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"Empire". Como os negros conquistaram a TV americana

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Entre a população afro-americana nenhum programa teve mais audiência do que "Empire". Nem o Super Bowl

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Impulsionado pela população afro-americana, o melodrama familiar sobre o mundo do hip-hop é o êxito do momento nos EUA. A primeira temporada, que terminou esta semana, foi um sucesso retumbante: nunca uma série crescera de audiência a cada novo episódio durante 10 semanas consecutivas. E há uma década que nenhuma tinha tanto sucesso na temporada de estreia.

Esqueça "The Waking Dead", "NCIS" ou "The Big Bang Theory". O fenómeno televisivo do momento nos Estados Unidos é um melodrama que tem no centro uma família do mundo do hip-hop. Nunca uma série tinha galopado tanto nas audiências a cada novo episódio: da estreia até ao final da temporada, durante dez semanas consecutivas, cada episódio de "Empire" bateu os números do anterior.  

O episódio duplo que encerrou esta semana a primeira temporada foi visto por 16,7 milhões de pessoas, quase 7 milhões mais do que a estreia. Desde "Anatomia de Grey", de Shonda Rhimes, em 2005, que nenhuma nova série tinha tanta gente a vê-la no último episódio da temporada. E desde "Lost", em 2004, que nenhuma tinha tão boas audiências no seu primeiro ano. 

O sucesso estende-se ao Twitter, onde a série foi a que mais tweets gerou nesta temporada. E consegue adivinhar que álbum chegou esta semana ao n.º 1 dos mais populares da revista "Billboard"? A banda sonora de "Empire", pois claro. 

O sucesso da série está a ser visto como o triunfo de uma audiência há muito ignorada. Apesar de os telespectadores afro-americanos serem os que mais televisão veem nos EUA, atores negros em papéis principais são uma raridade no pequeno ecrã. Essa realidade começou a mudar com "Scandal" e "How to Get Away With Murder", ambos produzidos por Shonda Rhimes e com mulheres negras como protagonistas, mas nunca se foi tão longe como em "Empire". A série criada por Lee Daniels e Danny Strong - respetivamente realizador e argumentista do filme "O Mordomo", também protagonizado por um afro-americano (Forest Whitaker) - tem um elenco quase integralmente constituído por atores negros, com destaque para Terrence Howard, Taraji P. Henson e Gabourey Sidibe, todos já nomeados para Óscares. 

Junte-se-lhe uma trama shakespeariana ao jeito da "Dinastia" dos anos 80 mas passada no mundo do hip-hop, uma banda sonora original a cargo de Timbaland, responsável por vários hits de hip-hop e R&B, e convidados especiais como Cuba Gooding Jr. e Naomi Campbell, e está servido um cocktail de sucesso. Sem surpresa, os telespetadores afro-americanos representam quase dois terços da audiência de "Empire".  

Mais visto que o Super Bowl entre os afro-americanos  Nas mulheres negras entre os 18 e os 49 anos a percentagem é ainda mais significativa: 71% das que estão em frente a um televisor no horário em que "Empire" é exibido estão a ver a série. Entre a população afro-americana adulta com menos de 50 anos nenhum outro programa é mais popular. Nem mesmo o Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, recordista de audiências no país.  

Os Lyon são a família no centro da trama de "Empire"

Os Lyon são a família no centro da trama de "Empire"

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"Empire" conta a história da luta pela sucessão de Lucious Lyon (Terrence Howard), o líder de um império musical que sofre de esclerose lateral amiotrófica - a mesma doença do físico britânico Stephen Hawking - e que, ao descobrir que tem apenas mais três anos de vida, tem que decidir qual dos três filhos o sucederá como CEO da Empire Entertainment. Para adensar a trama, há uma ex-mulher, Cookie, que sai da prisão ao fim de 17 anos e reclama a sua parte da empresa, que ajudou a fundar com dinheiro do tráfico de droga. 

Mais do que a história, são as personagens que agarram os espectadores ao ecrã. E ninguém o faz melhor do que Cookie, interpretada por Taraji P. Henson, que foi nomeada para um Óscar em "O Estranho Caso de Benjamin Button" e que é já uma das favoritas a um "Emmy". Considerada uma das mais fascinantes personagens femininas da TV americana, tem produzido frases icónicas como "as ruas não foram feitas para toda a gente, para isso há os passeios" e "para uma rainha tens uma casa muito desarrumada", a primeira coisa que disse ao filho do meio, gay, quando o reencontrou. 

O sucesso de Empire apanhou de surpresa o próprio Lee Daniels, que afirmou à "Vanity Fair" nunca ter esperado que um episódio de uma série de TV pudesse ser mais visto do que todos os seus filmes juntos. O realizador e produtor, que dirigiu "Precious", sobre uma adolescente afro-americana (o filme venceu dois Óscares em 2009 e esteve nomeado nas categorias de melhor filme e melhor realizador) assumiu também o entusiasmo por a população afro-americana estar finalmente a triunfar no pequeno ecrã. "Nunca pensei ver o dia em que os negros estariam por toda a televisão. É maravilhoso, não é?" 

Em Portugal, "Empire" passa às quintas à noite (22h20) na Fox Life.