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Os long days dos 1.211

FOTO JOSÉ VENTURA

Os 1.211 portugueses que se inscreveram na Ordem dos Enfermeiros no Reino Unido em 2013 representam um número cinco vezes mais alto do que há quatro anos. Os enfermeiros saem de Portugal já com vaga assegurada e algumas vezes com o voo e o primeiro mês de alojamento. João Pereira é um deles. Voltar a Portugal? Só num "cenário utópico". Durante os próximos 10 dias, o Expresso vai contar a história de um número  - hoje é 1.211.

Há dez enfermeiros portugueses a trabalhar na unidade de cuidados intensivos do Southampton General Hospital, na costa sul de Inglaterra. João Pereira é um deles. Há quatro anos seguiu para o Reino Unido, depois de ter desistido de esperar por uma oportunidade de trabalho como enfermeiro em Portugal.

O mesmo caminho tem sido percorrido por muitos outros portugueses. Só em 2013, houve 1.211 portugueses a inscreverem-se na Ordem dos Enfermeiros do Reino Unido para poderem trabalhar no país. Esse número é cinco vezes mais alto do que o que se registava em 2010. Mais alto ainda é em comparação com 2005, quando se inscreveram 15.

"Não me arrependo um segundo da minha decisão", conta João Pereira, 27 anos. "Curiosamente, quando recebi esta oferta de trabalho, tive duas propostas em Portugal, mas decidi sair na mesma porque, na minha perspetiva, as condições só iriam piorar no país." Se ficasse em Portugal, seria com um contrato temporário e o risco de não ser renovado teve peso na decisão. "Havia várias agências de recrutamento a fazer ofertas, já tinha feedback de colegas que estavam cá a trabalhar, então sabia que as condições eram melhores."

As agências de recrutamento vêm buscar enfermeiros a Portugal e essa é uma das razões para o aumento desse número, aponta Cláudia Pereira, investigadora do CIES-IUL (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) e do Observatório da Emigração. "Nos últimos anos, o Reino Unido tem colocado obstáculos à entrada de enfermeiros de nacionalidades fora da União Europeia. As agências deixaram de poder contratar em países como a Índia ou as Filipinas", explica a investigadora, que analisou a emigração de portugueses para o Reino Unido, estudando em particular o caso dos enfermeiros. O obstáculo criado pelo Governo britânico à entrada de cidadãos de outros países "cruza-se com a falta de emprego em Portugal", resultando no facto de os portugueses serem atualmente, e desde 2012, a segunda nacionalidade em maior número, a seguir aos espanhóis, entre os enfermeiros estrangeiros a chegarem aos hospitais britânicos.

"Cerca de metade dos enfermeiros que pediram equivalência [à Ordem dos Enfermeiros em Portugal] vão para o Reino Unido", diz Cláudia Pereira, que lembra também que este é o principal país de destino da emigração dos portugueses.

O que distingue os enfermeiros de outros portugueses qualificados no Reino Unido é partirem com um "vaga assegurada e, em muitos casos, com o voo e o alojamento do primeiro mês pagos". Cláudia Pereira entrevistou vários enfermeiros, antes e depois de deixarem Portugal e conclui existirem alguns casos de pessoas mais velhas que optam pela emigração por ter a carreira congelada ou por falta de opção de mobilidade, e que chegam ao Reino Unido já com a família. Apesar desses casos, a maioria é composta por jovens adultos em idade ativa, entre os 23 e os 30 anos, solteiros, sem filhos, a entrar no primeiro emprego, numa "fase do ciclo de vida em que é mais fácil tomar esta decisão".

"Se uma pessoa estiver disponível ou interessada, poderá chegar além das 2000 libras por mês"

É nesse perfil que se encaixa João, reconhecendo várias vantagens em estar no Reino Unido. "O salário cá é maior, facilmente tiramos o dobro do que faríamos no nosso país e não temos de recorrer a um segundo emprego para nos sustentar financeiramente." Faz três a quatro turnos por semana, de 12 horas e meia cada, aos quais chamam "long days". A carga horária é de 37 horas e meia por semana. Sem experiência profissional anterior, João começou por receber 1500 libras (1900 euros), aos quais juntava o pagamento extra das noites, fins de semana e feriados.  Anualmente, há um incremento no ordenado e a possibilidade de subir de posição, incluindo para cargos de chefia, "algo que em Portugal seria impossível em alguém que seja tão jovem."

Ainda que as rendas, os transportes, o tabaco ou os restaurantes sejam mais caros, João diz ser "surpreendente" que as compras para a casa ou o vestuário sejam mais baratos do que em Portugal. Quando chegou ao Reino Unido, começou por partilhar uma casa com mais três enfermeiros, todos portugueses, recrutados na mesma altura. Não se conheciam, mas decidiram juntar-se. "Após um dia de trabalho, era bom chegar a casa, falar a nossa língua e trocar experiências com pessoas que partilham a nossa perspetiva." Viver sozinho sai mais caro, "mas as rendas não deixam de ser comportáveis face ao nosso salário - apenas não sobra tanto no final do mês". Hoje vive com a namorada e diz que, em geral, a vida "compensa bastante, financeiramente".

"Só voltaria mesmo num cenário utópico" 

O contacto com portugueses é diário, e não é só no hospital. "Onde quer que vá, parece que há um português", diz João. Para a investigadora do CIES, esta vaga de emigração para o Reino Unido, que teve um impulso em 2010, tem características diferentes dos emigrantes portugueses das décadas de 1980 e 1990. "Nessa altura, também foram emigrantes qualificados para o Reino Unido. Mas a maior parte eram portugueses que trabalhavam nas limpezas, restaurantes e pastelarias. Os portugueses que trabalham com portugueses, com menos qualificação, tendem a viver mais próximos, mais concentrados." Hoje, os que partem para o Reino Unido preferem ficar em Londres e vivem "dispersos, não estão concentrados e optam por ter uma casa perto do trabalho".

João sente que o número de portugueses, e especialmente os enfermeiros, tem aumentado "exponencialmente" nos últimos anos. "Basicamente, eles gostam dos enfermeiros portugueses, porque já temos um grande conhecimento académico e prático em relação aos próprios enfermeiros ingleses, cujo curso é maioritariamente teórico."

E se pensa em voltar? "Nem por isso. Gosto do meu país, mas como destino de férias, agora. Só voltaria mesmo num cenário utópico, onde houvesse condições superiores às que tenho aqui", responde, confessando sentir que foi desvalorizado em Portugal. "Penso que toda a minha geração tem sido negligenciada, pois apostam na nossa formação e não temos outra alternativa senão virar-nos para fora. Outros países, como é o caso do Reino Unido, é que estão a beneficiar grandemente de mão de obra especializada, como é o nosso caso."