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Não é submissão nem absorção

Gokhan Tan / Getty Images

Desde que chegou ao Vaticano, Francisco já realizou seis viagens fora de Itália. Em quase todas, procurou erguer pontes entre realidades diferentes: chegou estrangeiro e saiu amigo. Durante os próximos dias, o Expresso conta a história de um número - hoje é 6.

Os sinos dobram à sua chegada. São 20h20 desse dia de sábado e a pequena Igreja de São Jorge, no bairro de Phanar em Istambul, está preparada para o receber. O Bispo de Roma passa o seu exterior simples, de estilo neoclássico, e entra no interior de um edifício ricamente ornamentado. Eram as vésperas da Festa de Santo André, o fundador da Igreja Ortodoxa, e o Papa Francisco, que representa os 1,2 mil milhões que constituem a Igreja católica, juntava-se a Bartolomeu, Patriarca de 300 milhões de cristãos ortodoxos, para uma oração ecuménica.

Simples e humilde, Francisco disse: "A noite traz sempre consigo um sentimento misto de gratidão pelo dia vivido e de entrega trepidante à vista da noite que cai. Nesta noite, o meu espírito transborda de gratidão a Deus, que me concede estar aqui para rezar juntamente com Vossa Santidade e com esta Igreja irmã no final de um dia intenso de visita apostólica".

E continuou, apelando à união das duas Igrejas: "[André e Pedro] eram irmãos de sangue, mas o encontro com Cristo transformou-os em irmãos na fé e na caridade. E, nesta noite jubilosa, nesta oração de vigília, quero sobretudo dizer: irmãos na esperança". Francisco, Bispo de Roma, é sucessor de Pedro. Bartolomeu, Patriarca de Constantinopla, sucessor de Santo André.

No final do discurso, o mundo presenciou um dos gestos mais simbólicos da visita do Papa Francisco à Turquia. O padre Anselmo Borges, autor do livro "Religião e Diálogo Inter-Religioso", recorda-o ao Expresso. Num ato surpreendente de humildade, Francisco (ou Pedro) inclinou-se perante Bartolomeu (ou André) e disse-lhe: "Peço-lhe um favor: abençoe-me a mim e à Igreja de Roma".

O Papa Francisco, durante a oração ecuménica na Igreja de São Jorge, em Istambul

O Papa Francisco, durante a oração ecuménica na Igreja de São Jorge, em Istambul

Gokhan Tan / Getty Images

Ri e chora, tem dúvidas e telefona Desde que foi eleito Papa em março de 2013, Jorge Mario Bergoglio já embarcou em várias viagens. Fora de Itália, foram seis: começou no Brasil, nas Jornadas Mundiais da Juventude; foi à Jordânia, Israel e Palestina; passou pela Coreia do Sul; foi a Tirana, na Albânia; a Estrasburgo, em França; e, por fim, à Turquia.

Existe um elemento que está quase sempre presente quando dá entrada num novo país: o diálogo. Seja ecuménico ou religioso, Francisco chega estrangeiro e sai amigo, criando pontes entre diferentes realidades. Foi tendo isto como baliza que o padre católico e professor universitário Anselmo Borges escolheu o encontro entre Francisco e Bartolomeu como o mais marcante das viagens que o Papa realizou fora de Itália.

"Francisco sabe que, no contexto de um mundo globalizado e paganizado, o cristianismo tem que estar unido, superando as divisões que se operaram ao longo da história", explica Anselmo Borges. "Esta visita à Turquia foi muito importante, pois teve gestos muito significativos, havendo inclusivamente uma declaração conjunta católico-ortodoxa de alto significado." Desde o Papa João Paulo II que se estuda uma nova forma de resolver o problema, essencial para os ortodoxos, do primado papal de Roma. É talvez por isso que Francisco, "significativamente, não se refere a ele próprio como Papa, mas como Bispo de Roma". Além disso, "nos vários abraços que deu ao seu irmão André (...), disse claramente que 'a plena comunhão das duas Igrejas, católica e ortodoxa, não é submissão nem absorção'".

"As suas visitas não são ao acaso", garante o padre e autor do livro "Religião e Diálogo Inter-Religioso". Francisco sabe que a Turquia pode "fazer de ponte entre a Europa e o Médio oriente", sendo um país de maioria muçulmana (cerca de 98% da população), mas onde prevalece a laicidade do Estado. E sabe que as relações entre ortodoxos e católicos não podem ficar neste primeiro passo: é por isso que "quer ir a Moscovo ou a qualquer outro lugar para dialogar com o patriarca Kirill e prepara cuidadosamente novas relações com a China".

O diálogo, capaz de construir pontes, é a palavra-chave de um Papa que não se detém com críticas dentro ou fora da Igreja. "Mesmo dentro da Igreja há quem pense que a orientação do Papa pode levar à perda da identidade da Igreja", sublinha Anselmo Borges. Mas isso não é impedimento para Francisco fazer o que considera certo.

Talvez por isso Francisco se tenha tornado "a figura mais popular do mundo e uma das mais influentes". "O seu segredo está na dessacralização do papado", revela o padre da Sociedade Missionária da Boa Nova. "É um homem cativante pela simplicidade, humildade, ri, chora, tem dúvidas, telefona aos amigos ou a quem está em dificuldade, e as pessoas sabem e sentem que ele gosta delas e quer a sua felicidade".