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No julgamento do "contabilista de Auschwitz", uma sobrevivente vai ter com ele e abraça-o

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FOTO MARKUS GOLDBACH / EPA

Foi um momento inesperado num processo que tem características bastante invulgares.

Luís M. Faria

Jornalista

Os pais de Eva Kor morreram ambos nas câmaras de gás de Auschwitz. Seria de esperar que, caso algum dia ela se encontrasse perante um antigo guarda desse campo - um membro das SS, como eles eram - a reação não fosse de simpatia. Mas o inesperado às vezes acontece. Depois de testemunhar contra Oskar Groening, o antigo "contabilista" de Auschwitz, que está a ser julgado na Alemanha, foi ter com ele e falou-lhe. Groening deu-lhe um beijo na bochecha e os dois abraçaram-se. Talvez não exatamente como bons amigos, mas com a cordialidade normal de dois seres humanos muito idosos a quem une um passado em comum.

Eva tem 81 anos, Groening 93. Após o encontro, ela disse que não faria sentido prendê-lo a apelou ao fim do julgamento. Uma atitude logo criticada pelos outros 49 queixosos, os quais sugeriram que ela tem todo o direito a sentir como entender, mas nesse caso não se devia ter constituído parte no processo. Afinal, conforme explicaram, este não é sobre o que Groening fez ou não fez a Eva ou a quem qualquer outro indivíduo em concreto.

Groening enfrenta acusações de ter sido cúmplice na morte das cerca de 300 mil pessoas que foram exterminadas durante o seu período em Auschwitz. Ninguém o acusa de ter morto diretamente ninguém. O seu papel era recolher os bens de quem chegava, em especial dinheiro, mantendo uma contabilidade rigorosa.   Eva agradece-lhe ter admitido publicamente o seu papel, para contrariar as teorias negacionistas em relação ao Holocausto. Afinal, ele não estaria a ser julgado se não tivesse descrito pormenorizadamente o que acontecia em Auschwitz numa entrevista que deu há anos à revista Der Spiegel.