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Em três quartos de hora não se esquece só a idade. "Esquece-se o mundo"

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Maria do Céu dá três voltas ao lar sempre que pode. Edviges vai a todos os velórios, faz hidroginástica e sopas de letras. António dá um apoio na Igreja e nos escuteiros. Tudo é uma ajuda para passar os dias quando se tornam todos iguais. No Pinhal Interior Sul, a região mais envelhecida da União Europeia, quase um terço da população tem mais de 65 anos. Os mais velhos ficaram, os mais novos partiram.

Raquel Albuquerque (texto), André de Atayde (vídeo) e Carlos Paes (infografia)

É terça-feira, pouco passa das três da tarde e as oito senhoras de toucas de borracha na cabeça e fatos de banho de licra despem os roupões de cores diferentes, penduram-nos num cabide e começam lentamente a entrar na piscina. O calor abafado e o cheiro a cloro contrastam com a chuva que se vê cair lá fora através dos vidros da piscina municipal. Nenhuma das senhoras tem menos de 65 anos e, embora desta vez sejam oito, costumam ser 20 a entrar na piscina a esta hora, às terças e quintas, uma a uma, para não escorregarem.

As que estão em falta na aula de hidroginástica optaram por ir arranjar o cabelo para o evento dessa noite na vila, pois não é todos os dias que a autarquia de Oleiros organiza uma festa de homenagem ao ex-presidente da câmara, que assumiu o cargo quando elas pouco passavam dos 40 anos. E também não é todos os dias que o primeiro-ministro visita o concelho e se junta à festa.

Já as oito resistentes passaram o verão a desejar que chegasse o mês de outubro para poderem voltar à hidroginástica e portanto agora não há homenagem ou visita que as tire da água. Assim que entram na parte menos funda da piscina, percorrem-na até ao outro lado, sempre a andar, sem nunca deixarem a conversa e sem nunca perderem o pé. A água nunca lhes passa do peito e nunca nadam, só andam. Mas é o suficiente. Ali, dentro de água, os movimentos são agora quase tão leves como eram na juventude. E só 45 minutos depois de o professor ligar a música é que o peso da idade se volta a sentir, quando caminham de volta até à parte menos funda da piscina e se agarram ao corrimão para conseguirem sair.

As alunas estão entre os cerca de 12.900 idosos a viver no Pinhal Interior Sul, a região mais envelhecida de todas as 1.315 da União Europeia (UE), segundo os dados mais recentes do Eurostat, relativos a 2013. O que isso significa é que em nenhuma outra região há uma proporção tão grande de pessoas com mais de 65 anos (32,4% do total). Só que entre as 20 regiões mais envelhecidas da UE estão mais quatro portuguesas - Alto Trás-os-Montes, Beira Interior Sul, Beira Interior Norte e Serra da Estrela.

As estatísticas variam entre os concelhos que compõem a região do Pinhal Interior Sul - Oleiros, Proença-a-Nova, Sertã, Vila de Rei e Mação (este último já passou para a região do Médio Tejo, mas continua a ser incluído no Pinhal Interior Sul pelo Eurostat). Oleiros é o que tem a população mais envelhecida (38% dos habitantes têm acima de 65 anos) e isso levanta questões: saber como lidar com a solidão e o isolamento desta parte da população, saber de que cuidados de saúde precisam os habitantes, saber o que fazer quando perdem mobilidade e vivem em lugares distantes ou saber para onde poderão ir quando, de dia para dia, perdem autonomia.

Há cerca de dois mil idosos em Oleiros e pelos 540 km2 do concelho existem cerca de 100 pequenos lugares dispersos e habitados. Uma carrinha da autarquia percorre as várias vilas e aldeias, para distribuir medicamentos e fazer rastreios. E para quem está mais perto do centro da vila, há hidroginástica, passeios pedestres ou leitura de contos na biblioteca entre as atividades do programa municipal de envelhecimento ativo.

É a falta de companhia e de distração que explicam a ansiedade sentida pelas alunas da hidroginástica durante os meses sem aulas. "São três quartos de hora em que se esquece tudo, esquece-se o mundo", diz Maria Conceição Dias, uma das mais novas e das mais rápidas na piscina. Aos 66 anos conta que decidiu ir para a hidroginástica para emagrecer. "Mas não consegui. Sinto-me é muito mais leve." Já lá vão oito anos desde que começou a arranjar o saco da piscina duas vezes por semana, escapando da rotina do trabalho e das idas ao café.

Fica sempre da meia-noite às sete É de boleia com os filhos ou com as amigas que chegam à piscina. Homens, ali, nem vê-los. Conta-se que alguns já se inscreveram, mas "envergonharam-se e desistiram". Entre as oito resistentes está Edviges Rodrigues. Aos 81 anos, a hora e meia por semana na piscina ajuda-a a preencher os dias, pois o resto do tempo é sobretudo passado em casa, onde se dedica à costura. Não é para "fazer coisas novas", explica, mas antes para remendar as calças ou trocar fechos nas roupas dos netos e genros. "O médico também me mandou fazer sopas de letras."

Mas Edviges não se fica por aí. Há vinte anos, quando ainda dava aulas como professora primária, tomou uma decisão. "Um dia fui ao velório de uma pessoa importante e estava cheio de gente. No dia seguinte fui ao de um velhinho, meu vizinho, e só tinha lá dois sobrinhos." Foi então que decidiu começar a ir a todos os velórios, "nunca são menos de um por mês e raramente mais de dois por semana". Fica sempre da meia-noite às sete da manhã a acompanhar o morto. Depois, já de manhã, segue o seu dia. "Nunca fui de dormir muito. Quando ainda dava aulas, seguia logo para a escola."

A maior parte dos velórios é dos "velhinhos do lar", que Edviges visita todos os domingos. "Eles não têm ninguém." Mas também há pessoas que não conhece e não é isso que a impede de continuar a acompanhar todos os mortos. Para trás, fica o tempo em que percorria grandes distâncias a pé para chegar às escolas dos concelhos envolventes onde deu aulas. Há 60 anos, só em Oleiros, eram 12 escolas primárias, uma por cada freguesia. Hoje são duas.

António Martins estudou numa das escolas primárias do concelho. Aos 73 anos, tem acumulado várias atividades desde que se reformou da chefia da estação de correios de Oleiros há 21 anos. Não há rua, casa ou café que lhe seja estranho na vila. Nos últimos tempos, já foi vereador da câmara e voluntário nos bombeiros, na banda filarmónica e na Cáritas. É membro da assembleia municipal, do conselho económico da Igreja e do agrupamento de escuteiros, que ajudou a criar em Oleiros. "A vida aqui baseia-se praticamente nisto, nestes trabalhos que vamos fazendo."

É no café JP, mesmo no centro da vila, que o encontramos e seguimos até ao coreto do jardim do município, uns metros à frente. Em dia de chuva, veem-se alguns homens nos cafés, sentados à mesa ou abrigados por baixo dos toldos e das ombreiras das portas.

António estende o braço para apontar para um edifício, a umas centenas de metros do coreto: era ali a escola primária onde andou. António estudou até ao sexto ano, esteve em Castelo Branco e depois fez um estágio nos correios em Lisboa. Ainda foi para a tropa e esteve mobilizado em Moçambique, de onde voltou em 1967. Foi então que assumiu a chefia da estação de correios, numa altura em que "ainda tínhamos carteiros, telefonistas e guarda-fios".

António conta que o problema da baixa natalidade e do reduzido número de jovens no concelho reflete-se no agrupamento de escuteiros. Na altura em que o criaram, há 20 anos, chegou a ter 120 jovens, hoje tem 59. "Dos sete jovens nas chefias, três estão fora daqui. Se não tivermos postos de trabalho, eles têm de ir para outro sítio."

Rendas a 200 euros, creches a 100 Mas há quem escolha ficar ou regressar, em vez de partir. À falta de postos de trabalho na região, a alternativa é criar o próprio emprego. É o que Andreia Gonçalves, 28 anos, e Pedro Nunes, 33, têm em comum: deixaram Lisboa, escolheram fixar-se na região do Pinhal Interior Sul e arriscar nos seus negócios, em concelhos diferentes.

No caso de Andreia, foi quando se viu obrigada a regressar a casa dos pais, em Proença-a-Nova, depois de ter ficado sem emprego em Lisboa, que percebeu que tinha de arranjar uma solução. "Quando estive desempregada, comecei a ler sobre a produção de sabão e comecei a fazer em casa, na cozinha." Pouco depois, chegou-se à frente e apresentou a ideia num concurso local de financiamento de novas empresas: produzir sabonetes e produtos naturais de cosmética de forma artesanal. Foi selecionada e entrou numa incubadora de empresas de Proença-a-Nova, que tem a Câmara Municipal como principal financiadora.

O objetivo é dedicar-se a tempo inteiro ao negócio e levá-lo até outros países. Mas enquanto tudo está a ganhar forma, Andreia trabalha como administrativa numa empresa local. Em 2013, era um dos 1.214 jovens com idades entre os 20 e os 34 anos a viver no concelho e, aos seus olhos, uma das vantagens de ali viver é pagar uma renda baixa: por um apartamento de quatro assoalhadas, que divide com o namorado, pagam 200 euros por mês. "Há quem saia daqui porque não gosta, é verdade. Mas eu aqui tenho apoio dos meus pais, dos meus sogros e os preços das creches são no máximo de 100 euros."

Foi sem conhecer em concreto essas vantagens, no entanto, que Pedro Nunes trocou Lisboa por Oleiros, há dez anos. Até então, o contacto com o concelho reduzia-se às temporadas de férias que lá passava, por ser a terra onde os pais nasceram e que deixaram aos 12 anos, em troca de trabalho em mercearias de Lisboa, para carregar fruta ou distribuir leite.

Pedro vivia na capital e aos 23 anos abriu um café, com o apoio dos pais. No entanto, um dia, um tio disse-lhe que havia um café em Oleiros para venda e perguntou-lhe se ele estaria interessado.

"Pensei: 'Não custa nada ir experimentar um ano, ver se dá ou não dá. Não me prejudico e volto para Lisboa outra vez caso não funcione'."

Entretanto passaram-se dez anos e foi ficando. Pelo caminho, vendeu o primeiro café que tinha comprado. "A minha melhor fase foi perceber que aqui até se vivia bem." Hoje, aos 33 anos, é um dos 281 jovens entre os 30 e os 34 anos a viver no município. Tem dois filhos e ao negócio do café juntou a gestão de duas casas de turismo rural e de bungalows no parque de campismo.

Assumir o risco é o que Pedro acha estar em falta na sua geração. "Vejo muita gente com ideias e a debatê-las, mas no ato depois falta-lhes essa coragem". E se há pontos negativos? Sim, e um deles é a falta de jovens, diz. "Queria ter mais amigos aqui. Gostava que houvesse mais oportunidades para eles."

Talvez fora haja mais saída para as crianças A falta de oportunidades fez com que a experiência de ver os filhos ir embora se tenha tornado um ponto comum entre quem hoje ainda vive no concelho. A pouco mais de 20 quilómetros do centro de Oleiros, os dias de Maria do Céu Gonçalves são diferentes dos de Edviges ou de António. Com 90 anos, tem os dois filhos a viver "cada um na sua vida", depois de os ter visto partir - primeiro para Castelo Branco, para estudarem, depois para Lisboa, onde trabalharam. Hoje vivem em diferentes cidades do país.

À semelhança de Edviges, Maria do Céu tem um passado vivido nas escolas como "regente primária". Lembra-se de chegar a ter 25 alunos por turma, quando "ainda havia mocidade" naqueles lugares. De olhos pequenos e atentos, está sentada num dos cadeirões da sala de convívio do lar de Orvalho, uma das freguesias de Oleiros. A toda a volta da sala, encostados às paredes, são vários os cadeirões e os sofás de dois ou três lugares. Pequenos papéis brancos, retangulares e colados com fita-cola nos braços de cada cadeirão identificam quem ali se senta. Além da companhia da televisão, joga-se às cartas ou ao dominó nas três mesas redondas junto às janelas.

Do centro de Oleiros à freguesia de Orvalho

Maria do Céu nasceu numa aldeia em Proença-a-Nova. "Na aldeia onde vivi, já só estão duas pessoas. Os jovens vão para fora, casam lá e ficam lá. Talvez fora haja mais saída para as crianças."

No lar, a média de idades é de 86 anos e na sua maioria são os filhos que pagam a mensalidade dos pais, que ronda os 800 euros por mês. "Muitos deles não vivem cá, emigraram ainda nos anos 1960", conta António Natário, fundador e responsável pelo centro social, que investiu o seu dinheiro na instituição à qual se dedica há 30 anos.

O centro social, além de ser casa para 100 idosos, dá emprego a 120 pessoas. Há enfermeiras da Mealhada, Castelo Branco ou Sertã, mas que mantêm a sua residência fora de Oleiros. Não refletem, assim, um aumento na população residente da freguesia, que chegou a ter 1.200 habitantes em 1985 e que em 2013 tinha 700. E se para o terreno onde hoje está a unidade de cuidados continuados do centro social esteve pensada a construção de uma creche, o número reduzido de crianças não o permitiu. Hoje há seis crianças no infantário e sete na única escola primária.

Vêm de bata, de mãos dadas e trazem cubos gigantes É o maior número de crianças, numa população total também maior, que equilibra o envelhecimento do concelho da Sertã, a 27 quilómetros de Oleiros. Tirando partido disso, o Centro Social São Nuno de Santa Maria, em Cernache de Bonjardim, uma pequena freguesia do concelho, organiza encontros entre os 40 idosos do lar e os alunos da pré-escolar.

De Orvalho para Cernache de Bonjardim

A partir da sala de convívio da instituição, que resultou de um investimento de 4,5 milhões de euros, vê-se chegar a carrinha com as crianças. Vêm de bata, de mãos dadas e trazem cubos gigantes feitos de cartão. O silêncio do lar, apenas interrompido de vez em quando pelo chiar de uma cadeira de rodas ou por uma conversa rápida, desaparece assim que entram na sala. "Viemos aqui ver as avozinhas", dizem. A maior parte dos utentes do lar são mulheres - coincidindo também com a proporção de mulheres com mais de 65 anos na região (em cada dez idosos, seis são do sexo feminino). As senhoras mantêm-se sentadas a ouvir as crianças. Ficam embaladas pela rapidez dos movimentos e pelas corridas e vão puxando pela atenção para acompanhar as canções tradicionais que as educadoras as põem a cantar. As mesmas canções que elas, um dia, provavelmente naquela mesma idade, terão aprendido.

 

 

Juntar as duas gerações, separadas por décadas, é uma forma de ligar as crianças ao passado e à tradição da região, por um lado, e uma forma de aligeirar os dias de quem já não sai do lar, por outro. Quem agora chega ao lar, na maioria dos casos, já não tem capacidade para viver sozinho em casa. "Nunca tivemos um grau de dependência tão elevado como agora", diz Joaquim Patrício, diretor do centro social. Por mês pagam entre 300 euros, com comparticipação, e 1.250 euros, sem comparticipação. "Temos pessoas de Lisboa que vieram para aqui. Os filhos entendem trazê-los. Mas a grande maioria tem uma relação com a região", diz.

Ainda que o Pinhal Interior Sul seja a região mais envelhecida da União Europeia, em muitos aspetos assemelha-se a qualquer outro conjunto de lugares de onde os jovens foram saindo e onde os idosos foram ficando. Pelo meio surgem histórias contrárias, como a de Pedro Nunes ou Andreia Gonçalves, que fazem o trajeto inverso, largando uma grande cidade e iniciando um novo caminho. "Com vidas mais pequenas tem-se mais vida", diz Pedro.

Mas há dias em que uma pergunta lhe passa pela cabeça, a mesma que em tempos terá surgido a Edviges Rodrigues ou Maria do Céu Gonçalves: e se um dia os meus filhos tiverem de ir embora? "Sei que vai acontecer-nos o que aconteceu aos nossos pais. Vou tentar deixar aos meus filhos o gosto pela zona", responde Pedro. "Se a vida deles um dia tiver de passar por outro sítio, só não quero que eles se esqueçam deste."

Há outros concelhos em Portugal numa situação de envelhecimento mais acentuado, como Vila Velha de Ródão, mas no entanto a região do Pinhal Interior Sul é a mais envelhecida do país e da União Europeia. "O Pinhal Interior Sul sobressai porque não tem nenhuma cidade grande, ou seja, não tem nenhum concelho grande que compense as médias. Não é um problema da região", explica Eduardo Castro, professor na Universidade de Aveiro e coordenador de um estudo demográfico concluído em 2013, que já punha o Pinhal Interior Sul como um dos piores casos do país e da União Europeia em termos de envelhecimento. "Não é justo que seja só apontada essa região." Eduardo Castro defende a existência de uma "política conjunta para atrair simultaneamente empresas e pessoas", considerando que os poucos jovens que se deslocam para a região "têm um impacto zero em termos de resultado". "As previsões apontam para que, se nada for feito, o interior fecha. Caso não se faça algo, esse caminho é certo." [Trabalho publicado na edição do Expresso Diário de 5 de dezembro de 2014]