Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Linces. O mistério Kayakweru

  • 333

Kayakweru, uma fêmea de lince ibérico libertada em fevereiro no Parque Natural do Vale do Guadiana, em Mértola, apareceu morta esta quinta-feira. O cadáver foi enviado para necropsia e ainda não se sabe a causa da morte. 

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Kayakweru gostava de explorar novos territórios. Há duas semanas que o fazia, dentro e fora da Herdade das Romeiras, próxima de Mértola, onde fora colocada a 7 de fevereiro. A equipa de monitorização do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) observara-a na quarta-feira em atividade normal de caça, numa zona florestal para os lados de Almodôvar. Parecia bem alimentada e sem sintomas de stresse. Na manhã seguinte, quinta-feira, encontraram-na morta.

A fêmea de lince ibérico não apresentava vestígios de traumatismo relacionado com atropelamento, balas ou outro tipo de confronto visível com o homem ou qualquer outro animal. O cadáver foi esta sexta-feira de tarde sujeito a uma necropsia na Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, para se poder determinar a causa da morte. À hora de fecho desta edição ainda não havia conclusões. 

O risco da estrada

A morte de Kayakweru representa a primeira baixa no projeto de conservação do lynx pardinus, o que causa tristeza dentro do ICNF. "É um desaire, mas temos de estar preparados para estes riscos", afirma Sofia Silveira, dirigente do ICNF. Um dos maiores riscos para estes felinos são as estradas. Os atropelamentos já tiraram a vida a 24 linces em Espanha, em 2013 e 2014.  

Entretanto, no âmbito do programa ibérico de reintrodução do lince ibérico, outros cinco exemplares nascidos em cativeiro já foram libertados no Alentejo e continuam a deambular pela herdade das Romeiras, aparentemente bem integrados na natureza.

Nascida há cerca de dois anos no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico em Silves, Kayakweru tornou-se o terceiro inquilino do cercado da Herdade das Romeiras, no Parque Natural do Vale do Guadiana. Antes dela, em dezembro, Jacarandá e Katmandu tinham já provado o gosto da liberdade nesta herdade alentejana. E poucos minutos depois dela, foi a vez do macho Kempo, nascido num centro de reprodução em cativeiro de Doñana, em Espanha, fazer-lhe companhia nos dois hectares que serviram para se adaptarem à vida em habitat natural.

A solta branda aconteceu a 7 de fevereiro. Dezoito dias depois, a 25 de fevereiro, o portão do cercado foi aberto e Kayakweru e Kempo partiram à descoberta de novos territórios. A estes quatro exemplares juntaram-se mais dois - Loro e Liberdade - a 4 de março, que continuam ainda dentro do cercado.

A reintrodução em meio natural em Portugal faz parte do projeto ibérico de conservação 'in situ' do felino mais ameaçado do mundo. E para o ICNF "é mais um passo no compromisso nacional e ibérico para a inversão do risco de extinção desta espécie no seu habitat natural". 

Persistência e boas novas

"Temos de persistir neste processo, que é longo", sublinha Sofia Silveira. Por isso, o ICNF planeia introduzir oito a 10 animais anualmente, nos próximos anos. "A expectativa do programa ibérico é alcançar uma população diversa e estável no território que permita que esta espécie [em risco de extinção] volte a ser viável em meio natural."

Este ano deverão ser reintroduzidos no Alentejo mais quatro linces. Entretanto, o projeto de reprodução em cativeiro continua a dar boas novas. Este ano já nasceram, até quinta-feira, cinco crias de lince ibérico no Centro de Reprodução de Silves, elevando para mais de meia centena os animais ali nascidos desde 2009.