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O que a escrita revela de nós

A nossa caligrafia revela (quase) tudo sobre nós, das emoções aos sentimentos, das qualidades e defeitos à sexualidade. Veja o que mostra a análise à letra de várias figuras públicas, do passado e actuais.

Isabel Lopes (www.expresso.pt)

Tem a escrita das pessoas que gostam de trabalhos difíceis, querem vencer e possuem convicções fortes. De alguém que gosta do jogo político e está no lugar certo, concluiu a grafóloga Margarida Barros Rodrigues.

A pressão que Passos Coelho faz ao redigir aponta para o risco de autoritarismo e de teimosia. A assinatura quase camuflada, como uma espécie de sigla em que desaparecem o "Pedro" e o "Passos" e apenas se vislumbra o "Coelho", indicia um desejo de afirmação face aos outros, sentimento de que se livra com alguma facilidade: com uma pirueta torna-se cáustico.

Não é uma letra muito veloz e o facto de ser bem espaçada demonstra capacidade de reflexão e de ponderação, confere-lhe clareza e revela vontade de ser compreendido.

Diz-me como escreves, dir-te-ei quem és...

A letra de Amália Rodrigues é o espectáculo propriamente dito, de tanto espaço que ocupa, de tanto que quer dar nas vistas. A de Salazar não podia ser mais igual a... Salazar, mostrando sempre um déspota. Carlos Santos Ferreira, o presidente do Millennium bcp, construiu uma nova letra porque não gostava da antiga, que o mesmo é dizer que não gostava de si próprio. E Pedro Passos Coelho, o recém-eleito presidente do PSD, tem seguido o caminho certo porque é um homem feito para a política.

Estas são algumas das conclusões reveladas pelo estudo da caligrafia destas personalidades. E nela, porque vem do inconsciente, tudo se pode detectar: emoções, sentimentos, defeitos, qualidades, impulsos, desejos, doenças, sexualidade... O resultado é um retrato psicológico.

A grafologia revela tudo, dizem os seus estudiosos. E não há como dissimular, encobrir, disfarçar, porque a tentativa de fingimento acaba por ser ela própria reveladora. "O texto mostra o que a pessoa é. A assinatura revela o que a pessoa quer parecer", explica Margarida Barros Rodrigues, 75 anos, formada com os cursos da Sociedade de Grafologia francesa (de cuja revista é assinante-membro), e uma das mais experientes grafólogas portuguesas.

Em rigor, é uma das únicas grafólogas que existem em Portugal - não chegarão sequer à dezena - porque a grafologia nunca se afirmou nem desenvolveu no nosso país apesar das suas longínquas raízes: no século II AC, Demétrio, na Grécia, já dizia que a escrita reflectia a alma do indivíduo e no século XI os chineses já possuíam uma grafologia; o primeiro livro sobre o tema é da autoria de Camillo Baldi, um médico de Bolonha, e foi publicado em Capri, em 1662, com o título "Tratado sobre de como através de uma carta se conhece a natureza e as qualidades do autor".

Em Portugal, porém, não é sequer uma área certificada, explica a psicóloga Sónia Amorim Luginger cujo trabalho de licenciatura se intitula "Aspectos Psicológicos da Grafologia" (Universidade Lusíada, 2005), apesar de se tratar de uma ciência, como explica logo no início do estudo: "A grafologia é uma ciência que estuda e analisa a caligrafia tendo como objectivo principal determinar estados físicos, mentais e emocionais do escritor. Torna assim possível o conhecimento das características da personalidade e do carácter do indivíduo".

É essa revelação do íntimo - obtida através da análise de um conjunto de sinais e da correlação entre eles - que, na opinião de Margarida Barros Rodrigues, provoca receios: "As pessoas têm medo da grafologia porque a grafologia revela tudo, até a vida sexual". E porque mexe com a vida das pessoas, quem a pratica deve ter um apurado sentido ético e de responsabilidade, frisa a grafóloga. Alerta que a grafologia não deve ser transformada num jogo de salão, muito menos ser confundida com a astrologia e nunca ser entendida como futurologia.

E há regras a cumprir: os escritos a analisar deverão ter cerca de três parágrafos (umas 20 linhas) e terem sido manuscritos numa folha de papel branco não pautado (de modo a permitir uma interpretação sobre as margens, espaços entre linhas, se é respeitada a linha de base imaginária, etc.), e ter assinatura. Saber a idade do autor e se é destro ou esquerdino também poderá ajudar na análise. Já o conteúdo do texto é absolutamente irrelevante, bem como o facto da caligrafia ser mais ou menos bonita.

Como escreve Sónia Amorim Luginger, "a folha de papel em branco fica gigante e nesse momento passa a ser o seu mundo (do indivíduo). O raciocínio lógico cuida do conteúdo da mensagem escrita e o inconsciente deixa a sua marca em cada linha, cada curva e letra desenhada no papel".

A grafologia é hoje utilizada em muitas e variadas situações: na investigação criminal e área forense, no campo dos recursos humanos, na orientação vocacional, para autoconhecimento e até na área da medicina - quer como aplicação terapêutica (grafoterapia) quer como auxiliar de diagnóstico médico (estando especialmente avançada na Alemanha, Holanda e Suíça).

A área dos recursos humanos é uma das que Margarida Barros Rodrigues conhece bem, tendo dado o seu parecer a centenas de admissões quando colaborou com uma empresa de colocação de talentos. Fez também análise grafológica para a Universidade Católica e para particulares que, pura e simplesmente, se queriam conhecer melhor. Pelos seus olhos já passaram também as caligrafias de dezenas e dezenas de personalidades portuguesas de várias áreas, das artes e do espectáculo à política, e cujos resultados foram divulgados num programa televisivo e em artigos de imprensa.

Nestas páginas, recuperamos algumas dessas leituras que se juntam às análises grafológicas inéditas realizadas agora a pedido do Expresso: Salazar, Marcello Caetano, Amália Rodrigues e Pedro Passos Coelho, Carlos Santos Ferreira e Lídia Jorge que nos cederam para este fim "amostras" da sua letra.

(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 17 de Abril de 2010)