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Lúcio. O português que há 25 anos toca fado no metro de Paris

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O português diz que tocar no metro de Paris não é mendigar, é uma profissão

Carina Branco / Lusa

As carruagens e as estações são os seus palcos. Os passageiros o seu público. E a tradicional guitarra portuguesa é substituída pelo saxofone e pela voz deste português que dá concertos no metropolitano de Paris, há 25 anos. 

"Pode ter a certeza que atualmente sou o único músico português no metropolitano de Paris. Isso dá-me muito prazer porque há uma imensa quantidade de músicos de várias nacionalidades. Mas é verdade, atualmente, português sou eu: Lúcio Martins Faria". Lúcio Faria começou a cantar e a tocar saxofone no metro de Paris há 25 anos e tem um repertório que vai do fado, ao jazz ou bossa nova, sem esquecer a "chanson française". 

"Sempre barbeado, cabelo bem cortado", o músico de 63 anos distingue-se dos outros cantores do metro por cantar fado e privilegia temas de Amália Rodrigues e de Carlos do Carmo, nomes que fizeram, na sua opinião, "música imortal". 

Lúcio veio do Porto e chegou a Paris em 1990: "Tive um problema em Portugal. Fui enganado e tive que partir. Entretanto, estive na Bélgica um mês, toquei lá num restaurante mas a coisa não deu muito certo e vim para França, para Angers. Lá, toquei num supermercado e na rua. E ganhei dinheiro suficiente para vir para Paris", contou. 

Depois, começou a tocar saxofone nos corredores do metropolitano da capital francesa e um músico de Madagáscar - "que falava um pouco português" - convidou-o a juntar-se a ele nas carruagens. 

"Eu fui tocar com esse músico, sem ensaios, sem nada, ele era excelente! Toquei com ele dois anos. Eu adoro-o muito, é um grande amigo. Chama-se Freddy, é um 'rastaman' - como se diz na Jamaica - e um músico excelente que adora Jimmy Hendrix e Dire Straits", descreveu o músico durante uma viagem de metro.  

Um músico a tempo inteiro 

Lúcio Faria vê as atuações no metropolitano como um emprego e não como uma forma de mendicidade, passando três horas por dia nas carruagens a tocar e a cantar, enquanto passa o resto do tempo a estudar música, em casa, para alargar o repertório. 

Quando questionado sobre quanto ganha, o músico não quis adiantar "números fixos" mas garantiu que "chega para sobreviver" e "até para ir fazer umas férias" a Marrocos na companhia do filho. 

Aos 63 anos, o português afirmou ter antecipado a reforma ao "juntar uns tostões", apesar de não pensar em deixar este trabalho. "Sou músico ainda para sete, oito, dez anos. Ainda me sinto em plena forma com 63 anos. Só toco três horas por dia, não é muito cansativo. Pelo contrário, alivia o stress e dizem que os músicos duram mais tempo", disse, com ar satisfeito e um carregado sotaque do Porto. 

Vinte e cinco anos a cantar para os parisienses e para os turistas equivalem a muitas histórias para contar, incluindo de amor, como aquela que ele viveu com uma repórter fotográfica sul-coreana.  

"Conhecia-a no metro com uma grande máquina fotográfica. Ela disse-me: 'Desculpe lá, posso fazer uma reportagem sobre você?'. 'Sim, porque não? Você pode fazer uma reportagem. Faça tudo o que quiser', lembrou o músico, garantindo que as fotografias foram parar a uma exposição em Seul, na Coreia do Sul, e que a relação durou dez anos. 

As histórias mais frequentes no metro têm a ver com convites para ir tocar a festas, mas já houve uma celebridade do mundo da música francesa e de origem portuguesa, a cantora Lio, que se cruzou com ele na estação Montparnasse, quando era mais novo. 

"Ela disse: 'Tu és excelente músico. Creio que até no teatro, tu podias fazer teatro'. Eu disse: 'Merci, muito obrigado. Mas, vá lá, tenho 40 anos, não sei'", recorda o músico, que ainda acredita em ter maior sucesso musical. 

Mas enquanto esse dia não chega, Lúcio Martins Faria vai continuar a cantar e a tocar "das nove ao meio-dia, das oito e meia às onze e meia" no metro de Paris.