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O palco é deles, o teatro é de todos

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O que pode levar as pessoas a sair de casa para ir ao teatro? A propósito do Dia Mundial do Teatro, assinalado sexta-feira, conversámos com três dos maiores atores portugueses do teatro, cinema e televisão. Miguel Guilherme, Nuno Lopes e Rita Blanco falam entusiasticamente sobre a arte que, segundo eles, nos torna melhores pessoas.

Apanhámos Miguel Guilherme a meio dos ensaios para o primeiro monólogo da sua vida que estreará dia 30 de Abril na sala vermelha do Teatro Aberto, em Lisboa. "Título e Posse" é o nome da peça que saiu da pena do nova iorquino Will Eno. "É sobre um forasteiro que vem de longe e nos confronta sobre os hábitos dele e os nossos. Uma peça forte em todos os sentidos, tanto poética como cómica." Encontrámos Nuno Lopes prestes a iniciar as filmagens do próximo filme do realizador Marco Martins, onde representará um boxeur em tempos de crise (com estreia prevista para 2016). Interrompemos um piquenique que Rita Blanco estava a fazer com a filha Alice, para completar este trio. Rita contou que, além de jurada do programa de televisão "Achas que sabes dançar", está a trabalhar no próximo filme de João Canijo (também previsto para o ano que vem) que se baseia numa peregrinação a Fátima. Mas filmes aparte, a conversa com estes três versou sobre outros palcos. Mal foram lançadas as perguntas, o batimento cardíaco deles pareceu acelerar, o tom de voz ficou mais emotivo e aceso. É o que acontece quando se fala sobre um grande amor. Que eles querem partilhar com todos. Como escreveu Herberto Helder: "Ninguém ama o teatro essencial como o actor/ Como a essência do amor do actor/O teatro geral/ O actor em estado geral de graça". 

O que faz falta para tirar as pessoas de casa para irem ao teatro?    Miguel Guilherme - Faz falta primeiro gostarem de teatro. Que tenham hábitos culturais de teatro. E fazem falta mais peças, e mais diversificadas, para diferentes tipos de público. Por outro lado, desde os tempos de Gil Vicente faz também falta o Estado interessar-se pela Cultura. E não me refiro apenas a este Governo que fez cortes. Desde o 25 de abril que o Estado vê a Cultura como um empecilho. Nomeadamente o Teatro. Sempre tiveram no pensamento: "Deem lá umas massas para esses gajos se calarem". Talvez nos tempos de Manuel Maria Carrilho [quando foi Ministro da Cultura, em 1995] as coisas estivessem melhores. Ele tinha uma visão mais estratégica para a Cultura, a médio e a longo prazo. Como Ministro da Cultura era muito sério.

Nuno Lopes - Infelizmente com os cortes nos subsídios para a cultura cada vez é mais difícil apostar-se em textos com mais de 2 ou 3 pessoas em palco. Passa a ser raro poder assistir a grandes textos como os de Shakespeare ou Tchekov, porque são peças com mais de 6 ou 7 personagens. Ao saber que vou ver um espetáculo com apenas dois ou três atores, por vezes, fico desmotivado. Com dinheiro os atores e as companhias poderiam fazer criações mais interessantes. Com estas limitações é como pedir a um pintor que pinte o quadro que quiser mas só usando a cor azul...

Rita Blanco - Primeiro é preciso que as pessoas tenham dinheiro para comprar o bilhete. E que tenham curiosidade. As pessoas deviam ser estimuladas para isso desde pequeninas, com formação e acesso aos teatros, tal como têm acesso à natação ou ao futebol. O teatro é um ótimo exercício mental, ajuda os miúdos na interpretação de textos, a perceberem melhor quem são e a exprimirem o que sentem e querem aos outros. Sem esquecer que é um jogo genuíno que ensina as pessoas a serem generosas e mais felizes.  

A crise e o teatro parecem andar de mãos dadas desde sempre. O teatro português deve depender apenas de subsídios?  Miguel Guilherme - Teatro é cultura, portanto o Estado teria que ter um papel importante e mais presente, deveria apoiá-lo sob diversas formas.  E devem ser dados também incentivos aos produtores privados para investirem mais na área. Outro ponto importante: Não pode haver pessoas com grande interesse pelo teatro se não se interessam ou percebem de literatura.

Nuno Lopes - Há espetáculos que não dependem de subsídios, como é o caso das produções do La Féria. E ainda bem. Mas o Estado tem uma responsabilidade cultural. Felizmente há esperança e uma nova geração de pessoas à frente de grandes teatros. Com a nomeação do Tiago Rodrigues, como novo director do Teatro Nacional D. Maria II, e da Aida Tavares, no Teatro São Luíz. Há uma juventude a surgir que traz nova vida ao teatro o que é muito bom. Desde que comecei a ser ator, aos 15 anos, o teatro está em crise. E tem vindo a piorar. Um dado positivo é que hoje há muitos mais espectadores de teatro do que na época em que comecei. Em 97 era difícil conseguir encher uma sala de teatro. Mas isso é mérito dos artistas e não do governo. O que se passa agora é que com a falta de dinheiro as pessoas têm tendência a ficar os serões em casa a ver televisão ou a assistir a filmes no computador. Por vezes penso que é um milagre ainda termos teatros abertos e companhias a funcionar.

Rita Blanco - A questão não é o teatro que está em crise, mas é a cultura que há muito não é respeitada. Devia ser considerada um bem de primeira necessidade e não é. Num país pequeno como o nosso não é possível haver uma indústria comercial para a arte. Mas acredito que apesar de tudo o teatro nunca irá morrer e será cada vez mais uma arma de arremesso contra a estupidez.  

Miguel Guilherme com Bruno Nogueira na peça "É como diz o outro", de Frederico Pombares e Henrique Dias. FOTO NUNO MIGUEL SOUSA

Miguel Guilherme com Bruno Nogueira na peça "É como diz o outro", de Frederico Pombares e Henrique Dias. FOTO NUNO MIGUEL SOUSA

Hoje cada vez mais gente se diz ator/atriz. O que é representar bem?  Miguel Guilherme - Francamente não sei, ao fim destes anos todos a representar. Qualquer resposta soaria pretensiosa. O que sei é que faz falta formação aos atores mais novos. Mesmo no meu caso, que não passei pelo Conservatório, houve muitas técnicas simples de representação que levei tempo a aprender ao longo da vida e que poderia ter resolvido de forma simples quando era mais novinho numa escola.

Nuno Lopes - Falando de mim, e não sei se o faço bem, este ofício parte de uma curiosidade sobre o ser humano e uma descoberta cada vez maior das outras pessoas e de como elas pensam. E é uma certa maneira de estar atento, observar e amar os outros. Quando eu faço uma personagem estou a compreender alguém que pensa de uma maneira diferente de mim. E tenho que me por do lado dela. Por isso os bons atores são muito generosos e muito pouco preconceituosos. Para fazer de Hitler, não me basta fazer de mau, tenho que o perceber, o que vai na cabeça dele.

Rita Blanco - Não há regras. Mas só por um feliz acaso de talento e trabalho é possível ser-se ator sem formação. É possível, mas não é desejável. Para mim é uma mistura de generosidade, entrega, trabalho e talento. O ator Richard Burton tinta tudo isso. Refiro um que está morto para não maçar ninguém.

Podemos adaptar o poema de Pessoa e dizer que o ator é um fingidor que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente?   Miguel Guilherme - Sim, precisamente por essas palavras. E gosto também muito do poema de Herberto Helder que define bem o que é um ator. ["O actor acende a boca/Depois os cabelos/Finge as suas caras nas poças interiores/O actor pôe e tira a cabeça de búfalo/ De veado/De rinoceronte./Põe flores nos cornos./Ninguém ama tão desalmadamente como o actor/ O actor acende os pés e as mãos./Fala devagar/ Parece que se difunde aos bocados./Bocado estrela./Bocado janela para fora./Outro bocado gruta para dentro./O actor toma as coisas para deitar fogo ao pequeno talento humano./O actor estala como sal queimado. O que rutila/ o que arde destacadamente na noite/ é o actor, com uma voz pura monotonamente batida pela solidão universal.(...)]

Nuno Lopes - O ator usa máscaras para se expôr a si mesmo. E, nesse sentido, quando um ator representa uma personagem está em ultima instância a falar de si e das suas referências e memórias do mundo. 

Rita Blanco - Podemos. E o poema de Herberto Helder sobre o ator também nos define bem. Um dia quis ler esse poema ao meu companheiro, para ele me conhecer bem e não o consegui terminar, desatei a chorar.

Nuno Lopes e Luís Miguel Cintra na peça "A Tragédia de Júlio César", de William Shakespeare. D.R.

Nuno Lopes e Luís Miguel Cintra na peça "A Tragédia de Júlio César", de William Shakespeare. D.R.

Que história ou personalidade real gostava de ver representada num palco?  Miguel Guilherme - Não sei. As personagens de teatro são sempre reais. Mesmo que não existam ou nunca tenham existido. 

Nuno Lopes - Em Portugal temos uma história riquíssima, com muitas personagens que podiam ser levadas a palco. A vida de António Variações daria uma peça incrível. E tantos poetas, como Pessoa...

 Rita Blanco -  Não sei. Estou louca para ver um documentário sobre Sebastião Salgado, um dos meus heróis, mas não me passa pela cabeça ver a sua vida adaptada ao teatro. O teatro não é para falar de uma pessoa mas para falar de pessoas.  

Quando as pessoas dizem que gostam muito de teatro, mas o mais que conhecem são os musicais do La Féria que passaram na TV, o que pensa?  Miguel Guilherme - Não acredito que seja verdade. Tem havido imenso público para o teatro. Claro que, com os recentes cortes por insensibilidade deste Governo, o público diminuiu. Não me vão ouvir a falar mal do público.

Nuno Lopes - Tenho pena. Porque na verdade não sabem o que é o teatro. A maior virtude e defeito do teatro é ser efémero. São momentos que acontecem em certos dias e não se repetem. É sempre diferente. E ao contrário do cinema, o teatro apenas fica na memória das pessoas que dele se lembrarem. Na televisão essa magia não é possível.

Rita Blanco - A maioria das pessoas não gosta de teatro. E eu percebo-as. É difícil. O teatro é a arte da falha. É duro de ver e de assistir. E difícil de fazer bem. Por vezes não funciona tão bem e é lindo na mesma. É uma arte maior. Conte uma história insólita que lhe tenha acontecido em palco... Miguel Guilherme - Já aconteceu um ator sentir-se mal com um ataque de coração, ou uma atriz sentir-se tão mal disposta que vomitou em cena tudo, mas tudo, o que tinha no estômago. As pessoas não acreditaram, acharam que estávamos a representar. Porém a noite mais terrível, para esquecer, aconteceu quando representava a peça "Arte" [de Yasmina Reza, que interpretou, em 1994, com António Feio e José Pedro Gomes]. Certa noite a plateia tossia, tossia, tossia. Era um público assaz estranho. E começou a incomodar-nos. De tal maneira que interrompemos a peça e pedimos para não tossirem tanto. Continuaram. Até um dos meus colegas os insultar. O público riu-se. Não percebeu que estávamos a falar a sério. Às tantas perceberam, pararam de tossir e a peça prosseguiu.

Nuno Lopes - Recordo-me de um episódio complicado. Quando representei a peça "A Cidade", no Teatro São Luiz, uma das personagens que fazia era a de um rapaz que se vestia de mulher. A dado momento tropeço nos saltos altos e parto um pé. Faltavam ainda três horas para a peça terminar. Nessa noite acabei a peça de muletas, mas terminei-a. O que é curioso é que grande parte do público não se apercebeu que aquilo tinha sido um acidente.

Rita Blanco - A primeira vez que recebi palmas de pé foi numa peça que fiz com o António Feio. Ele tanto tentou em cena fazer-me rir que, às tantas, de tanta força que fiz para resistir fiz xixi em cena. O palco era inclinado. O público percebeu. Fomos para intervalo. Senti tanta vergonha... 

Rita Blanco na peça "Sangue no Pescoço do Gato", de Fassbinder. FOTO ANA BAIÃO

Rita Blanco na peça "Sangue no Pescoço do Gato", de Fassbinder. FOTO ANA BAIÃO

Este ano o multifacetado artista sul-africano Brett Bailey relembrou-nos que, apesar de todos os perigos da atualidade, "desde que existe sociedade humana, existe o irreprimível espírito da representação", refletindo sobre o poder do teatro e o papel imprescindível das artes e dos artistas. O que acrescentaria às suas palavras? Miguel Guilherme - Recordo-me que quando Sarajevo, na Bósnia, foi cercada pelos tanques e forças sérvias [Em 1992] estava em cena a peça "À espera de Godot", de Samuel Beckett, encenada pela Susan Sontag. E, durante esse tempo, um dos atores do elenco saía de cena para ir combater para as trincheiras. Precisamos da arte mesmo nas situações mais difíceis. Atrevo-me a dizer especialmente nas situações mais difíceis. O teatro não muda o mundo, mas pode mudar-nos aos bocadinhos.

Nuno Lopes - O teatro sempre funcionou como anti-poder. Um local onde se repensa a sociedade. Eu quero acreditar que ainda é possível ir ao teatro e através dele mudarmos a forma como vemos a vida e o mundo.

Rita Blanco - É vero. Si non é vero. É benne trovato. (É verdade. Se não é verdade é bem achado). 

Gostar de teatro é não perder a capacidade de sonhar?  Miguel Guilherme - Sim. E é uma arma para pensar sobre a nossa sociedade e realidade. Tem um lado político e de cidadania importante, deve suscitar reflexão coletiva e pessoal. Sem isso não vale muito. E não devemos nunca descurar o lado lúdico, porque sem prazer e lado lúdico torna-se mais difícil a relação com o público.

Nuno Lopes - É acima de tudo não perder a capacidade de pensar. Sobre nós e sobre os outros.

Rita Blanco - É querer ser estimulado. Querer ser surpreendido e pensar por si próprio. A arte será sempre uma coisa muito nossa amiga.  

Que espetáculo em cena no país aconselha ver?  Miguel Guilherme - Vi há pouco tempo a peça "E os sonhos, sonhos são", no Teatro do Bairro (Bairro Alto, Lisboa) e gostei bastante. É um espetáculo original e cómico com atores a fazerem de palhaços enquanto representam vários textos de teatro clássico. Vale a pena. [Em cena até 5 de Abril, com dramaturgia de Luísa Costa Gomes, encenação de António Pires, interpretado por Julie Sergeant, Hugo Mestre Amaro, João Araújo, Mário Sousa e Rafael Fonseca].

Nuno Lopes - Eu tenho vontade de ver o espetáculo "A Mentira", d'Os Possessos, no Teatro da Politécnica [em cena até 18 de Abril]. É feito por malta nova e interessante. Gosto de conhecer o que anda a fazer esta nova geração. 

Rita Blanco - Eu também tenho curiosidade de ver "E os sonhos, sonhos são", dirigido pelo António Pires. Aquela história de palhaços cativa-me.