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O sonho vai além do tempo: de uma carroça em Portugal para uma galeria em Nova Iorque

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Maria Helena, há uma semana,
 com as fotografias oferecidas por Pierre Gonnord, num acampamento
 entretanto abandonado

Imagens de uma família cigana que enfrenta nomadismo forçado estão expostas numa galeria nos Estados Unidos. Esta é a história.

Christiana Martins (texto) António Pedro Ferreira (fotos)

Maria Helena nunca ouviu Frank Sinatra e não conhece a letra de 'New York, New York'. Mas é o seu rosto, os seus seios e os seus filhos que estarão expostos até 25 de abril na galeria de arte Hasted Kraeutler, em Nova Iorque. A beleza de Maria Helena Silva Cabeças já foi notícia em Portugal e em Inglaterra, é partilhada nas redes sociais, mas, vista de perto, aos 37 anos, com a pele queimada pelo sol, esta mulher cigana revela preocupações bem mais urgentes: todos os dias sabe onde acorda, mas nunca onde irá dormir.

Tudo parecia destinado para que Maria Helena fosse mais um rosto sem nome entre os cerca de quatro mil ciganos nómadas que se julga circularem por Portugal. Mas há um ano, na estrada entre Estremoz e Évora, tropeçou no fotógrafo francês Pierre Gonnord. Ia com a família na carroça e, desde então, Pedro, como o chama, tornou-se um amigo. Fotografou-a e aos filhos. Aos homens idosos da família, à viúva Maximiliana, aos cavalos e às ovelhas. Fixadas as imagens, começaram uma viagem que não os fez escapar da circunstância de deslocados.

A exposição em Nova Iorque recebeu o título "O sonho vai além do tempo" e a força das imagens parecia bastar. Mas um comentário num blogue acendeu a curiosidade sobre quem eram as pessoas fotografadas por Pierre Gonnord. Nos textos de divulgação nada os identificava, até que a atriz Alexandra Espiridião - que conhece os Silva Cabeças dos acampamentos ao lado de sua casa e aceitou dar a sua morada para receber a correspondência da família - denunciou o quotidiano cigano no blogue "Colectivo Libertário Évora".

Maria Helena não tem uma casa com paredes ou ficha elétrica. Mas tem telemóvel. Atende com um sorriso na voz e, do outro lado da linha, o vento e as crianças fazem-se ouvir. Sugere um encontro no estacionamento de um supermercado, nos arredores de Évora e à hora marcada já está à espera. Com ela, quase tudo o que a define: a carroça, a mula, um homem a quem se refere como irmão e três dos seis filhos. Fala com dificuldade, falta-lhe o domínio do português, sobra-lhe timidez e uma gaguez recorrente. Nasceu "cigana de pai e mãe" e reconhece que assim há de ficar, embora assuma estar "farta de não ter uma casinha para proteger as crianças do frio e da chuva". Sonha com um inverno em que consiga proteger-se, fechar a porta, varrer o chão.

Os gémeos Luís e Joni têm três anos, são os mais pequenos, mas já não são os bebés fotografados por Gonnord. Joni é um rapazito ativo, de cabelo curto e franja à tigela. Luís é loiro, cabelo comprido aos caracóis. Ainda usam fralda e só sossegam quando a mãe lhes cola as mamas às bocas. Sempre a cirandar, Rogério, ou Rogiero, como soa o nome quando dito por Maria Helena.

A rua é ruidosa e não há um café capaz de acolher o grupo. Casa, a família não tem. Sobra o carro dos visitantes. Mal o automóvel começa a mover-se, Luís desata num choro assustado. Para quem está habituado ao ritmo da mula, a velocidade do carro parece diabólica. Maria Helena conta que o marido "está fora" e que na maior parte do tempo as crianças ficam com ela e o tio, José Agostinho, a quem chamam pai, e que além destes três há mais três filhos: Manuel, 16 anos, Maria Helena, 13, Vanessa, 8. As raparigas estão na escola, Manuel não aguentou lá ficar, "tem problemas na fala", justifica a mãe.

O telemóvel toca para avisar que a polícia mandou desmantelar o acampamento. Está na hora de levantar arraiais e partir. Há quem more em condomínios, Maria Helena ocupa um terreno, cercado por árvores que lhe servem de armário, pelos cavalos e pela família alargada. Em poucos minutos, tudo é colocado na carroça, os oleados que lhes servem de casa, a bilha de gás, o garrafão de água, os cobertores. Sente-se a tensão, há pouca conversa e muita movimentação, não vá a GNR chegar.

No meio da mudança, há tempo para voltar ao motivo do encontro e, de dentro de uma mala, Maria Helena desencanta dois envelopes, formato A3, com as fotografias oferecidas por Pierre Gonnnord. Não são as imagens da exposição de Nova Iorque, nem os retratos publicados pelo "Daily Mail", em que a família Silva Cabeças é identificada como "ciganos espanhóis". São as fotografias de Rogério com um chupa, no dia em que o fotógrafo os levou ao circo, ou com o "canito" no colo. Cão que, entretanto, já morreu atropelado por um camião. Apesar da diferença de luzes, enquadramento e cenário, o círculo parece fechar-se.

Sonhos e multas A pressa acotovela o resto do acampamento, quase 30 pessoas, a maior parte crianças, todos preocupados em embalar os pertences. Manuel, o filho mais velho, destaca-se pelos traços indianos, é o único que não se deixa fotografar e ocupa-se dos cavalos. Há 17 animais no acampamento. Maria Helena e o irmão só têm a mula castanha. Mariana, uma menina de sete anos, deambula, indiferente à preocupação dos adultos. Na mão, um instrumento estranho, com arames presos em ziguezague, que soa desafinado. "O que é isso?" "O meu caixote", responde a pequena de olhos e cabelo claros.

Maria Helena traz um papel da Câmara Municipal de Elvas, uma "carta de admoestação", com o aviso de que, se insistir em acampar sem autorização, terá de pagar 200 euros. Ela não sabe ler nem escrever e fica à mercê da interpretação de quem lhe traduz os riscos na folha. Acredita sempre em quem diz que pode ir presa e também em quem lhe explica que aquilo é apenas um aviso.

Enquanto procuram novo local para montar a tenda, os Silva Cabeças contam "o sonho de ter uma casinha para viver com os gaiatos", dizem que a vida é complicada porque lhes fecharam os poços de onde davam de beber aos animais, que a polícia não os deixa permanecer no mesmo acampamento por mais de 72 horas e que ninguém lhes dá trabalho. Maria Helena não consegue explicar do que vive, fala de "um subsídio" e de ter perdido "o abono do Rogério". Confessa que às vezes anda a pedir dinheiro, água ou um carregamento para o telemóvel. Admite que gosta de "andar de um lado para o outro, de terra em terra", mas não esconde as dificuldades, como quando um filho cai doente e o médico a empurra de volta a Évora, porque é ali que está o médico de família. Ou seja, é como se dissessem que não podem ficar nem podem partir.

Pelo caminho, regressa a Pierre Gonnord, que já lhes pagou uma multa, e a quem, quando se vê com problemas, telefona, de olho nos números escritos no envelope com as fotografias. Não parece importar-se por a sua família estar a ser exibida em Nova Iorque, nem por dizerem que é bonita. E, encontrado o terreno onde vão passar a noite, as mulheres apressam-se a descascar batatas, acender o lume. É hora de dar de comer às crianças. Mais tarde, José Agostinho irá buscar as meninas à escola. Como a mãe, já aprenderam que sabem sempre onde acordam, nunca onde irão dormir.

Entre 2013 e 2014, Maria Helena Silva Cabeças foi fotografada por Pierre Gonnord nos arredores de Évora. Com ela, os filhos mais pequenos, Joni e Luís. A imagem foi partilhada nas redes sociais e suscitou a discussão sobre as condições de vida das comunidades ciganas

Entre 2013 e 2014, Maria Helena Silva Cabeças foi fotografada por Pierre Gonnord nos arredores de Évora. Com ela, os filhos mais pequenos, Joni e Luís. A imagem foi partilhada nas redes sociais e suscitou a discussão sobre as condições de vida das comunidades ciganas

Propostas para integrar comunidade cigana dividem-se entre aliança diplomática internacional e atribuição de subsídios.

Para explicar a forma como os ciganos são vistos pela sociedade contemporânea, José Gabriel Pereira Bastos, antropólogo e um dos maiores estudiosos desta etnia em Portugal, recua mil anos na história. Segundo este professor da Universidade Nova de Lisboa, a entrada dos ciganos na Europa deveu-se ao "sequestro de cerca de 55 mil pessoas da Índia, obrigadas a movimentarem-se em direção à Pérsia".

Em Portugal, uma das primeiras referências a esta comunidade aparece em 1521 com o "O Auto das Ciganas" de Gil Vicente. É também nesta altura que as perseguições se tornam mais intensas, com os ciganos a serem presos e chicoteados, a perderem os bens e as mulheres, enviadas para o Brasil e Goa. Em 1526, D. João III proíbe mesmo a entrada de ciganos no reino. "Destruíram-lhes a organização com o objetivo de os exterminar", sublinha o antropólogo. Pereira Bastos recorda que, no início do século XVIII, as crianças eram retiradas às famílias de origem, tratadas como órfãs e colocadas a servir. Um século mais tarde, seriam enviadas para a Casa Pia para serem cristianizadas e, só a partir de 1822 e da Constituição liberal, os ciganos passaram a ser considerados portugueses, por nascerem em território português.

"A história mostra que os ciganos foram forçados ao nomadismo, o que continua a acontecer", conclui o investigador. "Enquanto não se fizer discriminação positiva, como Gandhi fez para cem milhões de párias na Índia, a situação não se irá resolver". José Gabriel Pereira Bastos estima que, em Portugal, existam entre 50 a cem mil ciganos, mas, na sua opinião, apenas uma conjugação internacional, envolvendo a União Europeia, Índia e os países de nascimento das populações ciganas, permitiria corrigir o que diz ser "um trauma histórico": "O problema exige um programa integrado de ação, que está muito longe de ser pensado, quanto mais levado à prática."

A proposta passa pela criação de dispositivos que facilitem a circulação de pessoas, reconhecendo-lhes plenitude de direitos, criando parques públicos, dotados de infraestruturas, como água corrente e instalações sanitárias. O corolário seria o desenvolvimento de um Programa Europeu de Discriminação Positiva, que deveria garantir, durante duas gerações, a inserção de membros da comunidade cigana em postos de trabalho da Administração Pública, de forma a permitir-lhes o progresso nos estudos, protegidos pela concessão de bolsas escolares e prémios.

Esta não é uma posição consensual e quando se trata de conceber políticas de integração, os caminhos separam-se. As divergências começam, inclusivamente, quanto ao número de pessoas que constituem a comunidade cigana em Portugal. O Alto Comissariado para as Migrações (ACM) - organismo público encarregado de promover a inserção social desta minoria étnica - calcula que existam entre 40 e 60 mil ciganos no país, concentrados nas zonas urbanas (Lisboa, Setúbal, Porto e Faro). A quantificação resulta da Estratégia Nacional para a Integração, documento aprovado em Conselho de Ministros há um ano. E a situação agrava-se quando em causa estão as famílias ciganas que não têm morada fixa: "Não existe informação quanto aos portugueses ciganos nómadas", admite Susana Antunes, da ACM.

Assim, longe de estar decidida a melhor forma de alcançar uma maior integração da população cigana na sociedade portuguesa, a discussão acaba por estender-se no tempo. Esta semana, por exemplo, teve lugar em Lisboa um encontro para discutir a educação da comunidade cigana, reunindo professores, investigadores, políticos e representantes da etnia. Embora tenham sido recordadas as dificuldades de alcançar a adaptação - como a tradição de casar cedo as raparigas ciganas, levando a maioria das adolescentes a abandonar o ensino mal atingem a puberdade - a nota de destaque do encontro foi o papel desempenhado pelo Rendimento Social de Inserção, que apoiará cerca de 33,5% das famílias ciganas, na promoção da escolaridade deste grupo étnico.

No evento foram também recordadas as conclusões do "Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas", apresentado no início deste ano, que aponta para que, entre os 1600 agregados familiares entrevistados (cerca de 6800 pessoas no total), 15,5% sejam incapazes de ler ou escrever.

Évora tão distante e tão perto Longe de conhecer a discussão que envolve a integração da comunidade cigana, os Silvas Cabeças são uma das poucas famílias ciganas nómadas que ainda circulam nas imediações da cidade alentejana. Segundo o último levantamento feito pela Câmara de Évora, "até 17 deste março, encontravam-se no concelho 11 famílias nómadas, num total de 53 pessoas", sobre as quais não há registos de "quaisquer desacatos ou queixas associadas ao seu comportamento".

As características comportamentais dos ciganos que historicamente foram sendo apontadas como obstáculos à integração desta comunidade não foram consideradas um problema para o fotógrafo francês Pierre Gonnord. "Este é um trabalho muito difícil e muito simples. Começo por falar com os homens, aviso que os quero retratar. Procuro pessoas com força moral e o que mais importa é construir uma relação." Sobre esta família em especial, diz que "as crianças são muito abertas aos adultos de outras culturas". E fica emocionado quando fala da mãe de Luís e Joni: "Quis mostrá-la como uma deusa, dar-lhe toda a dignidade que tem."

33,5% das famílias ciganas são apoiadas pelo Rendimento Social de Inserção, instrumento utilizado para promover a educação dos mais jovens

15,5% é a taxa de analfabetismo registada entre os 1600 agregados familiares inquiridos no âmbito do "Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas"

Texto publicado originalmente na edição do Expresso de 28 de março de 2015