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Força brutal de mulher

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Ana

Tiago Miranda

Quando o corpo é trabalhado e há vontade de ultrapassar o limite, as diferenças entre os sexos diluem-se. Estas mulheres têm mais força física do que muitos homens.

Carolina Reis (texto) Tiago Miranda (fotos)

Imbuída de um misto de medo e adrenalina, Daniela Teixeira, de 39 anos, meteu a pesada mochila às costas e, no meio de frio e da neve, começou a subir os 6500 metros do monte Kapura, na cordilheira dos Himalaias. Daniela queria começar o mais rápido possível aquilo que viriam a ser 26 horas de trajeto . O medo que sentia foi facilmente ultrapassado pela vontade de subir. Saber que estava preparada deixou-a mais segura.

Daniela

Daniela

Tiago Miranda

"Pensei: esta montanha está no meu limite, mas tu estás preparada para ela. É exatamente por isso que estás aqui." E começou o trajeto, num itinerário que até então nunca ninguém tinha feito. Valeram-lhe os treinos diários no ginásio e os trilhos percorridos aos fins de semana ao ar livre. É que à medida que se vai ganhando altitude, os passos tornam-se mais pesados, assemelhando-se a uma longa e dura corrida. "É preciso ter muita força, quer a nível da resistência, quer da explosiva."

No mundo do alpinismo de exploração, feito em trilhos nunca antes experimentados, as mulheres contam-se pelos dedos das mãos. "Nunca me senti descriminada por ser mulher. As pessoas ficam admiradas por fazer alpinismo, não por ser mulher."Para Daniela, todos os dias são de treino. Corrida, musculação e, aos fins de semana, percorre Portugal, da Serra da Arrábida à Serra da Estrela, à procura de falésias para subir. O marido, Paulo Roxo, é o fiel companheiro de vida e de aventuras.

Sempre juntos, fazem uma grande exploração por ano. Daniela não se limita a resistir aos percursos. Vai acumulando vontade de ultrapassar mais desafios. Agora é tudo muito diferente da primeira vez que subiu uma montanha, "há uns 12 ou 13 anos". Quando se estreou, a subir o Monte Branco, nos Alpes Franceses, aguentou-se. Ao fim de 15 horas, na altura em que estava a descer, já mal se conseguia mexer. Muito menos carregar a mochila.

"Bonequinha de músculos"

Os 170 quilos que todos os dias levanta com as pernas não são um esforço para Elsa Pena. "Isto não é um treino, é fisioterapia." O resultado de uma vida ligada ao desporto e aos ginásios está à vista: não há parte do corpo que não tenha músculo. E nos ginásios onde trabalha como personal trainer é raro encontrar homens que consigam levantar 100kg com cada perna com a leveza com que ela o faz.

"É uma questão de superação. Quero sempre conseguir mais e mais." Miss Biquíni 2014, Campeã nacional de pesosna sua categoria - Up 163 - do mesmo ano, Top 6 do Campeonato Europeu Arnold Classic Europe de 2014, Número 5 do Campeonato Mundial de 2014, Elsa está habituada a deixar de boca aberta os homens que com ela se cruzam no ginásio. "Ficam muito caladinhos, intimidados", com o resultado de 45 minutos a uma hora de treino diário de musculação. Não há flacidez no seu corpo. Mas Elsa garante que não é caso único. "Já não vão só ao ginásio fazer aulas de aeróbica, agora também estão na sala de musculação a trabalhar o corpo." Mesmo assim, fazem-no pela estética, não pela força em si.

Elsa

Elsa

Tiago Miranda

A culturista Ana Glaser conta que ainda é uma raridade. Os 130kg - que levanta todos os dias - começaram por ser um escape à depressão que teve depois dos pais morrerem. Hoje, o treino é uma maneira de não se lembrar constantemente do desemprego.

Em competições é normal encontrar homens que aguentem o mesmo peso do que ela. Mas só aí. "Regra geral, eu tenho mais força do que eles." Não foi isso que intimidou o marido, que detesta ginásios. Quanto ao filho, de 8 anos, já foi discriminado por causa dos músculos da mãe.

"No primeiro dia de aulas do primeiro ano houve um menino que lhe disse: a tua mãe é um homem." Ao contrário de Elsa, que é vista, na competição, como uma "bonequinha de músculos", Ana está habituada a ouvir que é transformista e homossexual, dito em forma de insulto. "O culturismo em Portugal é uma atividade mal vista", ainda uma coisa de homens, um pouco como o muay thai (arte marcial tailandesa).  Quem vê Dina Pedro, cinco vezes campeã do mundo, duas vezes campeã europeia e uma vez campeã intercontinental, pode ficar admirado por vê-la treinar jovens.

Diana

Diana

Tiago Miranda

"Neste desporto trabalhamos na base do respeito e não medimos forças uns com os outros, trabalhamos juntos, homens e mulheres, para que todos possam evoluir."  Em 2001 formou uma equipa - a Dinamite Team -, que combate a nível internacional.

O que mais ganhou, porém, foi "força mental para ultrapassar tudo". Valeu-lhe mais isso na vida do que a capacidade de derrotar adversários no ringue.  Desde miúda que Diana Abrantes sabe que tinha mais força do que os outros miúdos. "Logo em criança percebi que conseguia fazer o que os outros não conseguiam." Quem a vê a saltar para cima de uma caixa de cinco metros, fazendo força apenas numa perna que vai alternando, fica admirado com a facilidade. A mesma que tem quando corre para saltar o trampolim e fazer piruetas. Ou quando está na barra de ginástica e rodopia sem cair.

Panda

Panda

Tiago Miranda

Só assim combate o medo que por vezes surge. "Quanto mais força mais leve e, assim, mais ágil para competir." A força aumentou-lhe o potencial. "É preciso ter mesmo muita para a ginástica artística", reforça o treinador, Pedro Roque.  Cátia Feiteira, ou Panda, como é conhecida no mundo do roller derby, diz o mesmo.

A jovem, de 21 anos, passa os tempos livres a praticar este desporto inventado nos EUA e que chegou há pouco tempo a Portugal. Duas equipas, cada uma com cinco mulheres em cima de patins, batem-se, literalmente, num ringue. "Só com muita força se consegue aguentar o embate com a jammer [uma espécie de atacante que tem de furar caminho]."

Dina

Dina

Tiago Miranda

Quem as vê jogar corre o risco de achar que é violento. (E, sim parece mesmo) Mas apesar disso, são elas as rainhas do roller derby. "Os homens costumam dizer-nos que temos a mania."