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Motivos de Lubitz para fazer cair avião "podem ser" os mesmos dos jovens da Jihad

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Homenagem às vítimas do voo da Germanwings

FOTO REUTERS

Carregar, premeditadamente, no botão de descida de um avião para o fazer despenhar-se e levar para a morte mais de uma centena de pessoas "pode ter" a mesma razão de origem que leva jovens discretos e calados a escolherem a Jihad, optando por morrer matando. Vejamos o que têm a dizer especialistas em saúde mental. Que a depressão leve a estes atos não é um princípio geral.

A ideia de fazer cair um avião, facto que se atribui a Andreas Lubitz, o alemão de 27 anos acusado de levar um airbus a precipitar-se nos Alpes, é tão incompreensível como a razão que leva uma série de jovens, com vidas dentro da chamada normalidade, a juntar-se à Jihad. Mas poderão ter a mesma origem. 

"A normalidade é o maior dos enganos", diz ao Expresso Pedro Macedo, psiquiatra de 58 anos e com longo currículo, para quem são tão incompreensíveis o ato atribuído a Lubitz como a ida para o autodenominado Estado Islâmico, onde as regras estão nas antípodas dos princípios elementares das relações humanas. 

Esses jovens, na maioria das  vezes, crescem sem contrariar qualquer princípio e, "de repente, há um sentimento enorme de revolta que os faz aceitar não só morrer, como matar".  

A questão parece estar, segundo Pedro Macedo, no processo de revolta: "não se conseguem revoltar, não há como se revoltarem". 

Daí que se escolham certos caminhos incompreensíveis para a maioria dos seres humanos. Na origem das intenções também parecem estar os sintomas mais populares da depressão (chamemos-lhes assim para facilitar), a desilusão com tudo o que existe, a falta de sentido para a vida, uma vontade de fugir para longe de tudo... 

Agora, será que estas vontades - de suicídio-assassínio - significam depressão? Na sexta-feira, vários foram os especialistas em saúde mental ingleses levados a pronunciar-se sobre a doença que eventualmente Andreas Lubitz teria e que poderia tê-lo levado a carregar no botão de descida. 

Relatar a depressão de forma responsável

Até certa altura, era voz corrente que Lubitz poderia ter tendência para se deprimir, já que em 2009 interrompera o curso de piloto devido a "problemas pessoais" que se soube serem uma depressão. Por isso, alguns médicos ingleses mostraram-se preocupados por se estar a evocar levianamente as doenças mentais. 

"Com as manchetes de hoje (sexta-feira) corre-se o risco de agravar o estigma à volta dos problemas de saúde mental, dos quais milhões de pessoas sofrem todos os anos", escreveram três especialistas britânicos, com a intenção de "incentivar os meios de comunicação a relatar o problema de forma responsável".

Para Sue Baker, Paul Farmer e Mark Winstanley, do site Mind, dedicado a apoiar e seguir pessoas com problemas mentais, "haverá pilotos com experiência de depressão que voaram em segurança, por décadas. As avaliações devem ser feitas caso a caso". 

"A perda [que aconteceu] com o Airbus é um horror medonho", diz o presidente do Colégio Real de Psiquiatras, organização que reúne mais de 15 mil especialistas ingleses. "Até que os factos sejam conhecidos, devemos ter cuidado para não fazer julgamentos precipitados."

"Se for o caso de um piloto ter um histórico de depressão, devemos ter em mente que o mesmo acontece com vários milhões de pessoas neste país", acrescenta Simon Wessely no depoimento publicado pelo site de informação de ciência "Science Media  Centre". 

Por outro lado, Seena Fazel, professor de Psiquiatria Forense, lembra que "a investigação sobre as mortes em massa associadas ao suicídio sugere que, no momento da morte, a doença mental é rara e os indivíduos que a cometem parecem ser motivados por um conjunto complexo de fatores individuais e sociais que interagem de formas imprevisíveis". 

"Isto significa que não é possível a identificação de indivíduos de alto risco", frisa Seena Fazel. Aliás, isso será tão difícil como afirmar que Andreas Lubitz, alemão de 27 anos, piloto da Germanwings, sofria de depressão.  

"Não sei se é depressão. Ter esta intenção... tomar a decisão de ir trabalhar e fazer cair um avião com 150 dentro é um ato de revolta", diz Pedro Macedo, que também realça o facto de um episódio na vida não quer dizer que o futuro está comprometido. 

"Depressão não é um diagnóstico"

Até agora, ninguém veio dizer que Andreas Lubitz chorava constantemente, que não comia, que não queria estar com ninguém. Isso, sim, como refere Pedro Macedo, são sintomas de quem está deprimido.  

"Uma depressão é uma situação de que falamos quando há humor deprimido. Dizer que tem uma depressão não é um diagnóstico. Falamos em depressão como sintoma. Como doença, há vários tipos e há maneiras diferentes de se entender, pode fazer parte de outra doença. Mesmo a doença depressiva tem várias interpretações", explica Pedro Macedo. 

No ato de Lubitz, como nos jiadistas, há um sentido violento. Uma coisa é uma pessoa escolher matar-se, seja por que razão for, de forma anónima, fazê-lo em casa, por exemplo; outra é decidir arrastar para morte outras pessoas no seu ato suicida, acontecimento que gerará sempre notícias. 

"Não é por caso que se toma a decisão de fazer despenhar um avião, que se espera que saia o comandante, que se fecha a porta", reflete o psiquiatra português, para quem este procedimento levanta outras questões. 

Quando se resume tudo à depressão que eventualmente Lubitz teria, ou porque já tinha tido uma ou porque a doença que andava a tratar no hospital de Düsseldorf o estaria a afectar psicologicamente, pode-se estar a cair na banalização do mal. 

A banalização do mal, uma vez mais 

Como diz Pedro Macedo, voltar o sucedido para a depressão é banalizar a questão. "Pela descrição do que se passou, parece uma coisa pensada. Ele estava com fúria. Uma pessoa deprimida não tem ânimo, nem determinação nem força." 

"Ele faz isto no local de trabalho. Parece estar a dizer: vou lixar estes gajos. Parece estar a querer vingar-se do mundo", afirma, lembrando que isso não significa estar deprimido. "E quem pode afirmar que Andreas Lubitz não teve simplesmente um episódio psicótico?" 

"O suicídio-assassínio é extremamente raro: anualmente, é cometido por duas a três pessoas em cada milhão (0,0002-0,0003% da população), uma taxa que se tem mostrado estável ao longo do tempo", diz Paul Keedwel ao "Science Media Centre". 

"Por razões óbvias, não podemos saber o estado mental do agressor no momento do homicídio", acrescenta o  psiquiatra e especialista em transtornos do humor.