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Nos bastidores de Bollywood, a maior indústria de cinema do mundo

Canções, danças, cores vibrantes, romance e fantasia. São estes os ingredientes dos filmes indianos masala, vistos por quatro mil milhões de pessoas. Conheça os bastidores de Bollywood, a maior indústria de cinema do mundo.

Bernardo Mendonça (texto) e Paulete Matos (fotografias), em Bombaim (www.expresso.pt)

À porta da Dream Zone, um dos inúmeros estúdios de cinema localizados em Bollywood, Bombaim, ouve-se a toada estridente das gralhas. Estes pássaros grandes, muito pretos, semelhantes a corvos são os protagonistas dos céus indianos.

Graahhh! Graahhh! Uma das aves pousa no muro e espreita por cima das cabeças alinhadas de um grupo de figurantes que fuma numa pausa das filmagens.Duzentas rupias (cerca de 5 euros) é tudo quanto entrará no bolso de cada um daqueles rapazes e raparigas no final do dia, mas o que realmente atrai a maioria é a esperança vã de um dia virem a ser actores famosos. "Não desisto da ideia. Pode ser que um dia alguém repare em mim", replica com firmeza o jovem Samir Sharma, de 21 anos, com os braços em volta da sua motorizada.

Vijay, produtor de cinema, escuta a conversa com um sorriso desdenhoso nos lábios. Acaba por nos chamar aparte: "Eles dizem todos isso. Querem todos promover-se e ascender na vida. Mas não lhes dê ouvidos. Não têm beleza nem corpo para isso, e muito menos apelido para tal". Vijay refere-se ao facto de ser tradição em Bollywood a passagem de testemunho entre famílias - como é o caso da família Kapoor com quatro gerações de actores no negócio do cinema."Estes rapazes e raparigas não deverão ter grande futuro por aqui. Veja bem, nesta indústria são quase todos familiares. Ou irmãos, filhos, primos ou afilhados. É uma dinastia de celebridades".Isto é algo que só podia acontecer num país que tem no seu passado a divisão social com base num sistema de castas. O próprio Vijay confessa ter uma irmã actriz, assim como um tio a trabalhar nesta área...

As bailarinas são do Leste.

Entramos em estúdio. "Right! Left! Tararããããã!" A coreógrafa indiana Jyotti recapitula as marcações das bailarinas. Seis mulheres estão em cena, com figurinos pretos de látex bastante ousados. Saris, nem vê-los. Olhando para elas não nos conseguimos situar na Índia. Nem tão pouco em Bollywood. São todas louras, brancas, de olhos azuis, made in Rússia.Perante este cenário tanto podíamos estar na plateia do Casino Estoril, em Lisboa, como nos bastidores do cabaré Moulin Rouge, em Paris. Mas não. Estamos mesmo na capital do cinema indiano, a assistir ao último dia de filmagens do musical "Kuchh Kariye", uma produção de Bollywood que custou cerca de um milhão e setecentos mil euros e tem estreia marcada para o próximo dia 23 de Abril.

"Kuchh Kariye" quer dizer em hindi, "actua, faz alguma coisa". Mas, nesse caso, porque não actua a produção do filme no sentido de garantir a presença de belezas indianas naquelas (an)danças? Mais uma vez é o produtor Vijay Kadechkar a traduzir-nos o que para si é evidente. "Na Bollywood actual, moderna, é importante passar uma imagem universal. Que agrade nos mercados internacionais. Ora as bailarinas do Leste da Europa têm um look elegante, sofisticado, mais de acordo com os padrões de beleza ocidental". Pelo que apurámos, actualmente são raros os filmes indianos que não incluem no elenco bailarinas estrangeiras de pele branca. A Índia étnica e rural não vende tão bem.

"Silence please!"

"Silence Please!"- grita o realizador Jagbir Dahiya num inglês macarrónico. Apesar do filme ser falado em hindi, pelo menos outras cinco línguas são ouvidas nos bastidores. A direcção é feita em inglês, as bailarinas cochicham em russo, a maioria dos técnicos discute em marathi, elementos da produção negoceiam em gujarati e há quem troque piadas em punjabi.Entra em cena o famoso cantor pop indiano Sukhwinder Singh que no ano passado foi notícia no mundo inteiro por ganhar um Óscar e um Globo de Ouro (em parceria com A. R. Rahman) pela banda sonora de "Quem Quer Ser Bilionário", que incluía o 'hit' 'Jai Ho'. Este cinquentão de cabelo emproado com laca coloca-se na frente do palco, ladeado pelas formosuras russas. É a primeira vez que actua num filme, e logo como protagonista.

Neste enredo dramático ele interpreta um cantor apaixonado que, por uma série de equívocos, é forçado pelas pessoas da sua aldeia a abandonar a sua casa, a sua amada e a partir para Bombaim. O resto é música, dança e um amor clandestino com final feliz. "O romance continua a ser o ingrediente-chave de qualquer filme de sucesso. O sentimento não passa de moda", traduz Jiten, cinéfilo confesso e dono deste armazém onde são gravados mais de 250 filmes por ano.

Os 'filmes masala'

O realizador manda chamar os figurantes, que estão trajados de negro como as gralhas. Pede-lhes entusiasmo e alegria. "Going for take. Rolling. Scene 26, Take 1".Segue um delírio musical iluminado com tons de vermelho e azul. Nesta espécie de videoclip, o cantor assume o papel do galã e as bailarinas-rebuçado-da-Rússia emolduram-no com dengosos meneios de anca, pernas para cima e para baixo entre muitas boquinhas e piscares de olhos. "And... Cut!"Momentos musicais como este estão presentes em quase todas as produções de Bollywood. Há quem lhes chame 'filmes masala'. O termo masala é roubado ao tempero que todos os pratos indianos levam e que consiste numa indecifrável miscelânea de especiarias que atribuem um paladar único.

Ora os filmes indianos têm essa mesma variedade de emoções durante as três horas que duram em média. Pudemos comprovar nas salas de cinema locais e nos últimos blockbusters lançados em DVD.Estejamos a ver uma comédia, acção, drama ou terror ocorre (quase) sempre, a dado momento do filme, um clique nos protagonistas que passam a fazer parte de um videoclip alucinado. Aí o mais certo é transformarem-se durante cinco minutos numa espécie de Travolta e Olivia Newton John (versão indiana), passando de uma praia idílica em Goa para um cenário de montanhas e neve na Nova Zelândia num só pulinho, enquanto cantam e dançam com figurinos vários como se voassem sobre um tapete mágico. Isto é Bollywood em estado puro!

E é aqui que a indústria de filmes indianos se diferencia muito da sua parente americana. "Se Hollywood apenas usa a música nos filmes musicais, Bollywood depende das canções não só para animar todos os filmes, mas também para vender uma panóplia de produtos anexos ao filme", considera o escritor Stephen Alter no livro "Fantasies of a Bollywood Love Thief". Isto porque, segundo as regras do cinema hindi, "a estreia de um filme é sempre precedida do lançamento do álbum desse mesmo filme". Sobre esta questão o cantor Sukhwinder acrescenta: "O sucesso ou o fracasso da produção depende da resposta do público a essas canções. Repare, a música é a base do nosso cinema. Noventa por cento dos filmes indianos não se podem considerar completos sem música. Através de uma canção é possível percebermos a história e o assunto tratado no filme".

Na rulote do lado, um travesti maquilha uma bela mulher vestida de ouro e brilhantes. Chama-se Shrradha Pandit, tem um álbum editado, mas tornou-se conhecida por cantar temas de filmes para as actrizes desafinadas fingirem cantar por cima em playback. "Já emprestei a minha voz em cerca de 15 filmes. É qualquer coisa...", diz-nos com um sorriso muito certinho e branco. Parece uma boneca. Tudo em si é artificial - desde as lentes de contacto verdes até às longas extensões de cabelo - mas o seu visual não deixa de ser atraente, exótico, aspiracional. "Julgo que Bollywood é a única indústria em que os cantores de playback gozam de uma fama semelhante à das verdadeiras estrelas de cinema. É o meu caso e do meu amigo Sukhwinder Singh. Uma grande honra". O que é Bollywood para si? - "Oh! Muito glamour. É o cenário da minha vida. E espero fazer parte deste sonho durante muito, muito tempo".

E se durante décadas Bollywood era considerado o parente pobre de Hollywood, visto como a cópia risível das grandes produções americanas, esta realidade mudou radicalmente nos últimos dez anos. Bollywood renovou-se, actualizou-se. Nos seus argumentos os beijos e as cenas de sexo deixaram de ser tabu, as histórias passaram a ser mais universais, tornando-se actualmente a maior indústria de cinema do mundo, empregando mais de 2,5 milhões de pessoas e vendendo para cima de 4 mil milhões de bilhetes anualmente.De acordo com a CNN e a Screen Digest (empresa de estatísticas internacionais na área dos media) desde 2004 Bollywood está a produzir por ano perto de mil filmes, contra as cerca de 600 fitas produzidas por Hollywood. Feitas as contas, há mais de mil milhões de pessoas a comprar bilhetes para filmes indianos do que para filmes americanos. Tudo isto se deve à enorme quantidade de comunidades indianas espalhadas pelo mundo inteiro, que são as grandes consumidoras dos filmes que se produzem na Índia. Mas não só.

Uma estrela chamada Khan

Bollywood está na moda e interessa a cada vez mais gente. Se colocarmos a palavra Bollywood no sítio de busca Google obtemos... 50 milhões e 800 mil resultados. É o fenómeno da bollyweb. Até o consagrado compositor e produtor musical britânico Andrew Lloyd Webber (autor de "O Fantasma da Ópera" e "Cats") se rendeu ao imaginário do cinema indiano e encenou o musical "Bombay Dreams", mais um grande êxito de bilheteira no West End (2002), em Londres, e na Broadway (2004), em Nova Iorque. E, no ano passado, o filme "Quem Quer ser Bilionário" dirigido por Danny Boyle, arrecadou oito Óscares e voltou a dirigir as atenções do globo para Bollywood.

Basta andar um dia pelas ruas de Bombaim para percebermos quem reina em Bollywood. Em todo o lado esbarramos com o rosto de Shah Rukh Khan (SRK), a maior estrela pop do país. Ele está nos cartazes de rua, nas laterais dos autocarros, nos mupis de publicidade, nas televisões, nas capas das revistas. Tudo isto porque SRK - também apelidado de King Khan - é o sol entre as estrelas: as mulheres desejam-no, os homens admiram-no. De certa forma SRK é o próprio sonho indiano.

Nascido numa família humilde vingou numa indústria cinematográfica liderada há décadas pelas mesmas famílias poderosas. Num meio onde predomina o nepotismo ele é a excepção à regra. Ainda mais por ser um muçulmano convicto num país onde a maioria é hindu.O mais recente sucesso cinematográfico de SRK tem o seu nome no título. Em "My Name is Khan", o actor interpreta um muçulmano com síndroma de Asperger a lutar contra o terrorismo, o preconceito e a xenofobia. Uma obra envolta em polémica desde que o actor e os cinemas que exibem o seu filme foram ameaçados pelo partido extremista hindu Shiv Sena. Pudemos constatar esse estado de alerta quando comprámos o bilhete para ver "My Name is Khan" num cinema situado no centro histórico de Bombaim. Até chegarmos à sala, passámos por um aparato de polícias armados com metralhadoras, proibiram-nos de fotografar e sujeitaram-nos aos detectores de metais.

Um filme em cartaz há 14 anos

"Este filme tem a grandeza de mostrar que não há pessoas más, há circunstâncias que nos tornam maus. Eis um bom exemplo de como Bollywood produz cinema de qualidade, com mensagens actuais, importantes", comenta o empregado de hotel Mohamed Khan que pagou 100 rupias (cerca de € 1,60) para ver esta história pela segunda vez.Verdadeiramente insólito é perceber que na mesma cidade, a poucos quilómetros de distância, o cinema Maratha Mandir mantém um filme há 14 anos em cartaz. Trata-se do romance épico "Dilwale Dulhaniya Le Jayenge", que, numa tradução livre do hindi, quer dizer "vem apaixonar-te" e tem como protagonista - como seria de esperar - Shah Rukh Khan em início de carreira. À boca do cinema, um grupo de estudantes e velhos desocupados aguarda pelo início da sessão da tarde. Quase todos já o viram mais do que uma vez. Não se importam. "O filme é bom", defende um deles.

O projeccionista

Mas é o velho projeccionista Jagjivan Maru, há mais de quarenta a passar filmes para a grande tela, que nos traduz este fenómeno. "Num país com cerca de 50% de pessoas analfabetas, os filmes continuam a representar o principal veículo para a transmissão dos valores sociais e da cultura popular da Índia. Os bilhetes são baratos e acessíveis. Mesmo para aqueles que não têm televisão em casa". E por que razão este filme está há tanto tempo em cartaz? A resposta é devolvida de imediato: "Está bem feito. Tem belos cenários, canções muito boas e uma comovente história de amor que se inicia em Londres e termina na Índia. Vem questionar a tradição dos casamentos combinados pelas famílias, que ainda hoje persiste na nossa cultura. É uma mensagem social que pode mudar mentalidades. Algo que não encontro na maior parte dos filmes modernos, feitos em digital, que são para ver e esquecer. Deixam-nos de cabeça vazia. Nada ensinam".

O James Dean indiano

Pagámos 20 rupias (cerca de 30 cêntimos) para aceder à plateia de um dos cinemas de zinco construídos no miserável e fétido bairro vizinho da Filmcity - a mais antiga cidade cinematográfica da Índia. No interior do barracão, um pano velho divide duas salas com filmes em exibição. É contagiante ver o entusiasmo nos rostos daquelas dezenas de rapazes enquanto assistem às três horas de uma trama de gangsters recheada de pancadaria, tiros e explosões.A poucos metros, um portão de madeira vigiado por seguranças armados separa a Filmcity do bairro de lata de Goregaon, nos arredores de Bombaim. O luxo e o lixo, o sonho e a realidade, convivem lado a lado. Foi aqui que Bollywood nasceu, em 1911, com a filmagem do primeiro filme mudo, mas só ganhou o estatuto de fábrica de cinema a partir dos anos 70.

Entretanto, por força da necessidade, Bollywood estendeu os braços para outras recentes cidades cinematográficas situadas em Chennai e Hyderabad. Ao passearmos de carro por esta 'aldeia dos filmes' chegamos a ver réplicas de palácios sumptuosos, vilas rurais, casas senhoriais e templos. Tudo enquadrado numa paisagem tropical de jacarandás, mangueiras, anoneiras. "Parece África" - comenta a fotojornalista. É no altar de um desses templos de faz de conta que decorre a filmagem de uma das cenas do novo filme de acção protagonizado por Jimmy Shergill. Mais um 'filme masala', com muitos tiros, perseguições, romance e música q.b. Se SRK é rei, Jimmy é um dos vários príncipes desta indústria. Basta dizer que há dois anos foi distinguido com o conceituado troféu indiano V. Shantaram pela sua performance em "A Wednesday", mais uma trama sobre as actividades terroristas na Índia.

Jimmy dá ares de James Dean. Caminha com passos lentos, desenhados, tem pinta de rebelde e para onde vai arrasta consigo um séquito de técnicos e assistentes. Niru, o guia que nos ajudou a chegar a esta vedeta, pede-lhe um autógrafo. "He's big!", comenta.Numa pausa das filmagens, Jimmy compara o star system de Bollywood a Hollywood. "Não me é fácil estabelecer comparações. Algumas semelhanças são óbvias. Os estúdios, as estrelas, as estreias glamorosas de cinema com tapetes vermelhos. Tal como existe a cerimónia dos Óscares, em Hollywood, nós temos os Filmfare Awards, em Bombaim. A estatueta americana é masculina. A nossa é feminina. Mas as culturas são distintas, nós fazemos mais filmes por ano e os dólares continuam a valer mais do que as rupias". Algumas ruas acima, num palácio monumental com o recheio em tons de dourado, decorrem diariamente as gravações de uma série televisiva.

É neste cenário que o actor Shishir interpreta um rico advogado. No seu currículo tem uma lista generosa de participações no cinema e já contracenou com os maiores de 'Bolly'. Ri-se quando refere que o seu mais recente papel no grande ecrã é o de um morto-vivo em "Click", uma história de terror que está actualmente em cartaz. O que é Bollywood para si? "Din-hei-ro. Assim como glamour, brilho, reconhecimento, fama. Eu gosto. Acho que todos gostam dos nossos filmes. Se há alguém que diz que não estará a mentir com todos os dentes que tem na boca".