Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

De Varsóvia a Hiroxima. A história da II Guerra Mundial no Expresso

  • 333

A bandeira com a foice e o martelo flutua sobre Berlim: os nazis perderam a guerra

Hulton-Deutsch Collection/CORBIS

Uma reflexão necessária, 70 anos após o fim da guerra. O Expresso oferece a partir deste sábado, em oito volumes, a obra de referência do historiador britânico Martin Gilbert.

Há 70 anos, com a entrada das forças soviéticas em Berlim terminava a guerra na Europa. No Pacífico duraria até agosto, até entrar em cena aquilo a que o imperador Hirohito chamou "uma nova arma, especialmente cruel", ou seja, a bomba atómica, lançada pela aviação norte-americana, primeiro sobre Hiroxima e depois sobre Nagasáqui.

Em 1918, com o fim da I Guerra Mundial, o mundo moderno tinha começado a nascer. Morriam quatro impérios (alemão, austro-húngaro, turco e russo) e surgia o primeiro estado comunista (União Soviética). Da II Guerra Mundial sairá, em 1945, uma Europa completamente de rastos, dividida a meio pela Cortina de Ferro. As potências coloniais soçobrarão, com a ascensão à independência de dezenas de países em África e na Ásia. O mundo caminhará para a Guerra Fria, dividido entre dois blocos política e militarmente antagónicos, liderados pelos EUA e pela URSS. E a arma atómica fará pairar o espectro da destruição da vida na Terra.

Como se conta na obra de Martin Gilbert, em oito volumes, dedicada à II Guerra Mundial, que será distribuída juntamente com o Expresso a partir deste sábado, dia 28 de março, nada disto era previsível no começo dos anos 30, ainda que nuvens negras se acumulassem no horizonte: grande depressão e crise geral do capitalismo, com particular incidência nos Estados Unidos e na Alemanha, esta esmagada pelas imposições do Tratado de Versalhes, com cinco milhões de desempregados e uma inflação galopante: exatamente aquilo de que Hitler e as suas milícias precisavam para conquistar terreno. A ascensão das ditaduras era a regra, a começar pelo fascismo de Mussolini em Itália (1922), seguindo-se Hitler e o partido nazi na Alemanha (1933). Regimes ditatoriais imperavam também em Portugal e Espanha, na Grécia, Roménia, Finlândia, etc.

Ascensão totalitária Até ao deflagrar da II Guerra Mundial, a dúvida foi sempre se a paz teria alguma possibilidade de sucesso ou se o começo das hostilidades era apenas uma questão de tempo. As potências que viriam a constituir o eixo nipo-nazi-fascista iniciaram, cada uma por si, uma escalada bélica, perante a impotência da instância internacional de mediação criada pelo Tratado de Versalhes: a Sociedade das Nações.

A Itália mussoliniana lançou-se à conquista de um serôdio império colonial, ocupando primeiro a Líbia (1922/30) e depois a Abissínia (atual Etiópia, 1935). Em ambos os casos a resistência dos invadidos foi maior do que o esperado, evidenciando os limites da máquina de guerra fascista e antecipando o colapso que se haveria de verificar no Norte de África quando confrontada com exércitos modernos, a começar pelo britânico.

O Japão construiu a mais moderna frota de guerra do mundo (incluindo porta-aviões que haveriam de ser decisivos no ataque-surpresa a Pearl Harbour, a 7 dezembro de 1941) e equipou-se com uma força aérea superior a tudo quanto existia no Pacífico. Lançou-se numa política de expansão à custa da China e da Coreia que não tardaria a redundar numa sangrenta, embora não declarada, guerra com os chineses. Esta passaria por episódios atrozes como o massacre de civis em Nanquim (dezembro 1937). O ódio ao invasor foi suficiente para aproximar os nacionalistas de Chiang Kai-shek e os comunistas de Mao Tsé Tung, até então envolvidos numa sangrenta guerra civil.

1º volume, a 28 de março. O começo da guerra desde o ataque à Polónia (setembro de 1939) até ao cerco do corpo expedicionário britânico em Dunquerque (maio de 1940), sem esquecer as operações na Finlândia e Noruega

1º volume, a 28 de março. O começo da guerra desde o ataque à Polónia (setembro de 1939) até ao cerco do corpo expedicionário britânico em Dunquerque (maio de 1940), sem esquecer as operações na Finlândia e Noruega

Premonitoriamente, a partir de fins de 1940, uma esquadrilha equipada com caças P-40 norte-americanos, os Tigres Voadores, agrupando "voluntários" e mercenários dos EUA combaterá nos céus da China a aviação nipónica, compensando a inferioridade tecnológica com táticas eficazes de voo. Comandava-os o coronel Claire Chenault, aviador americano na reserva.

A Alemanha nazi empenhou-se, também, na reconstrução da sua máquina militar. Novos e dinâmicos generais, como Guderian ou Rommel, assimilaram os ensinamentos da derrota alemã na I Guerra Mundial e criaram um novo conceito tático, a guerra-relâmpago (blitzkrieg), associando de forma nunca vista o tanque, a infantaria motorizada e a aviação. No verão de 1940, a França e o corpo expedicionário britânico, ainda a pensar com uma guerra de atraso, serão cilindrados em meia dúzia de semanas.

O que é extraordinário é que, ao contrário de Mussolini e de Tojo, Hitler e seus sequazes não precisarão, praticamente, de disparar um tiro para alargar as suas fronteiras: uma combinação de propaganda, chantagem, guerra subversiva e diplomacia musculada valer-lhes-ão a anexação da Áustria e da Checoslováquia, além da recuperação de território do antigo império germânico, perdido ou desmilitarizado com o Tratado de Versalhes, caso das zonas industriais do Ruhr e do Sarre.

Hitler, Mussolini e Franco O último teste à capacidade de manter a Europa em paz será a Guerra Civil Espanhola (1936/39). Depressa o pronunciamento militar de Franco e outros generais da extrema-direita contra o governo da Frente Popular saído de eleições degenerará numa guerra civil com envolvimento internacional. Rússia e México apoiarão a República, tal como voluntários esquerdistas e republicanos que formarão as Brigadas Internacionais. Alemanha e Itália farão causa comum com os golpistas. Os acordos de não-exportação de armamento apenas serão cumpridos pelas democracias ocidentais. Berlim e Roma fornecerão homens e material moderno, Salazar fará de Portugal a retaguarda logística de Franco e a aviação alemã testará em Guernica as novas táticas de bombardeamento de alvos civis, depois aplicadas em larga escala sobre Varsóvia, Roterdão ou Londres.

Poderiam os acontecimentos ter seguido outro rumo? A guerra, pelo menos, com os contornos que assumiu, era inevitável? Uma coisa é certa: há uma sucessão de momentos-chaves em que tudo poderia ter mudado.

Em 1938, o exército checoslovaco era suficientemente forte para desafiar uma máquina de guerra hitleriana ainda em crescimento, mas Praga não encontrou apoio sólido em nenhuma democracia ocidental. Pelo contrário, a Checoslováquia será sacrificada nos acordos germano-franco-britânicos de Munique, para tentar aplacar os apetites expansionistas de Hitler. Não só isso não acontecerá, como o Führer se sentirá à vontade para começar a pensar em atacar a vítima seguinte: a Polónia. Ironicamente, alguns dos tanques das divisões Panzer que virão a esmagar as defesas francesas durante a blitzkrieg de 1940 serão de fabrico checo.

Em 1936/39, algum apoio político e militar franco-britânico à República espanhola teria reforçado o papel dos moderados na frente popular em detrimento dos comunistas e dado um forte sinal aos nazi-fascistas de que a paciência das democracias ocidentais tinha limites. Foi exatamente o contrário que aconteceu e o mundo não tardaria a entrar em guerra.

Por último, mas não menos importante, em 1939 Hitler nunca se teria sentido capaz de atacar a Polónia se Estaline não tivesse assinado com ele um pacto de não-agressão com cláusulas secretas prevendo a partilha do país a invadir futuramente.