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O dia em que quatro 'bombas' puseram o Porto em alerta

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Esta história tem os ingredientes de uma novela policial: mulheres fatais, intriga política e uma ameaça de bomba. Prepare-se: vamos entrar na máquina do tempo.

As supermodelos Elle Macpherson, Claudia Schiffer, Carla Bruni e Helena Christensen (em baixo) abrilhantaram o primeiro Portugal Fashion, há 20 anos

As supermodelos Elle Macpherson, Claudia Schiffer, Carla Bruni e Helena Christensen (em baixo) abrilhantaram o primeiro Portugal Fashion, há 20 anos

António Pedro Ferreira

O telefone toca e ouve-se uma voz em inglês do outro lado da linha: "You have a bomb in the hotel, you motherfucker!" (em bom português, "há uma bomba no hotel, seu cabrão!"). A telefonista entra em pânico. Chama o diretor da receção. Em poucos minutos a Brigada de Minas e Armadilhas da PSP chega ao Sheraton, no Porto. Não encontra nada. Mas a 'bomba' está lá, "escondida" na suite presidencial, no 18.º andar do edifício na Avenida da Boavista. Um metro e oitenta de carga altamente explosiva "made in Germany", protegida por dois seguranças à porta do quarto. Código para a detonar: 86-61-92, medidas de sonho em corpo de delito. 

Estamos no final de julho de 1995. Os tempos conturbados do PREC já fazem parte da história. Vive-se a euforia da Comunidade Europeia, chovem milhões de Bruxelas. O dinheiro dá para todos os luxos, até para montar um evento de moda com as "top models" mais badaladas do momento. Uma acima de todas as outras: Claudia Schiffer, a 'bomba' alemã, noiva do mágico David Copperfield, o arquétipo da mulher perfeita dos anos 90. Depois de ter imitado Brigitte Bardot numa campanha publicitária, chega a Portugal com pose de diva do cinema.

São precisos 15 mil contos (o equivalente hoje a 115 mil euros, considerando a inflação, quase 24 anos de trabalho de um português com o salário mínimo à época) para a convencer a desfilar uma dúzia de peças na primeira edição do Portugal Fashion, que celebra em 2015 o seu 20.º aniversário. Apesar da pequena fortuna do cachê, Schiffer aterra em Lisboa com rosto fechado, escondida atrás da longa melena de seda loira e dos óculos de sol. Farta de olhares e de comentários sobre uma hipotética gravidez, aborrecera-se logo na viagem de Concorde entre Nova Iorque e Paris. Sentado ao seu lado no avião para o Porto, o ministro da Indústria, Mira Amaral, não lhe consegue arrancar mais do que um sorriso amarelo. "Prazer em conhecê-lo", limita-se a dizer a manequim. 

Claudia Schiffer desce a escadaria da Casa do Farol com o designer Nuno Gama

Claudia Schiffer desce a escadaria da Casa do Farol com o designer Nuno Gama

António Pedro Ferreira

Segundo o Expresso, a "coincidência" do ministro ficar sentado ao lado de uma das mulheres mais desejadas da época foi preparada pelos organizadores, a Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). Na véspera, fizeram chegar uma mensagem ao governante: "Esperemos que goste da hospedeira que lhe pusemos no avião". Vinte anos depois, Paulo Barros Vale, primeiro presidente da ANJE e mentor do Portugal Fashion, nega esta versão: "Foi mesmo uma coincidência. E não houve qualquer bilhetinho. Houve sim alguém que terá brincado com o ministro, dizendo-lhe que ia ter uma surpresa quando chegasse ao avião". 

Os partidos da oposição suspeitam que o PSD aproveitara a presença de Schiffer e de outras supermodelos para promover um comício de Fernando Nogueira no Porto, em pré-campanha eleitoral para as legislativas desse ano. Especula-se sobre quem na realidade pagou a deslocação de Schiffer a Portugal. A versão que vinga é a de que o evento - que custou mais de 120 mil contos (equivalente hoje a mais de 920 mil euros) - foi patrocinado pelos ministérios da Indústria, com recurso a fundos comunitários, e do Comércio Externo, através do ICEP, com o objetivo de internacionalizar os têxteis e os criadores de moda portugueses.  

"O setor têxtil era a principal indústria e o principal empregador do país, mas era notório que iria passar um mau bocado", recorda Barros Vale. Por isso, por ocasião do 9.º aniversário da ANJE, o empresário idealiza um evento pensado para ser "uma pedrada no charco". "Queríamos chamar a atenção da imprensa internacional para a capacidade da indústria portuguesa e daqueles que começavam a criar, mostrar que éramos mais do que fábricas de feitio".

Uma estrela pouco sorridente No Porto, Schiffer raramente se deixa ver em público e mostra poucos sorrisos; guarda-os para a conferência de imprensa e para a passerelle, onde desfila seis vezes, "ao som de aplausos e gritos de uma plateia de empresários e novos-ricos nortenhos", conta dias depois a "Visão". A alemã parte na mesma madrugada para Nova Iorque, via Londres, sem conhecer a cidade. Na memória, fica-lhe talvez a Foz do Douro, que espreita nas traseiras da Casa do Farol, onde decorre a passagem.  

A primeira edição do Portugal Fashion decorreu a 28 de julho de 1995, no Porto

A primeira edição do Portugal Fashion decorreu a 28 de julho de 1995, no Porto

António Pedro Ferreira

Carlos Santos, o mordomo do Sheraton, interrompe as férias só para atender Schiffer e companhia. Orgulha-se de ser o único homem a conhecer a supermodelo "ao natural". Nem os seguranças contratados pela organização podiam dirigir a palavra à diva da moda - limitavam-se a bater à porta sempre que esta tinha que sair para um compromisso. Santos, então com 28 anos, tem o privilégio de ver a musa sair do duche em roupão, quase como num anúncio publicitário. E, por momentos, despe o fato do discreto mordomo para ser apenas o homem com uma história boa de mais para não a partilhar. "Ficava-lhe mesmo bem..."  

Fora do quarto, prevenindo que a escaldante loira possa incendiar o Porto, há uma vintena de bombeiros a acompanhar Schiffer, noticia o diário espanhol "ABC". O fundador do Portugal Fashion nega-o. "É outro dos mitos que se criou na época". A brasa alemã domina as atenções da centena de jornalistas portugueses e internacionais acreditados para o evento, mas ao Porto chegam outras três supermodelos: Helena Christensen, a morena dinamarquesa dos olhos de um verde cristalino que apetece mergulhar neles; Carla Bruni, a então loira italiana que ainda não conhecia Nicolas Sarkozy, nem se tinha dedicado às cantorias; e Elle Macpherson, a escultural australiana, conhecida por "The Body" (O Corpo) no tempo em que as manequins ainda tinham curvas. Recebem 10 mil contos cada.  

Miss Bruni, quando ainda não era Madame Sarkozy

Miss Bruni, quando ainda não era Madame Sarkozy

Acácio Franco/TV Mais

Bruni afirma que é "um desafio interessantíssimo" desfilar em países e com designers diferentes dos habituais e Christensen é a única que fica no Porto para o dia a seguir ao desfile, com o namorado Peter Makebish. Mas é a estrela de Elle que mais brilha dentro e fora da passerelle. Na companhia do marido, Tim Jeffries, mostra-se sempre bem-disposta e brincalhona, distribui autógrafos e sucumbe à gula na hora de alimentar "O Corpo". "Comeu de tudo: tarte de frutas cheia de chantilly, vinho, lasanha, sanduíches enormes e montes de batatas fritas com ketchup", revela o mordomo pouco discreto, hoje a trabalhar no Brasil. 

A longa cabeleira doirada de Elle é uma dor de cabeça para o hotel, que tem que comprar um secador de cabelo mais forte às nove da noite, e para muitos jornalistas, que na ânsia de verem Schiffer a confundem muitas vezes com a australiana, sempre que esta aparece sorridente em público a dizer "olá" em bom português. 

Elle Macpherson, "O Corpo", adorou o vestido leopardo do estilista José Carlos. No final, comprou-o

Elle Macpherson, "O Corpo", adorou o vestido leopardo do estilista José Carlos. No final, comprou-o

António Pedro Ferreira

20 contos para aceder à festa Uma semana depois dos Rolling Stones terem esgotado o estádio de Alvalade, é La Toya Jackson quem encerra a primeira edição do Portugal Fashion. "Queríamos trazer o Michael Jackson, mas percebemos que era muito caro", conta Barros Vale. "Depois, tentámos a outra irmã, a Janet. Também era muito cara. A LaToya foi a terceira escolha, custou-nos uns 2500 contos [na época, o "ABC" fala em 14500 contos, o que superaria o cachê da própria Schiffer]". De quinta a sábado, a irmã mais velha de Michael, longe de ser um modelo de cantora, só sai da suite para o concerto. Antes atua Pedro Abrunhosa, no auge da fama conquistada um ano antes com o seu álbum de estreia.

No meio do circo mediático, descrito por alguns como o triunfo do nacional-parolismo, poucos reparam na moda portuguesa. Mas entre os não convidados não falta quem esteja disposto a pagar 20 contos para ter acesso à festa, quase quatro vezes mais do que o preço dos bilhetes para ver os Stones. O evento gera pelo menos uma exportação. Macpherson apaixona-se pelo vestido com padrão de leopardo do estilista José Carlos (que viria a falecer em 2004) e, no final, compra-o. "I love your dress", escreve num cartão que entrega ao português. 

"Houve na época um certo deslumbramento com o Portugal Fashion", admite o fundador do evento. "Nunca se tinha visto nada assim em Portugal. Não é normal um país periférico atrair as melhores manequins da altura e receber dezenas de jornalistas de publicações internacionais. Fomos arrojados, conseguimos agitar as águas na moda portuguesa e chegar lá fora, mas tenho pena que na imprensa os 'fait divers' tenham ganho protagonismo em detrimento da moda".

Fast forward. A 36ª edição do Portugal Fashion termina este sábado no Porto, sem supermodelos nem o fogo de artifício mediático da primeira vez, mas com quatro dias do melhor que se faz na moda em Portugal. Em julho, o evento sopra 20 velas, espera-se que sem perigo de incêndio ou ameaças de bomba.