baixista dos Guns N'Roses, "um beijo pode não ser uma coisa higiénica, mas é a maneira mais saborosa de apanhar um germe".

Beijos em Coachella, na Califórnia, onde houve música e amor este fim de semana

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FOTO REUTERS

Por isso, ainda que aparentemente inofensivo, beijar pode ser um veículo privilegiado de transmissão de doenças. A lista inclui desde uma simples constipação à hepatite, tuberculose, mononucleose, herpes labial e, em determinadas situações, doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis e a sida (caso existam feridas ou cortes na boca).

Por paradoxal que possa parecer, pode também ter efeitos terapêuticos, por exemplo, no combate à depressão. Segundo um estudo realizado no Reino Unido, beijar estimula o cérebro a libertar endorfinas, substâncias químicas que funcionam como uma espécie de 'opiáceo' natural do organismo, proporcionando sensações de prazer, euforia e bem-estar que ajudam a combater a depressão. Quanto mais excitantes e apaixonados os beijos, maiores os benefícios para a saúde. Além disso, baixa os níveis de cortisol, conhecida como a hormona do stress, e pode até funcionar como uma forma de 'vacinação' natural dos bebés: ao beijar o seu filho recém-nascido, a mãe transmite-lhes, de forma diluída e progressiva, os seus germes, desencadeando as defesas do organismo do bebé.

Indiferentes às dissertações científicas, beijamos, sobretudo, pelo prazer de beijar. Porque é, afinal, disso que se trata: de um prazer magnético em que duas almas se unem. Que importa o resto?

 

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Março de 2009