Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Geração 2020. Qual o futuro de Portugal aos olhos dos jovens?

No estudo, a "Geração 2020" é apresentada como aquela que, em 2020, poderá estar a assumir cargos de liderança ou de relevo na sociedade portuguesa

David Clifford

Desencantados, esperançosos e com confiança em si mesmos. É assim que, apesar das incertezas, um milhar de jovens que participaram num estudo da Universidade Católica e da Imago - Llorente & Cuenca se sentem em relação a Portugal em 2020.

Maria João Bourbon (texto) Sofia Miguel Rosa (infografia)

"Estou otimista em relação ao futuro", garante ao Expresso Duarte Sequeira, 22 anos, natural da Covilhã. "Tenho esperança que [em 2020] o país esteja melhor - apesar de reconhecer que a situação dos jovens no mercado de trabalho é complicada". É esta a perceção do estudante de Medicina e de quase dois terços dos 1100 jovens inquiridos no estudo "Geração 2020: O futuro de Portugal aos olhos dos universitários", elaborado pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) em conjunto com a Imago - Llorente & Cuenca, que indicam que Portugal será, num futuro próximo, um país melhor para viver.

Sem pretensões de ser representativo da totalidade do país, o estudo sinaliza vontades que, em maior ou menor escala, movimentam os jovens portugueses entre os 18 e os 30 anos, na sua maioria estudantes do ensino superior - a geração que em 2020 poderá assumir papéis de relevo na sociedade portuguesa.

"Os resultados dão uma visão da perspetiva de futuro dos jovens", explica ao Expresso Peter Hannenberg, diretor do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da UCP. "Estamos habituados a ouvir que não têm futuro, que têm que emigrar, mas estes jovens identificam uma visão positiva de Portugal e dos agentes que contribuem para esse futuro mais positivo". Ou seja, as dificuldades existem, as críticas também, mas os jovens veem-nas com um olhar mais esperançoso e ativo.

As universidades (81,4%), o indivíduo (63,8%) e a família (60%) são as instituições nas quais mais acreditam para fazer de Portugal um país melhor. A valorização individual, através dos valores e formação, tem assim um peso fundamental. "Os jovens apostam na educação, em si próprios e estão convencidos que são eles que vão contribuir para melhorar a situação do país", explica Peter Hannenberg. Por outro lado são, na esmagadora maioria, os partidos políticos (95,3%) e a Justiça (89,8%) as instituições que os inquiridos consideram mais precisar de mudar para que Portugal fique melhor em 2020 - aquelas "geralmente mais associadas com a situação atual de crise". A Europa também não escapa ilesa, com quase 50% a considerarem que que algo tem que mudar.

Contactados pelo Expresso, Joana, Duarte e Frederico identificam-se com alguns destes resultados. Também eles não estão iludidos e sabem que existem dificuldades, mas realçam o papel do indivíduo no futuro de Portugal. "Os jovens enfrentam vários dilemas: são muito impacientes, sentem-se estagnados, mas acho que há uma enorme vontade na nossa geração em fazer alguma coisa", sublinha Joana Leite Castro, do Porto, licenciada em Economia e Gestão. Essa impaciência passa pela crise económica, pelo seu futuro e por verem situações em Portugal como a do Banco Espírito Santo, que é "assustadora".

"É preciso uma mudança", afirma, realçando que as instituições que mais precisam de mudar são os partidos políticos, a Justiça e as universidades. "Mas esta é também uma mudança de valores e atitudes, que começa pelo indivíduo". A jovem de 24 anos - que emigrou temporariamente para Madrid e, agora Chicago, para trabalhar antes dos estudos de mestrado - considera que atualmente já se sente uma alteração nas atitudes na sua geração. "Parece-me que há vontade de mudar, mas ainda não se vê muita ação, porque estamos numa fase de aprendizagem e recolha de informação".

 

Sinal de crise, sinal de mudança

Aos 25 anos, Frederico Barreiros Mota, embora reconheça que os partidos políticos "têm uma parte da responsabilidade no momento de crise que vivemos", considera que não são os únicos. A União Europeia (UE) tem a sua responsabilidade, mas "nós, enquanto indivíduos, também não soubemos trabalhar as novas possibilidades [que chegaram da UE]: esperámos que a bomba rebentasse para começar a mudar as nossas vidas", explica o jovem de Santarém a estudar em Lisboa. Já Duarte Sequeira, natural da Covilhã, não tem dúvidas: "foi, em última análise, o Governo, através da sua ação", um dos responsáveis pela crise que o país vive, mas "a União Europeia também tem uma quota parte de responsabilidade, pelo sistema instituído".

Natural de Santarém, mas em Lisboa a finalizar os seus estudos de mestrado em Lisboa, Frederico não tem tantas certezas que Portugal será um país melhor para viver em 2020. "Sinceramente, acho que será muito parecido com o que temos hoje em dia", explica o jovem de 25 anos. Mas reconhece que cada pessoa tem que encontrar o seu lugar. "Cada vez me convenço mais que, hoje em dia, as nossas oportunidades somos nós que as criamos. E, ou enveredamos pelo empreendedorismo, ou somos obrigados a sair de Portugal", opções que não vê necessariamente com negativismo, porque a emigração, muitas vezes, "é temporária", trazendo depois "novos conhecimentos" para Portugal.

Na verdade, quando inquiridos sobre as expressões que os jovens anexam ao futuro de Portugal, o resultado é, aparentemente, contraditório. "Esperança" (52,1%) e "Emigração" (50,2%) assumem a dianteira, seguidas de "Desemprego" (37,2%), "Solidariedade" (34,69%), "Cultura" (33,7%) e "Juventude" (33,6%). "Estes são resultados que espelham a realidade que os jovens vivem atualmente", explica Peter Hannenberg da UCP. É precisamente "essa pressão e mal-estar que sentem neste momento" que pode levá-los "a querer agir no futuro".

Duarte confirma isso. "Cada vez mais está do nosso lado, enquanto cidadãos, fazer a mudança. Não chega estar do lado de cá e criticar os políticos". Ao que Joana acrescenta: "Tenho a sensação de que já passámos a fase de nos queixar", explica. "Mas se nos perguntarem de quem é a culpa? Provavelmente diremos dos políticos, da geração anterior... Ainda assim, acho que agora nos queixamos menos e estamos mais focados naquilo que é preciso mudar". E o estudo realça isso mesmo: a geração atual considera que tem uma maior competência para resolver os problemas do país (59,8%), ainda que muitos atribuam essa responsabilidade à geração anterior.

Os três portugueses contactados pelo Expresso não têm dúvidas: os jovens de hoje enfrentam problemas diferentes da geração anterior. Independentemente de terem sido, ou não criados por eles, algo tem que mudar. "A mudança não passa apenas por manifestações, como as da 'geração à rasca', mas por nós próprios atuarmos, criarmos mais projetos, irmos mais à luta", explica Frederico.

 "É certo que, a par dos idosos, os jovens são um grupo que sai muito sacrificado com a crise", realça Duarte. "Mas os jovens ainda têm uma vida pela frente. Se não formos nós a mudar alguma coisa, quem será? Apoiados pelas instituições, temos que ser cada vez mais responsáveis pelo nosso futuro".