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"Nesta noite de Natal toda a gente paga copos a toda a gente e não se fala nem se pensa em crise"

Como manda a tradição ontem os festejos foram longos e vibrantes na baixa do Funchal, na ilha da Madeira, mal o sol se pôs. Conhecida como a "Noite do Mercado", é considerada pelos madeirenses a festa das festas regada a poncha, cerveja e ginja. E, como já é hábito, milhares de pessoas aproveitaram para comprar até de madrugada fruta e verduras frescas no velho Mercado dos Lavradores.

Bernardo Mendonça, no Funchal

O cheiro doce a tangerina acabada de descascar e o travo forte da poncha regional sentia-se ontem a cada passo nas ruas junto ao Mercado dos Lavradores, na zona mais antiga do Funchal, na ilha Madeira.

Desde as 21h e até altas horas da madrugada a baixa da cidade foi tomada por milhares de madeirenses (e alguns continentais e estrangeiros) que ali acorreram para festejar a chegada do Natal, brindarem com amigos e familiares e fazerem as últimas compras de frutas e verduras para adornar a lapinha (presépio), um velho costume da região.

Bernardo Mendonça

Os festejos arrancaram com cantares no interior do mercado, e continuaram noite fora na rua. Esta talvez seja a noite mais fotogénica do ano no Funchal.

Alberto João Jardim talvez não concorde, dado o gosto que tem pelo Carnaval madeirense (e não consta que tenha sido visto na noite de ontem), mas a poesia dos festejos de 23 de Dezembro não tem paralelo.

As ruas vibravam com cor, muita cor pelas centenas de bancas de fruta montadas nas várias artérias da zona, abrilhantadas pelas iluminações de natal. A vontade de festa é geral e são muitos aqueles que usam barretes de Natal e fatos e adereços alusivos à quadra.

Bernardo Mendonça

Se os lisboetas têm o Santo António e os portuenses o São João (em Junho), os madeirenses têm o dia 23 para mostrarem do que são capazes no que toca a folia.

Uma banda tocou no snack bar Cica, um dos spots mais procurados da zona. Na montra uma mulher bonita e de sorriso largo dança ao som dos trombones e cornetas. Cláudia Rodrigues, 32 anos, é jornalista da RDP Madeira e uma madeirense com gosto pela cultura e costumes da região.

"Esta noite de Natal representa libertação. Um tipo de libertação emocional. É uma confusão entre a festa pagã e cristã.  É mais do que tudo uma festa de amigos que se encontram e reencontram. Encontro nestas ruas toda a gente, e as pessoas estão predispostas para a festa e divertem-se de forma intensa. E devo acabar a tomar o pequeno almoço na Avenida do Mar às sete da manhã", afiança. Diz beber cerveja, intercalada com poncha e água.

Bernardo Mendonça

E a crise sente-se? "Nesta noite de Natal toda a gente paga copos a toda a gente e não se fala, nem se pensa em crise. Toda a gente bebe, mesmo que traga pouco dinheiro na carteira", esclarece. Distrai-se com a conversa e ..."ai! Roubaram-me o copo".

Ela e a maioria das pessoas não quer perder de vista o copo. Vazio ou cheio. Porque este ano, a Noite do Mercado contou com a novidade de introdução de um copo reutilizável , com medidas variadas em função das bebidas, com um custo de 50 cêntimos na sua aquisição.

Copo esse que podia ser trocado de forma gratuita ao longo da noite. Uma ideia da Câmara para reduzir o lixo produzido. E... pelo menos no início da noite resultou. Porque pelas contas do município no ano passado foram produzidas 38 toneladas de lixo.

Um grupo de foliões com barretes verdes enfiados na cabeça brinda a 2015 com muita cerveja e alguma poncha.

"Só não bebemos mais poncha porque esta noite ela está 'arrafada', ou seja, é meia rafeira (leia-se mal feita). Boa poncha? É na Serra d´Água.  E viva o Marítimo!", aproveita Miguel Ferreira, 26 anos, consultor em tecnologias, um madeirense que vive actualmente em Lisboa.

Bernardo Mendonça

E explica a razão de tantas barbas brancas e barretes nas ruas: "O madeirense é muito apegado ao Natal. Na verdade os festejos começam na região a 17 de Dezembro com a matança do porco. Mas para mim o verdadeiro Natal começa a 23 com o espírito natalício que desce em força até à baixa do Funchal e anima a parte mais antiga da cidade.

Junto às bancas do mercado, várias senhoras negoceiam ramagens e verduras para decorarem as casas. Uma delas é Sizaltina Afonseca, 56 anos, doméstica. Leva nas mãos um molho de alcácias (verdura ponteada por flores amarelas)  que lhe custaram 1,50€. Mas anda à procura de outras. "Quero o meu presépio muito verdinho".

Élvio Barros, 32 anos, faz vida no velho mercado do Funchal desde os oito anos. "Brincava aos pontapés aos peros e o meu pai arreava-me". Na sua rica banca vende tomate inglês, tangerina, anona, laranja, banana da madeira e dióspiros.

Investiu muito na sua banca para não faltar fruta até às duas da manhã (que é quando o mercado encerra) e conta que o 'Pai Natal' lhe dê um bolso recheado de notas. "Comprei 1000kg de tangerinas, 500 kg de laranjas. Até estou a vender bem. Isto vai render cerca de €1.500 de lucro. Vivo um ano inteiro à espera desta noite".