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Era uma vez uma sombra de um vestido azul... O caso Lewinsky está de volta

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Bill Clinton ao lado do seu quadro oficial. Assinado por Nelson Shanks, no retrato é visível uma mancha escura, entre o arranjo floral e a lareira, que corresponderá à sombra do vestido azul de Monica Lewinsky

Jonathan Ernst/Reuters

O autor do retrato oficial de Bill Clinton revela que pôs no quadro uma referência visual ao escândalo que assolou o Presidente norte-americano no seu segundo mandato. Para embaraçar Hillary (por tabela)?

Luís M. Faria

Jornalista

Qualquer dia a história tinha de voltar. Voltou agora, dezassete anos depois, pela mão do artista que pintou o retrato oficial de Bill Clinton. Nelson Shanks, de 77 anos, deu uma entrevista ao "Philadelphia Daily News" em que fala do seu trabalho com várias celebridades, incluindo a princesa Diana. A certa altura, refere Clinton e nota a misteriosa sombra vertical que pintou ao lado dele no quadro.

A sombra, explica, faz alusão ao escândalo que atingiu o Presidente norte-americano durante o seu último mandato, quando se tornou público que tinha tido um caso amoroso com uma estagiária na Casa Branca.



Shanks, um pintor de renome mundial, que retratou figuras como o Papa João Paulo,  a princesa Diana, Luciano Pavarotti ou o violoncelista Mstislav Rostropovich, entre tantas outras figuras mundiais, diz que a sombra é de um manequim com um vestido azul (outra referência ao escândalo) que ele punha em frente ao quadro quando o executava - embora não durante as sessões com Clinton. Acrescenta que o ex-Presidente e a sua esposa Hillary detestam o retrato e já tentaram fazer pressão para que fosse removido da National Portrait Gallery, em Washington.

Esta instituição, que aloja retratos oficiais de personalidades importantes na História norte-americana, incluindo ex-Presidentes, nega terminantemente quaisquer pressões. Os Clinton não comentam. Mas as palavras de Shanks deram pretexto para revisitar um dos momentos mais infelizes da política americana em décadas recentes.



Foi em fevereiro de 1998 que o rumor começou a circular. Alguns media de referência, como a revista "Newsweek", já tinham a história mas não a publicavam. Coube a iniciativa ao bloguista Matt Drudge, conhecido pelo à-vontade com que dava luz a escândalos reais ou fictícios, sobretudo quando atingiam os democratas.

O Presidente Bill Clinton a ter sexo na Sala Oval da Casa Branca? Com uma estagiária? O fogo alastrou instantaneamente e horas depois toda a gente discutia o assunto. Quando ao fim de mais dois dias se soube a prática sexual concreta que teria estado em causa -  sexo oral, a que o nome Lewinsky ainda hoje continua associado - o tom das conversas subiu (e desceu) ainda mais uns bons graus.



Clinton tinha bastantes antecedentes

Não que a generalidade das pessoas tivessem ficado verdadeiramente chocadas por Clinton ser capaz daquilo de que era acusado. Ele chegara à presidência com um cadastro de histórias semelhantes, remontando aos tempos em que era governador do Arkansas. Tinha até um processo por assédio sexual a correr em tribunal.

Quando muito, o que agora surpreendia era o facto de ter sido tão imprudente. Afinal, com os seus movimentos controlados em permanência pelos agentes do serviço secreto que o protegiam, era inevitável um certo número de pessoas saber do caso à partida. E uma jovem que tenha sexo com o Presidente provavelmente não ia conseguir ceder à tentação de contar pelo menos a algumas amigas.



Assim acontecera. Durante o período que durou o affair, Monica foi contando os pormenores pelo telefone à sua amiga Linda Tripp, outra secretária do governo. Lewinsky só não sabia que Tripp gravava as conversas. Tinha decidido utilizá-las para arruinar Clinton, em combinação com advogados ligados ao Partido Republicano.

A ideia era preparar-lhe uma armadilha judicial. Quando Clinton fosse depor no processo por assédio que lhe tinha sido movido por Paula Jones, outra antiga secretária, perguntar-lhe-iam se não havia outras situações mais recentes do género - por exemplo, com uma estagiária da Casa Branca chamada Monica Lewinsky. Se ele negasse cometeria perjúrio, um crime que nos Estados Unidos é levado a sério.



O plano resultou. Interrogado em tribunal sobre Lewinsky, Clinton negou tudo e viu-se defrontado com uma acusação de perjúrio. De repente, as gravações telefónicas da estagiária foram parar às mãos de Ken Starr, o acusador independente que os congressistas republicanos tinham nomeado para investigar o Presidente sobre negócios no Arkansas. Apoiado por outros juízes, Starr tomou a liberdade de alargar o âmbito das suas inquirições e avançou para uma investigação completa das aventuras sexuais do residente na Casa Branca.

Não hesitou em obrigar tanto a estagiária como a sua própria mãe a testemunharem, ameaçando-as com cadeia. O próprio Clinton testemunhou durante horas, embora com tamanha escorreiteza verbal (o que ele tinha feito não era sexo? "Depende de qual é o significado de 'ser'", respondeu) que os investigadores não o conseguiram apanhar em nada.



Exercícios de história virtual

Ao fim de meses, Starr publicou um relatório longo e cheio de pormenores íntimos, com o qual esperava causar suficiente escândalo para obrigar o Presidente a demitir-se. Mas Clinton resistiu, apoiado pela sua mulher, pelos democratas no Congresso e pela maioria da opinião pública do país, que embora reprovando os atos do Presidente estava bastante mais indignada com a intromissão na vida privada e com a utilização daquele tipo de assunto com fins políticos.



Clinton ainda foi impeached, quer dizer, viu serem aprovadas acusações formais contra ele na Câmara dos Representantes, mas o Senado recusou condená-lo. Democratas e republicanos votaram numa linha estritamente política. O processo acabou, mas tinha consumido mais de um ano e destruído qualquer possibilidade de o Presidente realizar algo de válido e duradouro no seu segundo mandato.   



A prazo, o escândalo poderá ter tido efeitos ainda mais profundos. Se não fosse ele, talvez o vice-presidente de Clinton, Al Gore, tivesse sido eleito para lhe suceder. Não teria havido a presidência de George W. Bush, com a desastrosa invasão do Iraque e todas as suas sequelas, que hoje continuam.

As especulações de história virtual são praticamente infinitas. Para já não falar na vida normal que podia ter tido Lewinsky, condenada a ser um cliché de anedotas até ao fim da vida. Ainda o ano passado ela falou disso num longo ensaio que a revista "Vanity Fair" publicou.



Certo é que o retrato de Clinton agora em questão é um de 55 que existem na National Portrait Gallery e já foi pintado há quase dez anos. Porque decidiu o artista explicá-lo agora? Por vaidade? Para prejudicar Hillary Clinton, eventual candidata à presidência em 2016?

Shanks chama a Clinton "o mais famoso mentiroso de sempre", mas admite que realizou coisas boas como Presidente. A sua versão, aliás, é posta em causa ou relativizada por quem nota haver uma sombra semelhante no retrato que ele fez da princesa Diana. E depois há as questões sobre o que é razoável exigir a quem aceita a encomenda de um retrato oficial. Ao fim e ao cabo, como disse alguém, numa situação dessas não se trata apenas de retratar a pessoa concreta mas o cargo.