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De Testemunha de Jeová ao "Malatismo"

Foi aos 5 anos que José Carlos Malato começou a estudar a Bíblia. Com a mãe e a irmão tornou-se Testemunha de Jeová. Com a adolescência e o despertar da sexualidade o corpo pedia uma coisa e a mente outra. Saiu.

Cândida Santos Silva (www.expresso.pt)

Foi aos 5 anos que José Carlos Malato começou a estudar a Bíblia. "A minha mãe era uma católica fervorosa. Quando se tornou Testemunha de Jeová, eu e a minha irmã fomos por 'osmose'." Estávamos nos anos 70, e a religião - então apelidada de 'seita' - era proibida pelo Estado. Malato e a família, com excepção do pai, ateu e comunista, reuniam-se na clandestinidade: "Em casas particulares, garagens e também ao ar livre." O apresentador do "Jogo Duplo" foi, durante o tempo que pertenceu à organização, um membro activo. Ou seja, fez o máximo. "O máximo de cada um é diferente e diferenciado, mas, digamos, há uma espécie de rendimento mínimo." Malato excedia-se. Cumpria com rigor todas as obrigações e saía para o campo, pelo menos uma vez por semana, para fazer discípulos. "Fi-lo com muito gosto e, modéstia à parte, com muito sucesso." Ainda hoje reconhece que coloca em prática, na sua profissão e na maneira como lida com os outros, as técnicas de comunicação que aprendeu como Testemunha de Jeová. Os valores cristãos, que o estruturaram como pessoa, mantiveram-se até agora.

As questões mais particulares deixaram de fazer sentido quando abandonou a Igreja. A sua saída teve a ver com aquilo a que chama o "peso do corpo", com a incapacidade de lidar "com as pulsões sexuais, que deveriam ser reprimidas até ao momento do casamento". Até então procurava uma explicação, um suporte bíblico para tais proibições. E sempre a encontrou. "A partir dos 17, 18 anos, o corpo pedia uma coisa e a mente outra. Era desesperante." Houve uma grande cisão interna, que não foi capaz de resolver. "As hormonas falaram mais alto. Queria viver, experimentar, voar, ainda que isso significasse a morte." Antes de "começar a pecar", optou por se afastar. "Para não lançar vitupério sobre a organização. Não podia pregar uma coisa e fazer o seu contrário. Sabia que não era suficientemente bom para estar ali." Saiu. "Foi uma espécie de suicídio espiritual. Saí crente, com tudo o que isso significa."

Actualmente, vive uma religião inventada por si. "É uma espécie de mosaico que reúne pedaços de religiosidades de várias correntes." Põe de lado o que não interessa e aproveita o resto. "Tenho uma religião que me serve como um fato. É elegante e não me aperta." Chama-lhe, a brincar, "malatismo". "Uma religião criada por mim e que tem um só seguidor, que sou eu próprio." Quer acreditar que tem alma e que ela continuará por tempos imemoriais. "Espero um dia mudar de plano sem dar por isso, como se diz daquelas pessoas que morreram durante o sono: 'Quando acordou, estava morto.' E espero também que esta seja a minha última reencarnação. Encarnar é uma seca. Estou farto!"