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Eram alemães, ficaram por cá a seguir à guerra e a PIDE pagava tudo

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Memórias.Celeste Pires, 
Dona Nené, mostrando fotografias em que aparece com as alemãs instaladas em Felgueiras logo a seguir à II Guerra Mundial

Luís Barra

Dezenas de alemãs viveram vários anos nas termas vizinhas de Nelas, na Beira Alta, após o fim da II Guerra Mundial, com as despesas pagas pela polícia política portuguesa. Uma história pouco conhecida, agora reconstruída pelo Expresso com base em documentos e nos relatos de alguns portugueses que com elas conviveram.

Margarida Magalhães Ramalho*

Maria Celeste Daniel Pires, mais conhecida por Dona Nené, de 92 anos, lembra-se de ter voltado em 1946 - tinha então 22 anos - às Caldas da Felgueira, depois de uma longa estada no Congo Belga, e ter encontrado instaladas na Pensão Maial, que pertencia à avó, várias senhoras alemãs com os respetivos filhos. Além destas famílias, encontravam-se outras, na Pensão Milocas e no Grande Hotel Club, num total de cerca de 100 pessoas.

A história destes alemães, pouco conhecida, ganhou novos contornos quando, ao falar com Ana Teixeira Gaspar, responsável pelo Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças, a autora deste artigo ficou a saber que havia centenas de faturas de despesas com cidadãos alemães e italianos pagas pela Polícia Internacional da Defesa do Estado, a PIDE.

Se a situação já era insólita, mais se tornou quando se verificou que a maioria chegara a Portugal em maio de 1945 - ou seja, logo após a rendição da Alemanha - e que por cá ficaram a expensas da polícia política até, pelo menos, 1949. Além destas despesas apareceram outras, suportadas pelos governadores de Macau, Índia, Moçambique, Madeira e Cabo Verde durante e após a guerra e referentes a cidadãos dos dois países referidos.

Dona Nené conviveu de perto com o grupo de "náufragos da guerra" das Caldas da Felgueira. Graças a ela, foi agora possível reconstituir um mistério que começa em maio de 1945. Ao que parece, todas essas pessoas vinham da Argentina.

Embora formalmente neutro, este país mantivera, desde 1933, relações mais do que privilegiadas com a Alemanha nazi. Por imposição internacional, se quisesse ter assento na ONU, teria de declarar guerra à Alemanha. Só o fez, no entanto, a 28 de março de 1945, quando o desaire nazi era mais do que evidente. A comunidade alemã e o corpo diplomático em Buenos Aires afetos a Hitler foram obrigados a partir. Em Lisboa, onde deveriam ser trocados pelos seus homólogos argentinos na Alemanha, acabam por ficar encalhados, devido à rendição alemã, a 7 de maio.

Refúgio. O Palace Hotel da Curia também recebeu uma família alemã cujas despesas eram pagas pela PIDE

Refúgio. O Palace Hotel da Curia também recebeu uma família alemã cujas despesas eram pagas pela PIDE

Marcos Borga

Enquanto as mulheres eram colocadas, com residência fixa, nas Caldas da Felgueira, os homens ficavam em Lisboa, sob vigilância. É possível que a escolha de Caldas da Felgueira para instalar estes hóspedes incómodos esteja relacionada com o facto de ficar numa zona relativamente remota e pouco povoada.

Há registo de duas famílias colocadas fora da Felgueira - os von Dachkamen, no Monte Estoril, e as von Plocki, na Curia -, e de pessoas dispersas, distribuídas por três pensões de segunda linha no Marquês de Pombal, em Lisboa. Tirando o grupo de Lisboa, quase todos os outros ficarão até 1948. As despesas de alojamento, lavagem da roupa, alimentação, transportes, medicamentos, cuidados médicos e o regresso à Argentina ou à Alemanha vão sair do orçamento da PIDE (ver fac-símile das faturas na página ao lado).

Pelas nossas contas, os valores suportados pelo Estado português foram de largos milhares de contos. Aparentemente, Portugal contaria que tanto a Itália como a Alemanha honrassem posteriormente essa dívida, o que parece não ter acontecido. Existe, apenas, o registo da cedência a Portugal, em 1948, das instalações na Ilha do Sal das Linee Aeree Transcontinentali Italiane (Lati), avaliadas em 7500 contos (37.500 euros). Terá sido a forma encontrada para saldar parte das despesas dos cidadãos italianos chegados a Cabo Verde em 1943 e que aí ficaram até 1948. Falta saber se o Governo português e a sua polícia política, que ficara a dever à Gestapo a formação de muitos dos seus quadros, teriam sido igualmente benevolentes com cidadãos de países aliados se o desfecho da guerra tivesse sido outro...

"Tricas" com os quartos

Regressemos às Caldas da Felgueira. Como é que jovens alemães, educados certamente nos parâmetros da raça ariana, acabaram por confraternizar durante três anos com o rapazio, nem sempre educado, da Felgueira e com as filhas de famílias anglófonas?

No início, a desconfiança era grande. Quando se soube na aldeia, através dos donos das pensões, que ia chegar um grande grupo de alemães, a população, sobretudo os homens, reagiu mal. "A guerra tinha criado muita fome em Portugal e agora eles, que eram os culpados de tudo, não tinham direito de vir para cá comer o pouco que tínhamos. A rapaziada ainda chegou a juntar pedras para lhes atirar quando chegassem, mas depois não fizemos nada. Afinal eram só mulheres e crianças", conta João Manuaia, de 85 anos. Aos poucos as coisas foram melhorando, tanto mais que estes alemães não só falavam espanhol como vinham "temperados" com alguma latinidade.

Vestígio. A Juventude Hitleriana, organização juvenil obrigatória para os jovens alemães de ambos os sexos, estava, na sua vertente feminina dividida em Jungmädelbund, Liga das meninas, destinadas a jovens entre os 10 e os 14 anos e a Bund Deutscher Mädel, para as raparigas entre os 14 e os 21 anos. Estes versos escritos na parede de um quarto do Palace Hotel da Curia eram o lema da Jungmädelbund

Vestígio. A Juventude Hitleriana, organização juvenil obrigatória para os jovens alemães de ambos os sexos, estava, na sua vertente feminina dividida em Jungmädelbund, Liga das meninas, destinadas a jovens entre os 10 e os 14 anos e a Bund Deutscher Mädel, para as raparigas entre os 14 e os 21 anos. Estes versos escritos na parede de um quarto do Palace Hotel da Curia eram o lema da Jungmädelbund

Marcos Borga

Dona Nené conta que as senhoras eram quase todas mulheres de funcionários diplomáticos, embora pertencessem "aos mais diversos estratos sociais e profissionais: donas de casa, professoras, uma enfermeira (tinha sido enfermeira-chefe do hospital alemão de Buenos Aires) e até uma fidalga, a sra. von Wolfersdooff." É ainda Dona Nené que relembra: "Houve tricas com os quartos, já que, como os aposentos tinham sido destinados antes de elas chegarem, havia pessoas modestas no Grande Hotel e pessoas mais importantes nas pensões. Existiam diferenças entre elas, não sei se por razões política se sociais e, embora não o deixassem transparecer, desavenças. Eram muito reservadas em relação à sua vida pessoal, e, sobretudo à vida que tinham levado na Argentina, embora houvesse um relacionamento correto e até afável com algumas delas."

O casamento de António "pé descalço"

Confinadas a uma terra de onde só se podiam ausentar com autorização de um agente da PIDE, ali destacado para as vigiar, estas mulheres acabaram por se organizar de forma a cuidarem da educação dos filhos. As crianças mais pequenas eram por vezes colocadas, para descanso das mães, numa espécie de parque gigante instalado no largo fronteiro ao Grande Hotel. Para os residentes das Caldas da Felgueira era uma ideia bizarra, tanto mais que os miúdos se fartavam de chorar. Um dia, a mãe de António Pires, hoje com 82 anos, que ia a passar com um carro de bois, não se conteve e disse: "Ó madama, não vê que a criança está a chorar?" Ao que a visada respondeu, germanicamente: "Não faz mal, as crianças têm de chorar duas horas por dia"!

Além de tomarem conta dos filhos, estas mulheres procuraram ganhar algum dinheiro. Vendendo, na povoação e arredores, trabalhos de tricô com padrões alemães e tiroleses. Mas como, por vezes, isso não era suficiente, começaram a desfazer-se de coisas trazidas da Argentina: joias (que iam vender também às ourivesarias de Viseu), toalhas bordadas, vestuário, sapatos, etc. Albano Valério, hoje com 83 anos, relembra uns magníficos sapatos alemães que lhe duraram quase vinte anos. Por vezes, lembra Dona Nené, algumas conseguiam receber dinheiro de amigos argentinos, através de transferências feitas em nome do seu tio, responsável da Pensão Maial. A PIDE, talvez com vontade de ver diminuídas as despesas, ia fechando os olhos a estas e outras irregularidades...

Pensão completa. Alojamento, lavagem da roupa, alimentação, transportes... a PIDE pagava tudo aos alemães

Pensão completa. Alojamento, lavagem da roupa, alimentação, transportes... a PIDE pagava tudo aos alemães

Para evitar familiaridades entre as senhoras e os agentes, estes eram substituídos todos os meses. Como não deveria haver muitos efetivos na Delegação de Coimbra, os polícias acabavam por fazer, ao longo do ano, vários turnos. E, como a carne é fraca, uma das senhoras mais jovens, conhecida entre os rapazes da terra por "aburradita" - por não ficar a dever nada à beleza - apareceu um dia grávida de um agente da PIDE... O escândalo foi prontamente abafado, e o agente demitido ou, pelo menos, afastado deste serviço. Meses mais tarde, a "aburradita" deu à luz uma criança, que levou consigo quando se foi embora.

Sendo uma terra pequena, onde escasseavam as distrações, cedo a juventude começou a confraternizar. Se os mais novos se entretinham, com o auxílio das sofisticadas caixas de ferramentas das crianças alemãs, a fazer carrinhos de rolamentos e barquinhos a vapor em folha de flandres, os mais velhos passeavam, tomavam banho no rio, preparavam bailes de verão ou de Carnaval e organizavam quadros de revista ou de teatro, depois apresentados nos salões da Maial. Os preparativos também faziam parte da diversão, nem que tivessem de calcorrear 6 km a pé para ir buscar uma grafonola ou camélias para enfeitar o cabelo... Os bailes eram a rigor, com as meninas de fato comprido e as senhoras com faixas do corpo diplomático de um governo que já não existia! Nestas andanças teceram-se amizades e mesmo alguns amores. Um deles foi o de António "pé descalço", que arrebatará o coração de uma jovem valquíria que, mais tarde, o mandará para a Argentina, onde se casariam.

Apesar de as senhoras ocultarem o seu passado, por vezes as circunstâncias acabavam por fazer vir à tona os seus verdadeiros sentimentos. Foi o que aconteceu após a projeção de "O Grande Ditador", de Charlie Chaplin, numa sessão de cinema ambulante, que semanalmente havia no salão do Grande Hotel. "Uma das senhoras que se davam mais connosco, manifestou o seu desagrado e até desprezo não só pelo filme em si, como pelo próprio autor", lembra Dona Nené.

Convivência. Celeste com Elsa e Gerda Koch, Irmengard Gluck e outras amigas portuguesas nas escadas de sua casa, em 1947

Convivência. Celeste com Elsa e Gerda Koch, Irmengard Gluck e outras amigas portuguesas nas escadas de sua casa, em 1947

Entretanto, e enquanto a vida corria alegre para a juventude alemã estacionada em Felgueira, o mesmo não deveria acontecer a quem estava na Curia já que pelas faturas pagas pela polícia internacional, aparentemente, nesta estância, estaria apenas a família von Plocki, a residir no Grande Hotel. Contudo, o lema da Juventude Hitleriana feminina: "Deutsches Mädel, sei kamerad, sei tapfer und treu, gehorsam und verschwiegen ! Deutsches Mädel, wahre deine Ehre ! "Moça alemã, sê camarada, corajosa e fiel, obediente e submissa! Moça alemã, preserva a tua honra!" desenhado na parede de um quarto do Palace Hotel da Curia parece indicar a existência de mais raparigas alemãs nesta localidade.

No final de 1948, as senhoras que ainda se encontravam na povoação são enviadas para Lisboa. Algumas, entretanto tinham regressado à Argentina e outras, poucas, à Alemanha.

Sem grandes recursos e associadas a um regime maldito, após a descoberta dos campos de extermínio, sobrevivem como podem. A própria PIDE começava a esquecer a amizade que a ligara à Alemanha de Hitler e não está disposta a continuara a pagar as contas. Em dezembro de 1949 Gerda Koch, que continuará a corresponder-se com Maria Celeste, escreverá para a amiga que deixara na Felgueira: "No dia 20 de Dec. fomos à Polícia receber o dinheiro para pagar a Pensão, ali nos deram a 'boa notícia' de que não pagavam nem mais um centavo, o que já sabíamos. Desde esse dia que andamos de autoridad para autoridad, também ao consulado sem conseguir alguma coisa, e os barcos também vêm cheios. Eric e Olof estam em casa de conhecidos e a Else também, a família Gorsling também está espalhada em casas diferentes, a senhora Loens está internada. O Elmer anda por toda a parte, um dia na pensão outro em casa de uma família, etc. A senhora Reif e filhos, minha mãe e eu ainda estamos na pensão sem saber o que fazer e como pagar." Com as repatriações suspensas, a família Koch só regressaria à Argentina muitos meses mais tarde.

Resta a pergunta, ainda sem resposta: a troco de quê a PIDE suportou, durante anos, uma despesa desta envergadura?

*historiadora

 

Texto publicado na Revista de 6 de setembro de 2014