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Identidade do copiloto. O que separa o interesse público do direito à privacidade?

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FOTO REUTERS

Quando chega a hora de divulgar a identidade de um alegado responsável por uma tragédia como a do avião da Germanwings, como se protege a família? Faz sentido omitir o nome do acusado? Onde fica a linha entre a informação que é de interesse público e a informação que apenas "perturba e prejudica" a imagem da família? A fronteira não é clara. 

Dois dias depois de o Airbus A320 ter caído nos Alpes sem se saber o que tinha acontecido, as atenções focaram-se na alegada responsabilidade do copiloto. As autoridades francesas começaram a divulgar informação e responderam à pergunta central: quem é ele? Andreas Lubitz, um rapaz de 27 anos que sonhava voar. Mas entre as dúvidas sobre o acidente e a ânsia de informação, uma pergunta impõe-se: como se protege a família? Qual a fronteira entre a informação que é de interesse público e a que irá apenas satisfazer uma curiosidade pondo em causa a privacidade da família?

Numa primeira fase, alguns jornais alemães não divulgaram inteiramente a identidade do copiloto. "Não faz sentido omitir o nome", defende Alberto Arons de Carvalho, docente de Direito da Comunicação Social na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa.

A questão que poderá ser levantada é saber, "uma vez que alegadamente ele é responsável, se se pode avançar com a acusação sem provas", diz Arons de Carvalho. "Mas como foram as autoridades francesas que avançaram o nome, não há uma responsabilidade do jornalista em fazê-lo também, atribuindo à fonte."

Para o docente da FCSH, "o interesse público pela descoberta do que se passou é mais relevante", porque o conhecimento da situação permitiu que algumas companhias aéreas fizessem alterações às regras de segurança dos seus voos. "Este drama todo tem um lado terrível, mas há um lado de interesse público."

Mesmo assim, não é uma questão linear. Estando em causa informações que entrem mais a fundo dentro da identidade da família, os contornos do que é "interesse público" passam a ser outros.

Além do nome do copiloto, na quinta-feira foram também divulgadas fotografias da casa onde Lubitz vivia com os pais, que entretanto foi alvo de buscas e onde agora estão permanentemente vários meios de comunicação.

No Twitter levantaram-se dúvidas sobre se mostrar a fotografia da casa tinha interesse, se era ou não uma intrusão na privacidade da família. "Mostrar a casa não é relevante para a notícia. O que importa é saber porque é que o copiloto tem este desequilíbrio e há quanto tempo o tem", acrescenta Arons de Carvalho. 

Uma fronteira difícil de definir

A linha entre a informação de interesse público e a informação que deixa de ser "relevante para a notícia" é definida consoante se está ou não a acrescentar conhecimento, na opinião de José Rebelo, sociólogo e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa, que coordenou um projeto sobre a exposição pública na imprensa. Se por um lado considera "admissível" que os meios de comunicação avancem o nome do copiloto, o investigador recusa-se a aceitar que se crie "espetacularidade e cenarização em torno do protagonista", através de reportagens sobre a casa, o bairro ou a família.

"Vi a fotografia da casa hoje de manhã e acho que produz efeitos de sentido. Ou seja, olha-se para a casa e imagina-se alguém que vivia bem. Esses sentidos são perversos e produzir este tipo de reportagem não acrescenta saber. Fere os princípios da ética, da deontologia e põe em causa outros sujeitos que não estão diretamente envolvidos."

Em causa está sobretudo a família. "A pessoa morre, mas o sujeito não, porque tem a família." E neste momento, acrescenta o sociólogo, "os pais estão a ser duplamente vítimas". "Por um lado, porque viram o familiar morrer, mas também porque são apontados como familiares daquele que provocou o acidente."

Arons de Carvalho também concorda que "os pais deveriam ser protegidos", por não serem "nem culpados nem cúmplices", e que, quando a informação deixa de ter importância para a notícia, o que faz é "perturbar e prejudicar" a imagem da família.

Mas na ânsia de encontrar informação que ajude a explicar quem causou a tragédia e em que condições, o que acontece é correr-se o risco de "esmiuçar a vida toda". Na opinião de José Rebelo, é aí que reside o erro, ao "singularizar" a história, explorando o caso particular.

Quando se esmiúçam as histórias para perceber uma realidade mais abrangente, saindo do particular para o geral, a perceção é diferente. José Rebelo dá o exemplo das histórias detalhadas dos jovens que se foram juntando ao autodenominado Estado Islâmico nos últimos anos. "A descrição do que era o seu contexto é uma análise que tem pertinência. É uma tentativa de explicação sociológica da génese desta adesão", argumenta, lembrando que nesses casos se mergulha nas vidas para perceber a realidade mais alargada do fenómeno.

O sociólogo defende, no entanto, que não existem "temas que sejam tabu". "Tudo depende da forma de abordar o assunto, depende da forma como se fala da família e como a conversa se reproduz no espaço mediático", defende.

"Já a procura de informação apenas para enfatizar, especular e converter uma questão global numa história pessoal, isso está tudo mal."