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E lá vamos outra vez adiantar os relógios. Será que ainda é para "poupar cera"?

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Mais uma vez chega aquela altura do ano em que as pessoas confundem se hão de mover os ponteiros do relógio para frente ou para trás, se dormem mais ou menos uma hora, o que faz alguns andar rabugentos. Mas nada que não se compense com a mais longa duração dos dias, que proporciona momentos extra de lazer e descontração. O Expresso conta-lhe a história por trás do fenómeno.

Expresso (texto) e Carlos Paes (infografia)

Março está a chegar ao fim, e apesar de a primavera andar mascarada é tempo de mudar a hora no relógio, mais uma vez. Todos os anos a pergunta é a mesma, é uma hora para lá ou uma hora para cá nos ponteiros do relógio?, dormimos mais ou dormimos menos?

Pois bem, cá vai a cábula: na madrugada deste sábado para domingo, 29 de março, em Portugal continental e na Madeira, à 1h00 deste domingo, 29 de março, adiante o relógio 60 minutos, passando para as 2h00. Nos Açores, a mudança é feita à meia-noite. Ou seja, teremos um dia com apenas 23 horas de duração, e a hora agora "comida" será recuperada lá mais para diante, em outubro, na mudança para o horário de inverno.

Para aqueles que gostam de dormir não é fácil passar a "acordar mais cedo", mas o facto de "os dias parecerem maiores" compensará o esforço.

Os pais agradecem  Anoitece mais tarde e os dias parecem proporcionar todo um conjunto interminável de atividades de lazer. Dá para ficar até mais tarde na rua, com os amigos a beber uma cerveja, passear e ver as vistas, correr e andar de bicicleta. Enfim, até os pais parecem mais descansados.

É essa opinião de Manuela Subtil, professora de matemática do ensino básico, que diz ficar mais descansada quando a sua filha "sai da explicação quando ainda é de dia". De acordo com a sua experiência, "os miúdos" preferem este tipo de horário, pois têm "mais tempo para brincadeiras." 

As opiniões são igualmente positivas entre os "miúdos" mais velhos. Sérgio Santos, estudante universitário de 23 anos, diz que apesar de se tratar de um efeito ilusório, o dia "passa a ter mais horas, e com a chegada do verão isso é muito importante, porque dá para estar mais tempo na praia."

Para Inês Laranjinha, médica de 29 anos, o "desaparecimento" de uma hora na madrugada de sábado para domingo é positiva, não acarretando quaisquer consequências físicas para as pessoas, a não ser "a preguiça de acordar cedo nos primeiros dias após a alteração do horário".

Benjamin Franklin, o autor da ideia que queria "poupar cera" É sabido que o horário de verão estica a luz diurna, pelo menos até à entrada da época mais quente do ano. Mas saberá o leitor a história que está por trás desta ideia?

A primeira vez que se falou na hipótese de alteração da hora foi nos Estados Unidos da América, e logo pela boca de um dos nomes incontornáveis da História deste pais: Benjamin Franklin. O antigo político propôs esta ideia ao seu governo como uma medida de poupança de "cera das velas", chamando-a de "Daylight Savings Time" (DST).

Mas apesar de vários artigos publicados um pouco por todo o mundo, a ideia só foi adotada cerca de 130 anos depois, durante a I Guerra Mundial, pela mão do último kaiser alemão, para poupar carvão. A mudança da hora começou por ser, nessa altura, uma necessidade, para permitir reajustar os horários de trabalho de forma a poupar combustível, fortemente racionado no período de guerra.

Depois da Alemanha seguiram-se a Rússia e os Estados Unidos, todos em busca de uma poupança energética. O mesmo aconteceu durante a II Grande Guerra. Contudo, após os conflitos, a maioria dos países deixou de "dar voltas às cordas do relógio", ignorando as mudanças da hora.

Então, como é que chegámos à prática dos últimos anos? Com a crise energética de 1973, os países árabes aumentaram os preços do petróleo em 400% e provocaram um pânico mundial. A partir dessa altura, a mudança de hora duas vezes por ano começou a generalizar-se, uma vez mais tendo em vista a poupança de recursos com a maior longevidade da luz diurna.

União Europeia muda a hora em uníssono Não se sabe ao certo se a alteração dos horários ainda se justifica com a "poupança de energia". Não há dados suficientes que permitam tirar conclusões concretas, e isso confirma-se com o último relatório sobre o tema emitido pela Comissão Europeia (CE), em 2007, onde se lê que: "A hora de verão contribui para uma poupança de energia pelo facto de se utilizar menos eletricidade em iluminação ao fim do dia, visto haver mais luz natural. No entanto, desta poupança é necessário deduzir o maior consumo de energia devido à necessidade de aquecimento de manhã, quando da mudança horária, e o consumo de combustível suplementar gerado pelo possível aumento do tráfego ao fim do dia quando há mais luz natural."

Os países membros da União Europeia partilham uma diretiva respeitante à mudança da hora desde 2001, e no mesmo relatório da CE lê-se: "A maioria dos Estados-membros sublinha a importância da harmonização do calendário da hora de verão na UE, nomeadamente em relação aos transportes." E isso é um fator muito positivo, todos mudam a hora.