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"É mais difícil entrevistar um escritor do que um político"

José Rodrigues dos Santos é dos autores de ficção que mais vende em Portugal: já passou de um milhão. Agora lança o livro "Conversa de Escritores", pretexto para uma entrevista ao Expresso.

Ana Soromenho (www.expresso.pt)

José Rodrigues dos Santos, jornalista, 45 anos, é hoje um dos autores portugueses de ficção mais vendido em Portugal. Entre os romances históricos e os ensaios sobre a guerra soma mais de um milhão de exemplares vendidos, só em território nacional, e já está traduzido em 15 línguas.

Hoje lança o seu 11º livro, com a chancela da editora Gradiva e num formato que foge ao género explorado pelo romancista: um livro de entrevistas a partir de diálogos com escritores.É pois sobre escritores e o exercício da escrita que decorre esta conversa, que teve lugar no Hotel da Penha Longa, perto do condomínio onde mora. Reconhece que os livros lhe trouxeram conforto material. Mas garante que mesmo que não vendesse, escrevia, porque o faz apenas por prazer. Como um hóbi, que lhe é tão imprescindível como jogar ténis.

"Conversa de Escritores", o livro a partir das entrevistas que realizou para a RTP, é um trabalho do jornalista ou colocou-se entre pares? A minha postura foi de jornalista, mas, uma vez que sou um romancista a conversar com outros romancistas, talvez tenha havido uma intenção de jogar com o duplo sentido da minha vida profissional. Os próprios entrevistados assumem essa ideia e falam comigo enquanto autor.

No texto de introdução que antecede cada entrevista introduz-se sempre como "personagem" e escritor. Tem a ver com o registo de reportagem. Quando passei do formato televisivo para a edição em livro, senti necessidade de transportar o leitor para o ambiente em que decorreu a entrevista. A introdução que faço a cada uma das entrevistas é uma descrição factual do que acontece. São histórias de bastidores. Houve até coisas embaraçosas para mim - e que não deixei de referir.

Como, por exemplo? Por exemplo, o Dan Brown gozar comigo por causa da tradução de "A Fórmula de Deus" para "The Einstein Enigma", que foi uma escolha da editora americana, obviamente inspirada no "Código Da Vinci".

Também resolveu incluir um comentário de Isabel Allende em que ela lhe diz que está muito bem vestido, mas não ficaria nada mal despido... Pois. Ela disse isso na brincadeira. Achei interessante incluir porque mostrava muito bem o registo brincalhão e provocador da escritora chilena. Esses diálogos que transcrevo são importantes, porque revelam traços da personalidade de cada um dos meus entrevistados.

O livro, a partir de um trabalho pensado para a televisão, foi proposta sua ou da editora? Sinceramente nem me lembro. Quando percebi que tinha um painel muito bom de autores comecei a equacionar um livro.

É um formato muito diferente daquele a que tem habituado os seus leitores. E não faço ideia se vai vender. Não será a mesma coisa do que escrever um romance, mas a preparação do programa também envolveu imenso trabalho. Entrevistar um romancista é muito mais difícil do que entrevistar um político. Temos de conhecer a obra completa dele. Andei meses e meses a ler estes livros. No programa teve 21 entrevistados, mas só publica dez. Como seleccionou? Que nomes ficaram de fora? Martim Amis e Paul Auster, por exemplo, ficaram de fora. Não podia incluir todos. Procurei, sobretudo, ter um painel variado.

Dan Brown, Luis Sepúlveda, Sveva Caseti Modignani, Paulo Coelho, Ian McEwan, Günter Grass, Jeffrey Archer, Isabel Allende, Saramago, Sousa Tavares... Considera serem estes os grandes nomes da literatura contemporânea? Em Portugal são. Essa discussão é introduzida no prólogo do meu livro, onde explico a relatividade desse conceito. Um autor pode ser muito bom para um leitor e péssimo para outro. Como saber quem tem razão?

O que é literatura? Quem define o que é literatura é o leitor. Literatura remete-nos para uma ideia de qualidade - e um autor não pode ser juiz da sua obra.

O critério é o gosto do público? É sempre subjectivo.

Voltando à sua lista. É uma escolha bastante mediática. Posso responder que a escolha foi a notabilidade.

Notabilidade determinada pelo número de vendas? Designadamente, mas não só. Nem Günter Grass nem Jeffrey Archer vendem muito em Portugal. Um dos critérios que me pareceu importante foi a variedade de géneros. Temos autores de thrillers, de sagas, de pequenas histórias, de contos, o autor de romances, o new age, a autora de romance feminino...

Na lista constam apenas duas mulheres. Não houve nenhum intuito sexista. Procurei e percebi que não há assim tantas mulheres escritoras. A Isabel Allende, por exemplo, era uma evidência. É a maior autora do Chile. Mas, na realidade, não há muitas mulheres líderes de mercado nos seus países.

Também só tem dois portugueses. Incluir o nosso Nobel era obrigatório? Não. Volto a dizer que o critério foi a notabilidade no mercado nacional.

E Sousa Tavares? Precisamente pela mesma razão. Em Portugal é um autor enorme.

Ainda sobre os 21 autores do seu programa, foi difícil conseguir este leque? Não. Mexo-me bem no mundo das editoras. Mas, por exemplo, tinha considerado Vargas Llosa e também gostaria muito de ter tido Gabriel García Márquez, mas deixou de dar entrevistas.

Chegou a entrevistar Philip Roth? No livro diz que ia fazê-lo, mas depois o nome do escritor norte-americano não aparece. Primeiro confirmou e depois desistiu. Ele é complicado.

Qual foi autor mais difícil? Dan Brown foi o mais difícil de aceder. Mas como entrevistado foi Günter Grass. A condição era que a entrevista decorresse na língua do autor, pelo que tive de preparar as perguntas em alemão.

Quem o impressionou mais? Achei o Jeffrey Archer muito interessante como figura... Mas, para dizer a verdade, e sem ser politicamente correcto, tenho de dizer que todos foram interessantes à sua maneira. Uma das coisas que achei curiosa - e até o mencionei - foi que, quando falamos com estes autores, as conversas nunca são monótonas.

 O que transporta do jornalismo para os romances? A escrita. Tenho uma preocupação com a transparência da linguagem. Há uma frase do McEwan em que diz: "As palavras são como lençóis de água." São um meio para contar a história. A etimologia da palavra reportagem - reportare - significa transportar. Quando escrevo, procuro que o leitor se deixe transportar. Essa técnica de escrita vem-me do jornalista.

Numa entrevista defendia que é mais fácil chegar à verdade na escrita de ficção do que enquanto jornalista. Parece contraditório. O que eu disse foi que era mais fácil obter efeitos de verdade com um discurso ficcional do que com o discurso não ficcional. Um jornalista, tal como um historiador, tem de se basear em factos para afirmar determinadas coisas. Por exemplo, quando escrevi o romance "A Ilha das Trevas", sobre Timor, descrevo uma reunião em Bruxelas por causa da Indonésia. Sem ter falado com os protagonistas, mas tendo acesso à documentação, consegui reconstituir o diálogo dessa reunião. Quando, mais tarde, mostrei ao ministro dos Negócios Estrangeiros português, ele disse: "Parecia ter estado lá!" Este tipo de efeitos consegue-se mais facilmente no discurso ficcional, porque no jornalismo estamos sempre presos às fontes.

Enquanto romancista é obcecado com o rigor? Não se não for relevante para a história. Mas um autor estabelece um contrato com o leitor em que diz: "Vou contar-vos uma história. Uma parte é ficção, mas estes pormenores são verdadeiros." No caso dos meus romances, a informação histórica e científica é verdadeira. Tenho de cumprir essa parte do acordo. Não posso ter erros factuais.

Os seus romances têm um trabalho grande de pesquisa e de reconstituição de época. O que é que lhe dá mais prazer no processo do livro? Gosto de todas as etapas. Só não gosto da revisão. De resto, tudo é interessante e tem o seu tempo.Isabel Allende diz-lhe a dado momento que as personagens acabam por tomar conta da história. No seu caso, deixa-se tomar conta por uma personagem? Entro na escrita com um plano e sigo-o. Tenho sempre a personagem sob controlo. Há quem defenda que, quando uma personagem sai fora de controlo, é porque o autor não tem pulso da escrita.

Já lhe aconteceu? Aconteceu na "Ilha das Trevas", o meu primeiro romance.

É-lhe difícil desenhar personagens? Não.Não tem nenhuma zona de dificuldade nas várias etapas do processo do romance? Confesso que não. O Miguel Sousa Tavares diz que quando está a escrever o romance toma conta dele a ponto de não conseguir fazer nada. Isto comigo não acontece. É um trabalho de puro prazer.

Mas já explicou que era muito metódico na forma como organiza o seu tempo. Sobretudo porque desempenho muitas funções, tenho de me organizar. O romance maior que fiz - "A filha do Capitão" - foi escrito, integralmente, quando era director de informação da RTP e em fase de processo de reestruturação da empresa.

E tinha tempo? Invento o tempo para escrever. Se todos os dias escrever uma página, ao fim de 300 dias são 300 páginas. Eu numa hora escrevo duas. Quando se faz por gosto não é difícil.O seu último livro, "A Vida Num Sopro", foi arrasado pela crítica. Em Portugal, devido ao facto de eu ser figura pública, será sempre muito difícil da parte dos críticos, e também do público, fazer uma análise em que me consigam dissociar da obra.

Ser uma figura pública também o beneficia. Sem dúvida. Há vantagens e desvantagens. Não me estou a queixar, estou a observar. Mas, no estrangeiro - onde os meus livros estão traduzidos em 15 línguas -, os críticos não me conhecem de parte nenhuma e a verdade é que o tipo de crítica que me fazem é totalmente diferente. Dá que pensar.

No seu livro há uma pergunta que atravessa todas as entrevistas: "O que é um bom romance?" Enquanto autor era o que mais lhe interessava saber? Penso que sim. A resposta a essa pergunta é a que melhor define um autor, porque é a maneira como ele vê o romance.

E para si, o que é um bom romance? A minha resposta está plasmada em "A Filha do Capitão". Citando o senhor King, que na verdade é o Stephen King, onde ele diz que um bom romance é aquele que tem uma boa história bem contada.Quem é o seu autor preferido? Somerset Maugham. Quando começou a publicar, Virginia Woolf disse que desde Charles Dickens não tinha aparecido nenhum romancista tão bom. Sabe qual foi o pecado de Maugham? Foi ter começado a vender. A partir dos 15 mil começam os problemas. Como diz Jeffrey Archer, quando um autor vende muito, deixa de ser considerado um bom autor.

Não será também, um preconceito ao contrário? Olhe que não... Olhe que não.

 (Texto original publicado na Revista Única  da edição do Expresso de 01 de Maio de 2010)