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Dezassete perguntas (e as devidas respostas) ao melhor hospital do país

Top hospitais. Centro Hospitalar do Porto é o vencedor na categoria dos grandes hospitais universitários. Hospitais de Coimbra e Santa Maria, em Lisboa, fora da lista dos nomeados

Rui Duarte Silva

Centro Hospitalar do Porto foi reconhecido como o melhor do país entre todos os grandes hospitais. Fomos perceber porquê.

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

No Hospital de Santo António, a casa-mãe do Centro Hospitalar do Porto, "todos vestem a camisola: do motorista aos enfermeiros". Garantia de Sollari Allegro, presidente do conselho de administração da mais antiga instituição de saúde do país a funcionar em pleno e que está no primeiro lugar entre os grandes hospitais universitários portugueses.

Na avaliação foram tidos em conta qualidade e eficiência dos serviços, além de índices de cirurgia ambulatória, números e custos operacionais de doentes-padrão por médico. No Centro Hospital do Porto, campeão do desempenho em 2013, foram efetuadas 35 mil cirurgias, 1900 partos e 630 mil consulta/ano, uma média de três mil por dia. Com um orçamento de 240 milhões de euros no ano em curso e com uma previsão de resultados positivos, são 70 o número de médicos e paramédicos envolvidos no maior centro de transplantes do norte do país, o único do país que faz transplantação regular do pâncreas e o maior número de transplantes de fígado e o que mais investe em investigação. "É a valência de ponta deste hospital e a mais visível e complexa", refere o diretor da unidade de transplantação, Jorge Daniel, sem esconder o orgulho nas taxas de sucesso de sobrevida dos enxertos e doentes do serviço que lidera. 

António Vieira Martins, de 50 anos, transplantado ao fígado há 10 dias, soube da subida ao pódio do hospital onde é seguido há mais de um ano pelos funcionários. "Não é de estranhar. Do médicos aos auxiliares, nunca tive razões de queixa", confidencia o paciente, residente em Gondomar, enquanto almoça peixe cozido com feijão verde. Não sabe quando vai ter alta, mas não tem pressa, que "primeiro está a saúde". Se não for para casa a tempo de festejar o natal, paciência. "Há outros natais e a minha família vem ver-me todos os dias." 

Aos 69 anos, na liderança do Santo António desde 2002, Sollari Allegro detesta campeonatos de rankings na saúde, mas não dispensa a avaliação voluntário de estudos de benchmarketing. Em entrevista ao Expresso, explica porquê:

 

Em fevereiro, o Hospital de Santo António figurava em 5º lugar do ranking efetuado pela Escola Nacional de Saúde Pública. Como explica agora o salto para o primeiro lugar neste ranking, elaborado pela espanhola IASIST? A Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) analisa apenas três critérios do internamento. Ora, os hospitais não são só internamento. 70% do nossa atividade é de ambulatório e analisar as instituições só por três critério é altamente falível.  

Nesta avaliação não consta o índice de satisfação dos doentes. Porquê? Porque não há registos. Seriam necessários inquéritos específicos. Este estudo baseia-se em dados que o IASIST colhe através da plataforma de informação do ACSS que serve para analisar os hospitais.

O que valem estas avaliações? Nós estamos inseridos em vários benchmarketings porque o conselho de administração acredita que são úteis para melhor todas as valências de um hospital. Se eu sei que há outros melhores a fazer determinadas coisas, vou ver como fazem e tentar ser pelo menos tão bom. Os rankings são um pouco detestáveis porque estabelecem uma categoria, o que não é o objetivo do benchmarketing, cujo meta é a melhoria contínua dos serviços. E é isso que queremos, daí dispensarmos a existência de rankings. É introduzir um campeonato desnecessário. Agora é evidente que quem é premiado sente orgulho no seu trabalho. 

Funciona como estímulo? O reconhecimento público é sempre um estímulo para médicos e funcionários. Uma característica desta instituição é que todos vestem a camisola. Sobretudo no Hospital de Santo António. Pela sua antiguidade, as pessoas gostam da instituição, enquanto o Centro Hospitalar ainda não tem isso entranhado completamente. 

E para os doentes, qual a mais valia deste tipo de avaliação? Também é motivador existir este reconhecimento. Hoje já recebi vários cumprimentos dos doentes no corredor. Sentem-se confortados porque sabem que estão a ser tratados num bom hospital. Os pacientes entram aqui fragilizados e vão sentir-se mais seguros com esta distinção .

Se estivesse no lugar de um júri, o que avaliaria de melhor e pior no Centro Hospitalar do Norte, e no Santo António em particular? É complicado porque quem aqui trabalha faz o possível por fazer o melhor que sabe.  O que tem de melhor é sem dúvida este sentimento de pertença, de motivação. Faço muitas viagens para Lisboa, vou com os motoristas e descobri que eles próprios estão tão motivados como nós. Vivem muito os sucessos e insucessos da instituição. É agradável ver este envolvimento, qualquer que seja a categoria profissional. Gostam de saber o que se está a fazer de novo. 

E o pior? O pior tem sido a dificuldade de integração. De repente caíram dentro da instituição mais de mil pessoas que não tinham esta cultura. O Hospital Joaquim Urbano, o Maria Pia, que nós fechámos, e a maternidade - que é agora o Centro Materno Infantil, estando a sofrer uma intervenção de modo a serem lá colocadas todas as valências da mulher e da criança. No próximo ano, em maio ou junho, fechará o Joaquim Urbano, passando os doentes a serem internados no Hospital de Santo António.

E faz sentido esta fusão? Hoje em dia, com o avanço tecnológico, as especialidades médicas isoladas não são boas - nem para as instituições, nem para os doentes. Mais vale estarem integradas num hospital diferenciado. Os profissionais e doentes têm acesso a todo o tipo de novos tecnologias sem andarem a passear de hospital para hospital. Outra mais-valia da concentração de serviços é o esmagamento de custos, já que as grandes despesas na área da saúde são as estruturas. 

Chegados ao topo do pódio, o que pode ainda ser otimizado? Esperamos melhorar as listas de espera e atrasos nas consultas. Temos, em média, 56 dias de demora na marcação de consultas, quando o ideal seria o médico de família pedir a consulta e ser marcada na semana seguinte. Temos vindo a encurtar os tempos e acho que é possível melhorar.

E o tempo de espera para marcação de cirurgias? A dificuldade é maior, dada a limitação do número de camas. Temos de fazer opções, a disponibilidade de camas não é elástica. Quando são cirurgias em ambulatório, que são a maioria dado termos criado um serviço de ambulatório de raiz, é mais fácil encurtar os períodos de espera, o que não tem sido possível, por exemplo em ortopedia, que são intervenções complexas.

Com mais recursos seria possível aumentar o número de camas? Não é fácil aumentar porque temos limitações estruturais. Somos um hospital de centro de cidade, sem espaço para crescer.  

Tem retorno da avaliação dos doentes? Num inquérito recente sobre o serviço de urgência, ficamos destacados em primeiro lugar, apesar de à nossa urgência faltar dimensão em termos físicos. Quando aderirmos ao Centro Materno Infantil, ao sair a pediatria, vamos ter mais espaço para a urgência e espero que possam ter ainda uma melhor opinião do atendimento mo Hospital de Santo António.

A falta de enfermeiros tem sido uma das queixas constantes nos hospitais. O Centro Hospitalar não sofreu cortes? Nós temos as mesmas queixas que os outros, mas acabámos por não ser tão atingidos porque desenvolvemos uma estratégia de longo prazo, na tentativa de minorar o impacto. Reduzimos os custos e, por outro lado, aumentamos a produção, o que fez com que o impacto dos cortes não se sentisse tanto.

Aumentaram os turnos? Não, sobretudo controlando melhor a atividade, conversando e sensibilizando as pessoas desta casa para uma prática mais eficiente.

Portugal ainda tem um bom Sistema Nacional de Saúde? Muito bom. Que o diga quem vai viver para o estrangeiro. Só comparando se percebe o que temos de bom.

Acha que se fazem críticas à toa? Não digo que sejam sem sentido, mas são feitas por quem não conhece o que acontece noutros países. Nós fazemos três mil consultas por dia, dezenas de cirurgias e organizar todo este processo é muito complexo em qualquer parte, principalmente numa grande instituição como é a nossa. As pessoas têm de perceber que fazer medicina para massas é diferente de ter uma clínica privada em que chega um doente de vez em quando, tipo hotel.

Um dos pontos mais negros da avaliação é o facto de a maioria dos internamentos serem feitos via urgência. Estão a falhar os serviços intermédios? Não é um problema nosso porque internamos via urgência 11 mil doente por ano e, ao todo, temos 35 mil internamentos. Portanto, andamos pelos 30 e tal tal por cento e não pela média dos 60% de internamentos via urgência, conforme referido no relatório da IASIST. Fiz um estudo retrospetivo de 10 em 10 anos, a partir de 1974, e nós temos esta margem há 50 anos. O que se passa a nível geral tem uma justificação: quanto mais ineficaz for a medicina geral e familiar, mais os doentes vêm à urgência. E também há uma série de vícios que passa pelo facto de as instituições não internarem diretamente. Por exemplo, um doente que vem para transplante no Santo António entra no serviço de transplante por essa via e não pela urgência, como noutras instituições. É uma questão de organização.