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(Mais uma) mulher acusa Bill Cosby de abuso sexual. Mãe da vítima escreve à esposa do ator

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Bill Cosby numa atuação recente do seu nespetáculo, em Las Vegas

Ethan Miller/Getty Images

Numa altura em que duas dezenas de mulheres o acusam abertamente de agressões sexuais, o comediante norte-americano de 77 anos prossegue a sua atual tournée.

Luís M. Faria

Jornalista

Em 1988, uma jovem de 17 anos conheceu o comediante Bill Cosby durante uma gravação do programa que o norte-americano protagonizava na altura (The Bill Cosby Show, uma sitcom de enorme sucesso). Jennifer Kaya Thompson, que viajara até Nova Iorque sem contar à família, tinha o projeto de ser modelo. Cosby ofereceu-se para ajudar. Telefonou aos pais dela, que moravam em Maryland, a algumas centenas quilómetros de distância, e convidou-os para jantar em sua casa. Durante o encontro, os Thompson dizem que não deram por nada de estranho. Cosby propôs-se orientar a jovem na sua carreira. Sugeriu que ela fosse morar com outras modelos num apartamento, garantiu-lhes que não havia problema nenhum. Eles achavam-no uma pessoa inteiramente de confiança. Segundo explicaram mais tarde, viam-no como se fosse o próprio dr. Huxtable, o médico que o ator interpretava na televisão.   Jennifer mudou-se para Nova Iorque e começou a receber as atenções de Cosby - atenções muito insistentes. Ele telefonava-lhe, convidava-a para sair, queria comprar-lhe roupas, tocava-lhe por vezes à socapa. Ela sentiu-se incómoda e compreendeu no que ele poderia estar realmente interessado. Desiludida, e triste por perceber que afinal os elogios que recebera não eram o que pensara, enviou a Cosby um poema em que falava de hipocrisia e deixou Nova Iorque. Voltou algum tempo depois, com o objetivo, afirma, de colocar um ponto final na situação. E foi isso que aconteceu, mas não da forma como ela esperava. Mais uma vez, o comediante terá multiplicado as atenções. E a certa altura pressionou-a (ela descreve assim) para praticar sobre ele um determinado ato sexual. Ela obedeceu. No fim, Cosby entregou-lhe setecentos dólares.   "Quem é a vítima?" Esta a versão de Jennifer. A história já era conhecida, embora não com o nome da alegada vítima. Em 2005, uma outra mulher processou Bill Cosby e apresentou como testemunhas 13 mulheres, todas identificadas publicamente como Jane Doe e um número, que teriam passado por situações semelhantes com o artista. Como o processo acabou em acordo, nenhuma delas chegou a contar a sua história.

Três alegadas vítimas de Bill Cosby, acompanhadas pela advogada Gloria Allred (à direita), reagem em conferência de imprensa, em janeiro deste ano, em Los Angeles, à notícia de que o comediante foi acusado de agressões sexuais a 20 mulheres

Três alegadas vítimas de Bill Cosby, acompanhadas pela advogada Gloria Allred (à direita), reagem em conferência de imprensa, em janeiro deste ano, em Los Angeles, à notícia de que o comediante foi acusado de agressões sexuais a 20 mulheres

Kevork Djansezian/Getty Images

Agora, com a sucessão de relatos surgidos desde que uma mulher publicamente acusou Cosby no ano passado, Jennifer e a família arranjaram coragem para falar. Dizem que não o fizeram antes, nem se queixaram à polícia, por estarem convencidas de que ninguém ia acreditar. Mas com umas duas dezenas de mulheres a darem a cara e a contar a mesma coisa, o caso muda de figura. A mãe de Jennifer, Judy Thompson, resolveu escrever uma carta à esposa do comediante, Camille, que o tem defendido contra as acusações. Camille sugere que a única pessoa a sofrer danos é o marido, mas Judy pergunta: "Nenhum de nós deseja alguma vez estar na posição de atacar uma vítima, mas deve-se perguntar: quem é a vítima?". Acrescenta que a filha perdeu a sua luz interior desde a cena com Cosby  - até por perceber que sem fazer o que lhe era exigido nunca seria ninguém no meio artístico - e diz que o abusador "atravessou barreiras que não devem ser rompidas". Apela aos Cosby para dizerem a verdade e diz que reza por eles todos os dias. Junto com a carta vem o texto de um salmo.
Mulher exibe um cartaz durante uma manifestação contra Bill Cosby, à porta da sala de espetáculos em Denver, Colorado, onde o comediante se exibiu em janeiro deste ano

Mulher exibe um cartaz durante uma manifestação contra Bill Cosby, à porta da sala de espetáculos em Denver, Colorado, onde o comediante se exibiu em janeiro deste ano

Riccardo Savi/Getty Images

Cosby continua a negar tudo, e os alegados crimes já prescreveram há anos (embora três mulheres o tenham processado recentemente por difamação, após ele ter dito que mentiam). A advogada Gloria Allred, entretanto, sugeriu ao comediante que ponha de reserva alguns milhões de dólares e permite que juízes independentes determinem a verdade sobre as acusações.

Sem responder, Cosby prossegue a tournée que iniciou há meses. Ainda esta semana divulgou um vídeo de promoção algo estranho, onde aparece de pijama. Garante que o público se vai divertir nos espetáculos. Isso não tem impedido que manifestamtes protestem contra ele à entrada dos teatros e que uma dúzia de atuações já tenha sido cancelada.