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Livro póstumo do diretor do Charlie Hebdo defende o direito de gozar com qualquer religião

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FOTO REUTERS

Charb, que foi assassinado nos ataques de janeiro, critica tanto o paternalismo da esquerda como a atitude de políticos como Sarkozy, que "libertam" o racismo.

Luís M. Faria

Jornalista

"Carta Aberta aos Vigaristas da Islamofobia que Fazem o Jogo dos Racistas." É este o título de um curto livro escrito por Stéphane Charbonnier (mais conhecido como Charb), que foi direto do jornal satírico Charlie Hebdo aé ao dia 7 de janeiro, quando dois radicais islâmicos o assassinaram durante um ataque a tiro em que morreram igualmente outras onze pessoas. Publicado agora, meses depois desse ato terrorista que comoveu e indignou o mundo inteiro, o livro soa no mínimo profético.  

Charbonnier, ou Charb (alcunha por que era habitualmente tratado), era há muito alvo de ameaças por parte de quem se ofendia com o tratamento de Maomé e dos muçulmanos na sua publicação. "Um dia, para rir, tenho de publicar todas as ameaças que recebi no Charlie Hedbo", escreve ele. "Um terrorista faz medo, mas se acrescentarmos que é um islamita, toda a gente se mija." Ele próprio reconhece que estava numa lista de 11 pessoas "procuradas vivas ou mortas" que uma revista da Al-Qaeda publicou em 2013. Uma bala por dia mantém o fiel afastado ("A bullet a day keeps the infidel away"), dizia a revista.

Considerando o Corão e a Bíblia romances mal escritos e soporíferos, Charb argumenta que o problema não está nos livros, "mas no crente que os lê como se lê um manual de instruções que ensina a montar uma prateleira no IKEA". Argumenta que existe tanto o direito de gozar o Islão como qualquer outra religião, e diz que pensar o contrário, isso sim, seria discriminar. De resto, conforme explica, "muitos dos que fazem campanha contra a islamofobia não agem realmente para defender os muçulmanos como indivíduos, mas para defender a religião do profeta Maomé".

Charb atribui a culpa do atual estado de coisas tanto a políticos como Nicolas Sarkozy, que "libertou" o racismo, como ao paternalismo da "esquerda branca, burguesa, intelectual" que presume defender os pobres sem educação. Mesmo após a morte, o editor do Charlie Hebdo vai continuar a gerar polémica.