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Hospitais ainda à espera de verba para hepatite C

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O ministro da Saúde, Paulo Macedo, garantiu há quase um mês que a situação estava "ultrapassada".

FOTO JOSÉ COELHO/ Lusa

Braga, Cascais, Loures e Vila Franca não sabem como pagar o novo tratamento. Reação potencialmente fatal já ocorreu em Portugal.

Os quatro hospitais públicos geridos por privados continuam a fazer 'contas à vida' para salvar os doentes com hepatite C. Dois meses depois de o Estado ter assegurado no Serviço Nacional de Saúde (SNS) a comparticipação total dos novos medicamentos capazes de curar a infeção, Braga, Cascais, Loures e Vila Franca de Xira continuam sem saber como vão pagar ao laboratório. 

O ministro da Saúde, Paulo Macedo, garantiu há quase um mês que a situação estava "ultrapassada", mas os administradores daqueles hospitais dizem que está tudo na mesma. Os doentes mais graves só não estão sem tratamento porque a fatura pode ser liquidada daqui a seis meses. Os grupos Mello (hospitais de Braga e de Vila Franca de Xira), Espírito Santo Saúde (Hospital de Loures) e HPP (Hospital de Cascais) acreditam que meio ano será suficiente para desbloquear o acesso gratuito. 

"Sobre o tema 'pagamento' ainda não há novidades", dizem os responsáveis do Hospital de Loures. Em Cascais, há "conhecimento de alguns atrasos na validação" e em Vila Franca e em Braga "continua-se a aguardar o modelo de financiamento". Por outras palavras, "nem o Hospital de Braga nem o de Vila Franca de Xira têm acesso ao 'registo' na Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), não conseguindo emitir a nota de compromisso" - o 'cheque em branco' por agora só acessível aos hospitais geridos pelo próprio Estado.

O gabinete do ministro adianta que "a ACSS, em conjunto com o Infarmed, irá promover já na próxima semana uma reunião com os responsáveis das parcerias público-privadas". Servirá para que aqueles hospitais realizem "todos os procedimentos necessários e já estabelecidos de forma a assegurar que o tratamento da hepatite C é igual em todo o SNS".

O número de infetados em tratamento nas parcerias da Saúde ascende a várias dezenas. Os especialistas dizem que só Loures deve ter perto de 400 casos e Braga 200. Em todo o país serão 10 a 13 mil, que Paulo Macedo quer curar em dois anos. Desde que o tratamento ficou formalmente disponível, em meados de fevereiro, 2130 doentes tiveram autorização para tomar os novos medicamentos. E o número aumenta para 2543, somando quem participou em ensaios ou beneficiou de autorizações de utilização excecional.

Por revelar está o preço a pagar pelo SNS. O Ministério diz apenas que "está muitíssimo abaixo de qualquer das propostas". Na fase inicial, a terapêutica ascendia a 42 mil euros por doente e terá ficado, no mínimo, por menos de metade. 

O tratamento é o mais eficaz até hoje, mas, como todos, não está isento de riscos. No final de março, a autoridade norte-americana do medicamento emitiu um alerta sobre arritmias em doentes que também estavam a tomar fármacos com amiodarona. Um morreu e três receberam pacemakers. O Infarmed também deu o alerta e a Agência Europeia do Medicamento está a avaliar outros casos, por exemplo em França. 

Em Portugal também já há registo de uma ocorrência, no Hospital Curry Cabral, Lisboa. "O filho de uma doente telefonou-me a dizer que a mãe não se sentia bem e que o pulso estava muito fraco e eu pedi para parar a medicação", conta a médica Helena Glória. A bradicardia (batimento cardíaco fraco) foi confirmada, "mas na altura esta reação ainda não estava descrita". 

Por cá, há dez casos graves. São situações de falta de eficácia, náuseas, reações cutâneas e duas mortes. "Em ambos os casos, a situação clínica era muito grave: recidiva do foro oncológico, num caso, e complicações decorrentes de segundo transplante hepático (fígado)", explica o Infarmed.

Sendo um tratamento que salva a vida a quem já tinha um atestado de óbito, "o risco compensa", afirma José Cotter, presidente do Colégio de Gastrenterologia da Ordem dos Médicos. Ainda assim, "é preciso estar atento e informar os doentes". A reação é sempre a mesma: "Tomar, mesmo que seja preciso vir todos os dias ao hospital."