Expresso

Siga-nos

Perfil

Perfil

Sociedade

Morreu, aos 77 anos, a escritora Rosa Lobato de Faria

  • 333

Morreu hoje, em Lisboa, Rosa Lobato de Faria. A escritora e actriz sofria de complicações do aparelho digestivo e estava hospitalizada na decorrência de uma anemia grave. (Veja no final do texto vídeos colocados no Youtube)

José Mário Silva (www.expresso.pt)

Mulher de letras versátil, que tanto escrevia romances como letras de canções, Rosa Lobato de Faria, morreu hoje, na sequência de uma anemia grave. A escritora sofria de complicações do aparelho digestivo e estava internada há uma semana numa unidade de saúde privada, em Lisboa.

Nascida a 20 de Abril de 1932, filha de um oficial da Marinha, era viúva do editor Joaquim Figueiredo Magalhães, fundador da Ulisseia, desaparecido em Novembro de 2008. Escritora tardia, estreou-se na década de 80 como poeta (a sua obra lírica está reunida no volume "Poemas Escolhidos e Dispersos", de 1997).

Em 1995, aos 63 anos, publicou o seu primeiro romance: "O Pranto de Lúcifer". Seguiram-se muitos outros, a um ritmo quase anual: "Os Pássaros de Seda" (1996), "Os Três Casamentos de Camilla S." (1997), "Romance de Cordélia" (1998), "O Prenúncio das Águas" (1999), "A Trança de Inês" (2001), "O Sétimo Véu" (2003), "Os Linhos da Avó" (2004), "A Flor do Sal" (2005) e "A Alma Trocada" (2007), todos com chancela das Edições ASA.

Em 2008, acompanhando o editor Manuel Alberto Valente, mudou-se para a Porto Editora, onde publicou o seu último romance: "As Esquinas do Tempo".

Como letrista, Rosa Lobato Faria assinou centenas de versos para canções de música ligeira e igualou José Carlos Ary dos Santos no número de vitórias conseguidas no Festival RTP da Canção: quatro. Todas na década de 90: "Amor de Água Fresca" (1992); "Chamar a Música" (1994); "Baunilha e Chocolate" (1995); e "Antes do Adeus" (1997).

Destacou-se ainda como actriz. Primeiro na televisão, em programas de humor e telenovelas. Depois no cinema, dirigida por João Botelho ("Tráfico" e "A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos da América"), Monique Rutler ("Jogo de Mão") e Lauro António ("Paisagem sem Barcos" e "O Vestido Cor de Fogo").

O corpo da atriz e escritora Rosa Lobato Faria, que hoje morreu, vai estar amanhã de manhã na Igreja de Santa Isabel, perto do Largo do Rato, em Lisboa, onde decorrerá uma missa pelas 15h00, disse à Lusa um familiar.

Depois da celebração, o funeral sairá para um cemitério de Lisboa, mas a fonte disse ainda desconhecer qual. Assegurou, contudo, que os restos mortais da atriz que ficou conhecida pela participação em Novelas como "Vila Faia" e "Origens" irão ser cremados num dos dois únicos cemitérios que o fazem em Lisboa: Olivais ou Alto de S. João.

Artigo da Lusa: Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Cavaco Silva envia condolências

O Presidente da República dirigiu uma mensagem de condolências à família de Rosa Lobato Faria, considerando a escritora e atriz uma "figura notável".

"É com profundo pesar que apresento as mais sentidas condolências, em nome dos portugueses, em meu nome pessoal e da minha mulher, à família de Rosa Lobato de Faria, figura notável que hoje nos deixou e a cuja memória presto a minha sincera homenagem", escreve, na nota, o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.

Homenagem do Ministério da Cultura

O Ministério da Cultura emitiu uma nota de pesar pelo falecimento, ocorrido hoje, de Rosa Lobato Faria, homenageando a atriz e escritora com "admiração e saudade".

"Poetisa, romancista, argumentista, cronista e atriz de teatro, cinema e televisão", Rosa Lobato Faria deixa um "legado que atesta a sua criatividade e extrema sensibilidade e que perpetuará como fonte de inspiração para novas gerações", refere a nota.

Luís Andrade: Marca "para sempre" no panorama cultural português

A escritora Rosa Lobato de Faria foi uma "grande senhora" que marcará "para sempre" o panorama do teatro e da literatura em Portugal, disse hoje à Lusa o ex-diretor de programas da RTP Luís Andrade.

"Era uma grande senhora, acima de tudo. Uma grande escritora e uma grande intérprete. Portugal, mais uma vez, fica muito mais pobre com esta inesperada morte", disse.

Para Luís Andrade, a escritora "é uma figura que fica para sempre a marcar o panorama do teatro e da literatura portuguesa".

O ex-diretor de programas da RTP salientou "a grande figura", cuja morte, "apesar de estar no hospital", foi "inesperada".

Tozé Martinho: "Perda significativa" nas artes

O argumentista Tozé Martinho considerou, em declarações à Lusa, que a morte, ocorrida hoje, da escritora Rosa Lobato de Faria é "uma triste notícia" e uma "perda significativa" para a indústria das artes.

"É uma triste notícia, a que me deram há pouco. É uma perda significativa porque as pessoas que são grandes pessoas fazem sempre falta ao desenvolvimento natural desta indústria - que é uma indústria - do vídeo, do filme, do texto", afirmou.

O autor de novelas recordou a mulher que conheceu pouco tempo depois de ter começado a carreira, durante as gravações da telenovela "Vila Faia" e que acabou por se tornar uma "amiga".

"Perder um amigo, um colega, uma grande escritora, uma grande mulher é sempre um martírio", lamentou.

José Jorge Letria: "Morte deixa grande vazio cultural e literário"

O administrador delegado da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), José Jorge Letria, afirmou hoje que a morte de Rosa Lobato de Faria "deixa um grande vazio na vida cultural e literária em Portugal".

"Com a polivalência de Rosa Lobato de Faria não conheço outra na cultura portuguesa", disse José Jorge Letria, sublinhando que a escritora e atriz começou como poeta, depois foi divulgadora de poesia, autora de letras de canções, atriz de teatro e de televisão, ficcionista e ultimamente profissionalizou-se na escrita literária.

"Era muito profissional em tudo o que fazia", frisou.

"Foi com enorme pesar que a SPA recebeu a notícia da morte de Rosa Lobato Faria, um nome importante da vida literária portuguesa, mas também uma importante autora de programas de televisão, autora de canções e, em tempos mais recuados, divulgadora de programas de poesia na televisão em colaboração com David Mourão-Ferreira", telenovelas e outros programas", sublinhou José Jorge Letria.

Mário Zambujal: "Uma mulher de escrita fácil"

O escritor Mário Zambujal recorda a sua colega Rosa Lobato Faria, hoje falecida, como uma "pessoa encantadora cheia de talentos" que aplicava em "tudo o que fazia".

"Rosita", como se lhe referiu em declarações à agência Lusa, era uma mulher de "talentos fenomenais", que escreveu "poemas magníficos" e com quem colaborou em três projetos de escrita coletiva que envolveram um total de sete escritores: "Novos Mistérios de Sintra", "Código de Avintes" e "Eça Agora".

"Era uma mulher de escrita fácil e com grande qualidade", reconheceu Zambujal, que lhe realça ainda as qualidades de atriz.

"Chocou-me bastante" o seu desaparecimento, acrescentou.

Alice Vieira recorda poesia

A alegria e a versatilidade foram duas das qualidades que a escritora Alice Vieira destacou da carreira de Rosa Lobato de Faria.

"É muito complicado, muito difícil pensar que morreu, porque era muito alegre e gostei imenso de trabalhar com ela", disse Alice Vieira à agência Lusa.

Alice Vieira colaborou com Rosa Lobato de Faria nas obras "13 gotas ao deitar", "Eça Agora - Os herdeiros dos Maias" ou "Os novos mistérios de Sintra", escritas por vários autores.

Do percurso de Rosa Lobato de Faria, a escritora elogia sobretudo a obra literária, em particular a poesia.

"Tem dois ou três romances muito bons e a poesia. Ela começou na televisão a dizer poemas, ainda na televisão a preto e branco, e dizia muito bem", recordou.

"Ela de facto é conhecida sobretudo pelo que fez na televisão, mas é injusto, porque nunca teve a aceitação que merecia por parte da crítica pelos seus romances, porque estava ligada à televisão e às cantigas", sublinhou Alice Vieira.

João Botelho: "Excelente atriz" e "grande contadora de histórias"

O realizador João Botelho recorda Rosa Lobato Faria como uma "excelente atriz", mas também uma "grande contadora de histórias com quem dava gosto estar à conversa".

"Uma senhora muito bonita" e "uma grande amiga" foram outros elogios que o cineasta dirigiu à escritora.

Artigo da Lusa: Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

O Expresso apoia e vai adoptar o novo Acordo Ortográfico. Do nosso ponto de vista, as novas normas não afectam - antes contribuem - para a clarificação da língua portuguesa.

Por outro lado, não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário. O facto de a partir de 1911 a palavra phleugma se passar a escrever fleugma e, já depois, fleuma não trouxe alterações ao modo como é pronunciada. Assim como pharmacia ou philosophia.

O facto de a agência Lusa adoptar o Acordo, enquanto o Expresso, por razões técnicas (correctores e programas informáticos de edição) ainda não o fez, leva a que neste sítio na Internet coexistam as ortografias pré-acordo e pós-acordo.

Pedimos, pois, a compreensão dos nossos leitores.