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O homem da canadiana escura

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FOTO ANA BAIÃO

"Outono de 1970. Ouvi falar de um personagem que me impressionou. Era um colega mais velho que falava de pé, ao fundo da cantina, argumentando, rebatendo ideias, propondo e entusiasmando toda a sala. Perguntei quem era. Responderam-me: 'Não sabes, pá? É o Zé Mariano'." Crónica de Rui Cardoso, editor de Internacional do Expresso. José Mariano Gago morreu esta sexta-feira, aos 66 anos

Em 1970, quando se entrava para uma faculdade não havia praxes nem capas e batinas. O que se descobria era uma outra dimensão da realidade, onde se podia falar de temas que não apareciam nos jornais, se liam autores censurados, se ouviam músicas que não passavam na Emissora Nacional nem nos Serões para Trabalhadores.

Advertido pela família para não me meter em sarilhos e não seguir o exemplo de um dos meus tios, preso durante o Luto Académico de 1962, foi com um misto de desconfiança e fascínio que me comecei a aventurar pelas salas e corredores da Associação de Estudantes do Técnico no Outono de 1970.

Foi aí que durante uma Assembleia Geral ouvi falar de um personagem que me impressionou, não tanto pela substância do discurso, de que passados tantos anos não recordo grande coisa, mas pela postura. Era um colega mais velho, de óculos, vestido com uma canadiana escura e que falava de pé, ao fundo da cantina, argumentando, rebatendo ideias, propondo e entusiasmando toda a sala. A reunião deve ter durado uma eternidade porque me lembro que um camarada nosso ia, diligentemente, municiando o orador, para este não desfalecer de fome, com rodadas de cervejas e sandes de chouriço.

Perguntei a alguém mais velho quem era. Responderam-me: "Não sabes, pá? É o Zé Mariano, o presidente da Associação!" Não tive muito mais oportunidades de o voltar a ouvir porque, sabedor de que a PIDE o andava a rondar, partiu para o exílio como tantos outros da sua geração.

Um dia havia de voltar e de trazer para a ciência portuguesa uma visão moderna, cosmopolita, aberta e de longo prazo. O oposto da mesquinhez e do contar de tostões que hoje prevalece.

Até sempre, Zé Mariano!