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Neil enviou o primeiro SMS do mundo há 22 anos. "Não tinha ideia do que iria acontecer"

Vinte e dois anos depois de ter sido enviada a primeira mensagem escrita, os SMS são uma forma de comunicação utilizada diariamente em todo o mundo

AFP/Getty Images

Falámos com Neil Papworth, o programador que enviou a primeira mensagem escrita. Contamos como foi e como é: em Portugal, e só em 2013, foram enviadas 27 mil milhões de SMS (pela primeira vez, o número desceu). Durante os próximos dias, o Expresso conta a história de um número: hoje é gigantesco - 27.000.000.000.

Faltavam 22 dias para o Natal de 1992 quando Neil Papworth enviou a primeira mensagem escrita. O programador britânico tinha 23 anos e estava há vários meses a desenvolver o software que permitiria enviar mensagens. Na primeira de todas lia-se "Feliz Natal", em inglês, escrito a partir do teclado de um computador. "Em 1992, os telemóveis ainda não podiam enviar mensagens, só receber", explica ao Expresso.

"O momento foi muito clínico. Estava numa aborrecida sala de máquinas, com ar ventilado, barulhenta, com pessoas à minha volta a dizer o que enviar e quando enviar. Basicamente, para mim, foi um dia como muitos dos outros que passei a testar o sistema nos meses anteriores", conta. "Naquela altura, não tinha ideia do que iria acontecer."

A mensagem foi enviada a Richard Jarvis, o então diretor da Vodafone. "Ele estava na festa de Natal da empresa quando a recebeu." Neil diz ter levado dez anos a perceber "verdadeiramente" a dimensão daquele momento. "O 10.º aniversário foi o primeiro a ser celebrado. Eu estava em Madrid nessa altura e o meu chefe ligou-me. 'A BBC está a tentar entrar em contacto contigo. Querem entrevistar-te!'. Foi então que eu percebi."

Hoje, vinte e dois anos depois, é mais claro o impacto daquele primeiro SMS (Short Message Service). Em Portugal, foram enviadas 27 mil milhões de mensagens durante os 365 dias de 2013, ou seja, cerca de 73 milhões por dia, numa média de dez por utilizador. Há dez anos, enviavam-se tantas mensagens durante um ano inteiro como agora se enviam num só mês - 2 mil milhões. E ainda que o número total de SMS seja 12 vezes maior do que era há uma década, a verdade é que 2013 foi o primeiro ano em que a quantidade de mensagens desceu. Foram enviadas menos 1.095 milhões do que em 2012. Já os números deste ano, disponibilizados pela ANACOM, mostram que até ao final de setembro tinham sido enviadas 18 mil milhões de mensagens, menos do que no mesmo período do ano anterior.

Fazer dinheiro com isso Quando foi enviada a primeira mensagem escrita, a ideia era criar um sistema de comunicação técnica. "Os SMS são uma história de sucesso inesperado. Era para ser usado entre técnicos, mas depois os operadores perceberam que poderiam fazer dinheiro com isso", aponta Luís Correia, investigador do INOV-INESC (Instituto Nacional de Engenharia de Sistemas e Computadores). O facto de as operadoras lançarem as mensagens com preços baixos foi uma ajuda para esse impulso. "Enviar SMS era muito mais barato do que telefonar."

Só que desde sempre a utilização de mensagens escritas teve um "perfil geracional muito forte". "Falar ao telefone toda a gente fala. Enviar SMS é menos comum entre as pessoas acima de 40 anos." Os inquéritos anuais do Observatório da Comunicação mostram que há "comportamentos claramente divergentes" quando se olha para o número médio de mensagens enviadas por dia entre pessoas com diferentes idades. Cerca de um quinto dos utilizadores enviava até cinco SMS diárias em 2011 e 35,7% tendiam a enviar mais de 15 por dia. E enquanto uma em dez pessoas com mais de 65 anos diz não enviar mensagens, praticamente todos os jovens (99,5%) entre os 15 e os 24 anos dizem utilizar o telemóvel para esse efeito.

Uma das coisas que nós vimos O facto de estar concentrada nos jovens uma maior intensidade no envio de mensagens faz com que as alterações dos seus hábitos de utilização do telemóvel possam ter impacto nos números de SMS. "Temos a confirmação da tendência de que os estudantes têm um acesso à Internet que antes não tinham", conclui Luís Correia, coordenador de um inquérito feito a jovens sobre a forma como utilizam o telemóvel e as redes sociais. Agora, 60% dos estudantes têm um tarifário com um pacote de dados incluído. "Naturalmente, quanto mais o telemóvel e os tablets tiverem acesso à Internet, mais haverá tendência a diminuir o número de SMS", acrescenta.

É essa a justificação referida pela ANACOM, no relatório com os dados estatísticos. O aparecimento de "formas de comunicação alternativas" e o surgimento de tarifários com tráfego de dados incluído, que podem "eventualmente potenciar a migração de utilizadores do serviço SMS para o serviço de acesso à Internet", são dois motivos apontados para a quebra do número em 2013. No mesmo sentido, o barómetro de telecomunicações da Marktest indica que cerca de um quarto dos utilizadores de telemóvel com pelo menos 10 anos utiliza os serviços de instant messaging.

"Uma das coisas que nós vimos é que, de facto, a percentagem de estudantes que envia SMS diminuiu do ponto de vista de ser esse o serviço mais usado", refere Luís Correia. Enquanto no ano passado 70% dos estudantes diziam que o serviço que mais usavam era o dos SMS, no inquérito de 2013 essa proporção baixou para 55%. O valor médio de mensagens enviadas pelos jovens ronda as 100 por dia. "Tem-se mantido ao longo destes anos, ainda que seja ligeiramente inferior", comenta o investigador, acrescentando que há dois anos a média era de 107,8 mensagens por dia e no ano passado era de 101,9.

Para milhões de pessoas pelo mundo fora, os 160 caracteres de um SMS tornaram-se familiares e foram espaço para uma nova linguagem que tinha como base inúmeros tipos de abreviaturas. Neil Papworth diz que o envio da mensagem, há 22 anos, foi um marco na sua vida. "Representa um momento no tempo em que eu fiz algo de que me orgulho muito hoje. É algo que está nos livros de História e que eu posso mostrar aos meus filhos, quando tiverem idade para perceberem", conta. "E então nessa altura eles dirão: 'Espera, pai, tu fizeste isso?'."