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Morreu Alois Brunner, braço-direito de Eichmann

Brunner trabalhava como braço-direito de Adolf Eichmann, que o elogiava e lhe chamava "o meu melhor homem"

AFP/Getty Images

Peça importante no Holocausto, disse mais tarde que o seu único lamento era não ter morto mais judeus. Tinha 98 anos e morreu exilado na Síria, onde foi conselheiro do regime.

Luís M. Faria

Jornalista

Os caçadores de nazis acabam de anunciar que o nome de topo na sua lista morreu há quatro anos. Alois Brunner, 98 anos, vivia em Damasco e até ao fim, tanto quanto sabemos, não se arrependeu do seu passado.



Em 1985 deu uma entrevista a uma revista alemã, na qual disse que o seu único lamento era não ter matado mais judeus. Anos mais tarde reiterou a ideia quando falou ao telefone com o "Chicago Sun Times": "Os judeus mereciam morrer. Não tenho remorsos. Se tivesse oportunidade, fá-lo-ia outra vez...". Mesmo já idoso, Brunner conservava intacta a virulência do seu antissemitismo, que aliás o servia bem no seu lugar de exílio.



Foi esse antissemitismo que o recomendou aos nazis. Nascido em 1912 na Áustria, aderiu ao partido com 19 anos e às SS com 26. As SS eram uma força voluntária, à qual só pertenciam militantes especialmente devotados. Brunner correspondia sem dúvida ao perfil. Posto a chefiar o departamento que tratava da emigração judia no seu país, depressa mostrou a eficiência que depois repetiria noutros lugares.



Da emigração à deportação foi um passo, e o enérgico SS encontrou a sua verdadeira vocação. Ao todo, sob a sua égide cerca de 47 mil judeus austríacos seriam enviados para campos de concentração e de extermínio. A seguir seria a vez da Grécia, onde Brunner destruiu a comunidade judaica de Salónica, que tinha quinhentos anos. Aí, o número estimado foi um pouco menor - 44 mil - mas o efeito igualmente devastador. Seguiram-se depois a França, com 23.500 (incluindo dezenas de meninos retirados de um orfanato) e a Eslováquia.



Nessa altura Brunner trabalhava como braço-direito de Adolf Eichmann, que o elogiava e lhe chamava "o meu melhor homem". O que Eichmann concebia, Brunner executava. Mas só aquele pagaria pelo seu papel naquilo que ficaria conhecido como Holocausto, ou Solução Final. Anos depois da guerra, Eichmann seria raptado pelos israelitas na Argentina e executado em Israel, após um famoso julgamento. Brunner, que preferiu refugiar-se na Síria, nunca foi capturado.  



Ainda lhe enviaram duas cartas-bombas, a primeira em 1961 e a segunda vinte anos depois. Uma era dos franceses (por causa do apoio aos rebeldes argelinos, parece), outra da Mossad. Mas embora ele tenha ficado sem um olho e alguns dedos, não morreu. Continuou a viver em Damasco com o nome Georg Fischer, num endereço que toda a gente conhecia. Os insistentes pedidos de extradição foram sempre negados pelo governo sírio, que dizia não ter conhecimento da sua presença no país.



Consta que o Presidente Hafez Assad, pai do atual, estimava os conselhos de Brunner nas artes da tortura. O ex-SS tinha chegado à Síria após uma fuga em que passara por vários países e beneficiara de uma confusão de nomes - outro SS foi executado no seu lugar - bem como da generosidade de judeus que a certa altura lhe alugaram um quarto. Eram gente simpática, contou mais tarde.