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O Facebook vem para brincar ou para atacar?

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Foi há menos de uma semana que o "The New York Times" deixou escapar aquilo que já se suspeitava: o Facebook encontra-se em negociações com alguns sites de informação para ser a "casa" de alguns conteúdos noticiosos, dizendo assim adeus aos links e ficando responsável por parte da sua distribuição. O que está em causa para o jornalismo? 

"Para os editores de conteúdo, o Facebook é um pouco como um grande cão num parque, a correr na nossa direção. Com frequência, é difícil dizer se ele vem para brincar ou para nos atacar." Esta imagem, criada pelo colunista do "The New York Times" David Carr, quando ainda era vivo, em outubro do ano passado, revela bem o sentimento que os jornais online e as empresas produtoras de conteúdo mostram em relação ao Facebook. Um sentimento que se acentuou ainda mais esta semana. 

Confirmou-se esta semana aquilo que no ano passado era apenas rumor. O Facebook quer mesmo entrar no negócio da distribuição de conteúdos noticiosos e aposta em grande: "The New York Times", "National Geographic" e "Buzzfeed" estão entre a meia dezena de empresas de conteúdos com as quais a rede social tem vindo a estabelecer um diálogo discreto. O objetivo? Unir os esforços da produção (media) e distribuição (Facebook) de conteúdos, tornando-os "mais rentáveis" para ambas as partes. Para já, trata-se apenas de uma experiência desenvolvida por Chris Cox, chefe de produto da empresa. Enquanto o Facebook propõe o alojamento de determinadas notícias na sua "News Feed" (substituindo assim os atuais links que redirecionam para as páginas dos jornais), diz oferecer parte dos lucros publicitários aos media. Sem adiantar números. 

Tal como na imagem do cão de David Carr, as reações foram ambivalentes. Oscilaram entre as inúmeras potencialidades que o universo de 1,4 mil milhões de utilizadores desta rede social - que navega na liderança destes novos movimentos de 'social media', 'share content' e personalização - pode trazer aos media e os receios daqueles que, mais cautelosos, se recusam a soltar a trela dos conteúdos e a deixá-los correr por aí, com o cão do Facebook. Os mais céticos falam, entre outras desvantagens, na transferência das visualizações dos sites dos jornais para o Facebook, na falta de controlo sobre os dados dos leitores e publicidade e na perda do poder da marca noticiosa. 

Apesar dos temores de alguns, a proposta da empresa de Mark Zuckerberg faz parte de "uma tendência de desfragmentação do jornalismo que já vem de trás", diz ao Expresso o jornalista e professor universitário de Ciências da Comunicação António Granado. "O poder da marca noticiosa tem vindo a perder-se. Cada vez mais consumimos notícias independentemente do órgão de comunicação social: cerca de 40-50% do tráfego dos jornais online vem do Facebook. O que interessa não é tanto o jornal, mas o facto de a notícia estar bem escrita", poder ser acedida facilmente e "estar dentro dos nossos interesses". Veja-se o sucesso de plataformas como a Zite ou o Flipboard, que funcionam como agregadores de notícias de jornais, personalizados pelos leitores de acordo com os seus interesses.

Luís Santos, docente da Universidade do Minho e especialista nesta área, sublinha que muitas empresas não souberam encontrar uma forma de sustentabilidade para os conteúdos na internet, ao longo destes 20 anos de jornalismo online. "Há quem ache que esta proposta do Facebook é miserável, eu tendo a pensar nela mais como inevitável que miserável. Neste momento, parece bizarro que os media digam 'não' a isto: as empresas fizeram muito pouco para se tornarem sustentáveis no online". Para Luís Santos, o que "falha de forma estrondosa não são os jornalistas ou chefias editoriais (que, muitas vezes, têm feito um bom trabalho no online), mas a gestão comercial dos media, que ainda têm uma visão tradicional do jornalismo". 

A web no lugar da web

A nova experiência que o Facebook propõe parece ter objetivos claros, mas resultados difusos. É claro para muitos que a rede social, na qual a velocidade é uma das palavras-chave, quer encurtar os habituais oito segundos que um leitor demora a entrar num link que o redireciona para um determinado site noticioso. Conhecedor dos comportamentos e ansiedades dos consumidores no universo mobile, o Facebook sabe que o tempo de espera é um dos maiores inimigos do leitor.  

O jornalista-programador Paulo Querido considera que este novo modelo proposta pelo Facebook  "não traz assim tantas vantagens para o leitor" - além de encurtar o tempo de espera para ler a notícia, já curto, na sua perceção. Mas no caso do Facebook, as vantagens são muitas, garante ao Expresso. "Isto claramente beneficia o Facebook, que quer ser a web no lugar da web. Já para os jornais, depende da sua capacidade negocial." Crítico da passividade dos media em relação à complexidade e rapidez das mudanças do universo online, Paulo Querido explica que estes têm muitas lições a aprender. "Têm, por exemplo, a lição das apps, que acharam que era a salvação, mas acabou por resultar num grande fracasso. Não deu nada aos jornais, mas muito à Apple", sublinha. "Espero que quando os media forem negociar com o Facebook pensem bem antes no que vão fazer e negoceiem realmente." 

Negociar parece ser a palavra de ordem num universo onde ainda muito é incerto (e que será, numa primeira fase, uma experiência). Se, por um lado, é verdade que o Facebook precisa dos jornais para reafirmar a sua posição ("e o Facebook sabe isso, por isso é que não precisa de cativar, mas de reter pessoas", diz Paulo Querido), não é menos verdadeira a generalização de que os jornais estão muito mais vulneráveis. É isto que leva Granado a afirmar que "o Facebook tenderá a ganhar esta batalha", pelo que "é preciso negociar com muito cuidado". Mas acrescenta que "o que se leu nas primeiras notícias sobre o tema dá a entender que não há salvação possível para os jornais, ou seja, não há hipótese de ficar de fora. Tentar criar algo contra os principais jornais online do mundo não parece ser possível". 

E o jornalismo? "Não sei se ficará a ganhar com isto", responde. "Pode ficar a perder. Pode surgir uma tendência para fazer notícias cada vez mais engraçadinhas, para que as pessoas façam mais 'cliques' e partilhas". O que, na sua opinião, já acontece hoje em dia. 

Entrar ou ficar a ver

Entrar ou não neste jogo já não parece ser apenas uma decisão dos media. As regras mudaram e os media veem-se obrigados a adaptar-se. Apesar de tudo, ainda pode existir alguma margem de negociação dentro desta nova lógica, diz Luís Santos. "Há quem tenha uma visão pessimista e olhe para esta experiência como o princípio do fim", explica, realçando que vê esta fase como uma oportunidade para os media repensarem a sua atuação na internet. "Eu acho que isso só vai acontecer se as empresas não negociarem com o Facebook e se desistirem de criar formas alternativas de chegar aos leitores."  

Ainda esta semana, o jornalista Jeff Jarvis dizia na sua conta de Twitter: "O meu conselho para as empresas de conteúdos a negociar com o Facebook: não o façam sem os dados. Com os dados, avancem". O tweet chamou a atenção de Luís Santos, que concorda que é preciso negociar com contrapartidas: essencialmente, o acesso à publicidade e aos dados. 

"O Facebook sabe tudo. Se há uma vantagem para os jornais é essa: até que ponto este abre as portas aos dados que tem sobre os [gostos, hábitos e perfis] dos leitores", concorda Paulo Querido. Para o jornalista, os jornais têm falhado redondamente na abordagem às tecnologias, estando ainda muito distantes das necessidades dos leitores (e da personalização da informação e consumo de notícias) - pelo que, na sua opinião, a parceria com a rede social poderia ser uma oportunidade. 

O acesso aos dados parece ser, então, o maior tesouro. "Se tiverem isso, os meios podem elaborar uma plataforma alternativa com esses dados", explica, destacando que a recente Plataforma para os Meios Privados, criada recentemente em Portugal, poderá vir a ser uma oportunidade nesse campo. Não só pode constituir uma base coletiva a partir da qual se poderá negociar com o Facebook, protegendo assim os grupos mais pequenos e vulneráveis, mas também "pode constituir-se como uma alternativa a este, não lhe fechando a porta".  

Sem nunca fechar a porta a uma plataforma da qual os media dependem, é preciso reequilibrar o poder que é dado ao Facebook através da aposta noutras redes socais, explica Luís Santos. "Porque não dar força ao Twitter, por exemplo?" Não é preciso procurar muito para encontrar uma explicação para isto. É só voltar à imagem de David Carr destacada no início do texto, olhando para um dos seus lados (a vontade de 'brincar'): quanto mais achamos que o cão é único (e diferente de todos os outros), mais poder lhe atribuímos e mais dependentes ficamos, deixando eventualmente que seja ele a definir para onde vamos - ou ficamos.  

Com todas as incertezas, este é para já o jogo que está em cima da mesa. Granado tem receio que o conteúdo jornalístico saia a perder da batalha com a distribuição. Paulo Querido sublinha a importância de os jornais usarem o Facebook como um canal, entre muitos, continuando a geri-lo como uma rede social - não sendo obrigatório "que coloquem nela toda a sua edição" e podendo usá-la "como um canal próprio, com um editor e conteúdos mais direcionados para essa rede social", como aliás já acontece em alguns jornais. Luís Santos, por sua vez, coloca novamente a tónica nas oportunidades. "Tenho esperança que as pessoas que gerem os media aproveitem esta oportunidade para entrar no jogo", declara. "Porque isto já não é o mesmo jogo. É o culminar de um processo inevitável."