Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Jorge Sampaio abre ciclo de conferências Courrier Internacional com "o mundo que queremos"

  • 333

Jorge Sampaio (na foto, com Rui Cardoso, editor-executivo da Courrier Internacional) citou Mandela: "Acabar com a pobreza não é um ato de caridade, é um dever"

Tiago Miranda

Revista comemora o seu 10.º aniversário com quatro conferências, em abril. A primeira aconteceu em Lisboa e teve o antigo Presidente da República como orador convidado.

O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu esta quarta-feira uma "agenda de prioridades ainda mais ambiciosa", que aproveite os esforços e o muito que as Nações Unidas conseguiram após a definição dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), com meta para 2015. Sublinhou também que não há "sociedades harmoniosas sem combinar desenvolvimento económico, sustentabilidade ecológica e integração social".

Sampaio falava na primeira das conferências comemorativas dos dez anos da revista "Courrier Internacional", que decorreu no Instituto de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, dedicada ao tema  "Pós 2015: O mundo que queremos".



Como orador convidado, o ex-Presidente da República, nomeado em 2007 Alto Representante da Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, considerou os ODM o maior "indutor do desenvolvimento dos últimos 15 anos", cujos bons resultados, "apesar das limitações e do muito que há ainda por fazer", disse, devem nortear a ação futura da comunidade internacional.



Antes disso, na abertura da conferência, o presidente do grupo Impresa, Francisco Pinto Balsemão, começou por passar em revista esses Objetivos, oito no total: erradicar  a pobreza extrema e a fome; alcançar o ensino primário universal; promover a igualdade entre os sexos e a autonomização das mulheres; reduzir  a mortalidade infantil;melhorar a saúde materna; garantir a sustentabilidade ambiental; combater o VIH/SIDA, malária e outras doenças e criar uma parceria mundial para o desenvolvimento.

Saúde e educação com bons resultados

Jorge Sampaio citou alguns exemplos dos progressos alcançados. Quando o compromisso foi firmado pelas Nações Unidas, em 2000, partiu-se de uma realidade em que "24% da população mundial morria à fome e 37% vivia em pobreza extrema". Atualmente essas taxas "foram, grosso modo, reduzidas para metade", sublinhou, destacando também a passagem de 102 de milhões de crianças sem acesso à escola, para 57 milhões.



"O abandono escolar precoce mantém-se muito elevado", ressalvou Sampaio, mas no campo da saúde, "há resultados encorajadores e impressionantes até, nomeadamente no que à malária se referem com a redução do número de vítimas mortais em 26%".



"Um objetivo ficou bastante aquém do ambicionado", reconheceu Sampaio, ao recordar o compromisso de cada país doar 0,7% do seu PIB" para ajuda. "A percentagem não ultrapassou a média de 0,3%", mas, acrescentou o orador, as insuficiências não anulam a constatação de que "nunca houve uma tão forte mobilização de esforços ou uma monitorização tão apurada".

Uma agenda mais ambiciosa

Sobre a nova agenda das Nações Unidas, a lançar os objetivos até 2030, Jorge Sampaio diz que está em cima um leque mais alargado de prioridades. Estão a ser estudadas 17, que não esquecem a regressão que se vive no mundo em matérias como "os direitos humanos, justiça, paz e segurança".



O ex-Presidente da República, que ao longo da sua apresentação citou Nelson Mandela - "Acabar com a pobreza não é um ato de caridade, é um dever" - terminou de novo com palavras do líder sul-africano: "Por vezes cabe a uma geração ser grande. Esta pode ser essa geração. Deixem a vossa grandeza florescer".



O período reservado ao debate, moderado por Rui Cardoso, editor-executivo da Courrier Internacional, foi lançado pela docente do ISCSP, Mónica Ferro, que destacou o facto de a próxima agenda das Nações Unidas estar a ser desenvolvida de uma forma mais participada, com recurso até "a consultas online onde todos podemos participar".



"O mundo não nos vai perdoar se não conseguirmos em 15 ou 20 anos alcançar um patamar que garanta viver no mundo com dignidade", afirmou. "Ser feliz não pode ser uma questão de sorte, é um direito humano".



O ciclo de conferências comemorativo do 10º aniversário da Courrier Internacional prossegue com mais três encontros, ainda em abril, em Évora, Porto e Braga.