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O poder da intuição

Confiar no nosso instinto pode guiar-nos de forma espantosa ou induzir-nos em erro de forma perigosa? Uma questão respondida no 8º Simpósito da Fundação Bial. Ouvimos os especialistas. Clique para visitar o canal Life & Style.

Nelson Marques (www.expresso.pt)

Quantas vezes, quando colocados perante uma escolha, decidimos quase de imediato, sem necessidade de racionalizar uma resposta? E em quantas outras não perdemos demasiado tempo a procurar a resposta certa, apenas para perceber, no final, que deveríamos ter seguido o nosso instinto inicial? Graças à intuição, este "sentimento de saber sem saber porque se sabe", na definição do psicólogo americano Seymour Epstein (ver entrevista na pág. seguinte), navegamos pela vida muitas vezes como um avião comercial: em piloto automático.E, contudo, a intuição está muito longe do funcionamento de uma máquina.

Segundo Epstein - um dos peritos mundiais no estudo da intuição que marcou presença no 8º Simpósio da Fundação Bial (este ano dedicado ao tema "Intuição e Decisão". Veja texto abaixo com entrevista), que ocorreu Porto -, ela aproxima-nos dos animais. "Quando os humanos desenvolveram a fala, não abandonaram simplesmente o sistema de aprendizagem não-verbal através do qual vinham fazendo a sua adaptação ao meio ambiente. Por isso, operamos segundo dois sistemas: um verbal, que nos permite pensar mais abstractamente e raciocinar logicamente; e outro não-verbal, automático, emocional" O primeiro tem permitido feitos únicos da Humanidade na ciência, na medicina ou na tecnologia; o segundo é fundamental para navegarmos pelo nosso quotidiano.

Mas como funciona, afinal, a intuição? O belga Axel Cleeremans, professor e investigador da Universidade Livre de Bruxelas, nota que ela representa um atalho no normal processamento da informação "Vamos directamente do estímulo à resposta", defende. É o mesmo princípio aplicado na aritmética simples. Qualquer pessoa que conheça a tabuada sabe responder de imediato à questão "Quanto é 8x4?" sem necessidade de raciocinar. "Na intuição, a memória substitui o raciocínio, o que explica porque somos incapazes de justificar as nossas decisões intuitivas: não há nada a explicar, uma vez que recebemos a resposta correcta da nossa memória e não de um raciocínio ou deliberação consciente."

Claro que, apesar de a intuição ter méritos por vezes espantosos, ela pode igualmente induzir-nos em erro de forma perigosa. A melhor maneira de evitar qualquer ratoeira é aplicá-la em áreas onde somos peritos com experiência acumulada. "Por exemplo, um jogador de xadrez experiente pode olhar para um tabuleiro e, de forma intuitiva, perceber qual é a melhor jogada. O mesmo acontece com médicos e mecânicos que podem, muitas vezes, fazer diagnósticos intuitivos", explica o psicólogo americano David Meyers, autor do best-seller "Intuition: Its Powers and Perils" (Intuição: Os Seus Poderes e Perigos), um dos participantes no simpósio da Bial. A intuição pode também ser um bom aliado para escolher uma obra de arte, explorar o nosso lado mais criativo ou, sublinha Epstein, encontrar a solução para um problema demasiado complexo de resolver através de um raciocínio lógico.

Em sentido inverso está o uso da intuição para descobrir uma mentira - "a maior parte das pessoas não são muito boas a detectar mentiras", sustenta Meyers - ou para contratar alguém através de uma entrevista. "Uma entrevista diz-nos apenas como uma pessoa se comporta quando quer deixar uma boa impressão. Se de um lado estiver o nosso instinto e do outro estiverem resultados de testes, amostras de trabalho e classificações de desempenho em anteriores empregos, esqueça a intuição", aconselha. Segundo Cleeremans, a nossa intuição pode também ser perturbada quando nos comportamos de acordo com preconceitos (possivelmente inconscientes). "99,9% dos árabes não são terroristas", ilustra o investigador belga. "Devemos confiar nas primeiras impressões, mas é bom desafiá-las de tempos a tempos, para evitar decisões influenciadas pelos estereótipos." Quanto ao mito da intuição feminina, estudos de Judith Hall, da Universidade Northeastern (EUA) confirmam: elas superam os homens.

A mente vista por Seymour Epstein

Um dos peritos em intuição é Professor Emérito de Psicologia da Universidade de Massachusetts, EUA:

A intuição influencia o raciocínio. De que forma a intuição se distingue do pensamento mais racional? A intuição é rápida, não requer esforço e, muitas vezes, embora nem sempre, é a melhor opção para orientar o comportamento quotidiano. Pelo contrário, o raciocínio, com o nosso sistema racional e analítico, é demasiado lento e desgastante para nos servir sempre no dia-a-dia. Por isso, a intuição pode muitas vezes ser mais útil em decisões onde a experiência é mais importante que a lógica, em situações de emergência onde não há tempo para raciocinar com mais cuidado ou, por exemplo, em situações em que temos de apreciar uma obra de arte. É também mais eficaz em situações que envolvam relações humanas. Em situações que não envolvam pessoas, o sistema racional/analítico tende a ser mais activado. É por isso que uma espécie tão brilhante como a nossa, capaz de ir à Lua, curar doenças, ver criaturas invisíveis ao microscópio ou vislumbrar galáxias distantes, não consegue viver em harmonia e continua a resolver problemas internacionais com guerras.

A intuição e o raciocínio não se confundem? Muitas vezes. A intuição influencia quase todos os comportamentos, incluindo o raciocínio. Por outras palavras, a influência do pensamento intuitivo é ubíqua. Conduz a nossa vida quotidiana, mas também influencia a capacidade de uma pessoa raciocinar logicamente. Uma vez que exerce essa influência automaticamente, fora da consciência das pessoas, estas atribuem muitas vezes o seu comportamento a um raciocínio consciente quando, na verdade, foi causado pelo seu pensamento intuitivo, baseado na experiência. A única forma de contornar esta influência é conhecer bem o nosso sistema intuitivo, para poder tê-lo em conta.

Os humanos são, ao mesmo tempo, intuitivos e racionais, mas se tivesse de escolher entre um dos sistemas, qual escolheria? Não conseguiríamos sobreviver apenas com um sistema racional ou analítico, porque não seríamos capazes de tomar as decisões quotidianas sem ter estas sensações intuitivas que nos ajudam a decidir o que queremos. Não haveria paixão e existiria muito pouca motivação nas nossas vidas e, na rara hipótese de sobrevivermos, seríamos como robôs. Já sobreviver apenas com um sistema intuitivo seria possível, mas não teríamos linguagem e seríamos apenas ligeiramente mais espertos do que um chimpazé.

(Este artigo foi publicado na Revista Única de 10 de Abril)