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Artesãos e laranjeiras. Passos em redor da Sé e São Cristóvão

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Dos licores e das cerâmicas, dos ilustradores, das mercearias antigas à cozinha de autor, propomos um roteiro por uma das zonas mais bonitas de Lisboa, seguindo as dicas de quem mora por lá

Ignoremos os turistas e as lojas de "souvenirs", os tuk-tuks e os franceses que não param de comprar casas. Concentremo-nos apenas nas laranjeiras junto à Sé de Lisboa e que fazem da Rua São João da Praça uma das mais bonitas da cidade.

LARANJAS, SEDAS E CERÂMICA

Seguindo o aroma das laranjas, entremos diretos na loja-oficina de Teresa Pavão, designer e artificie, que há largos anos se dedica a trabalhos em têxteis e em cerâmica. Neste sábado, é dia de provar o licor Orangea, feito artesanalmente a partir de cascas de laranjas do sul e servido gelado em copos de cerâmica elaborados para este propósito. Eis um excelente motivo para se descobrir esta loja-atelier, recuperada de uma antiga padaria, para apreciar as louças para uso quotidiano de execução delicada ou as echarpes que Teresa Pavão elabora a partir da sua coleção de tecidos. Nesta loja-atelier, onde até as ferramentas de trabalho parecem estar em exposição, no dia em que se serve o Orangea em honra do solstício de inverno, loja ficará aberta até às 22h. A festa também é feita das temperaturas, das texturas e cores, irresistíveis de tocar... Sejam nas taças, nos copos ou nas jarras para uso quotidiano e de execução delicada, sejam nas echarpes de seda, em camurça ou lã, que apetece enrolar no pescoço e levar para casa.

Teresa Pavão — Objectos De Arte Rua de São João da Praça 120. Tel. 21 887 2743

OUTRAS ARTESÂS

Seguindo os passos dos fazedores de pequenas coisas, entremos na Padaria 24, também loja, também atelier que pertence a um coletivo de três mulheres, artistas, são elas, Rita Faustino, Nininha Guimarães dos Santos e Inês Nunes, que se juntaram na joalharia, para produzir joias de autor. Recorrendo a materiais muito pouco clássicos na joalharia como a pedra, a borracha, o feltro, ou a lã, a especialidade são as encomendas personalizadas e a transformação de peças, ancoradas numa linguagem viva, criativa e experimental. Vale a pena espreitar.

Padaria 24 Rua da Padaria, nº 24. Tel. 218 877 525

O LUGAR MAIS EMBLEMÁTICO DESTAS BANDAS

A Casa Alves é uma das mercearias de bairro preservadas mais antigas de Lisboa. Está nas mãos da mesma família há quase seis décadas e, garante quem vive por aqui do bairro, que o lugar do senhor Zé Luís, o rei e a alma da rua, é o ponto de encontro dos moradores. Para quem vem de fora, a Casa Alves também tem os seus encantos. É linda, nos seus armários de madeira pintada a tinta creme, com os cartazes pendurados de publicidade dos anos 50, as cestas de vime à porta, no moinho de café e nos utensílios que preserva nos produtos que vende. Sobretudo uma relíquia nas memórias que nos trás de uma Lisboa antiga e no gosto com que se exibe perante as máquinas fotográficas dos turistas espantados de ainda haver um lugar assim... Infelizmente, esta semana, Zé Luís Alves teve notícias que em breve poderá sofrer uma ordem de despejo. Entretanto, um grupo de moradores, reivindica o estatuto de "lojas com história" no programa que a CML promoveu e promete não dar tréguas.

Casa Alves Rua São. João da Praça, 112. Tel. 218 870 502

VAI UM PASSEIO A PÉ?

Galgando a encosta até à Costa do Castelo, o objetivo é perdermo-nos pelas ruas labirínticas até alcançarmos a Rua de São Cristóvão. E já que aqui estamos, porque não visitar a Igreja de São Cristóvão, um tesouro, mesmo a chegar às escadinhas de São Nicolau? Já foi ermida mourisca transformada em lugar de culto cristão nos anos da reconquista. Em 1775 foi prodigiosamente poupada, sendo hoje um dos raros edifícios deste lado da cidade que sobreviveu intacto ao terramoto. No seu acervo, é a coleção dos quadros a óleo sobre tela, do final do XVII e atribuídos à oficina Bento Coelho Silveira do final do XVII, uma relíquia a necessitar de restauro, e que já movimentou uma série de eventos coordenados pela paróquia e junta de freguesia, com a participação da CML “Arte por São Cristóvão”, que teve um programa de exposições, concertos, seminários, numa tentativa de angariar fundos e salvar a igreja, em processo de acelerada deterioração.

Igreja de São Cristóvão Lg. de São Cristóvão. Tel. 215 998 801

ILUSTRADORES

Entretanto vale a espreitar a Ò Galeria. O espaço de um antigo minimercado foi agora o espaço foi ocupado por Ema Ribeiro, que o vocacionou como pop-up onde, durante três meses, vários ilustradores o tomam de assalto e expõem os seus trabalhos. A Ó Galeria, que tem sede na Miguel Bombarda no Porto, já começou a vibrar nos meio dos amantes das ilustrações e do fanzines, organizando exposições flash que ocorrem todas as sextas-feiras e duram uma semana. A ideia é que deixe de ser uma pop-up e se torne permanente.

Ó Galeria Rua de São Cristóvão, 7. Seg a sáb. das 12h às 20h. Tel 934 700 820

PALADARES

Já é fim da tarde? A hora pede pausa e em São Cristóvão há um canto só para conhecedores. Chama-se Leopold e o nome é justificado por um cartaz pendurado de uma exposição de Schindler visitada em Viena pelos donos, Tiago Feio e Ana Cachaça, que durante uns tempos ocupou a cozinha da casa até se transformar no ex-líbris do restaurante. O espaço é intimo e sofisticado, tem apenas quatro mesas e cozinha experimental de autor. Tiago, que já foi chefe do restaurante Largo, serve um menu fixo de degustação, sete prato, 35 euros por pessoa. No Leopold, onde se pratica a cozinha de mercado com produtos de pequenos produtores, tem a particularidade de não ter fogão. Tudo é preparado no vácuo, cozinhado a baixas temperaturas. Uma das especialidades são os ovos cremosos, com cogumelos shitake ou o novilho dos Açores com pickles em algas.

Leopold Rua de São Cristóvão 27. Tel. Quarta a dom. das 19h às 23h