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De fiel católico a número dois da Igreja Ortodoxa

Fiel da igreja católica, desencantou-se na juventude. A aproximação à igreja ortodoxa levou à conversão. E de simples fiel tornou-se número dois da igreja ortodoxa em Portugal

Cândida Santos Silva (www.expresso.pt)

Teodoro. Simplesmente, Theodoro. É assim que é conhecido. Ou então, acrescentando-lhe os formalismos e as regras de uma Igreja em crescimento no nosso país, arcebispo Theodoro. O número dois da hierarquia da Igreja ortodoxa em Portugal. Com as suas vestes púrpuras, recebe-nos com singeleza e simpatia à entrada do mosteiro, no Ribatejo. O ambiente bucólico é completado por umas quantas, poucas, construções em madeira. Ao centro, o templo, totalmente edificado com troncos de pinho finlandês. A cúpula e a torre cimeira rematam o edifício. É lá dentro que o arcebispo Theodoro nos conta a sua história. O cenário poderia situar-se em qualquer ambiente rural de um país de Leste. Mas aqui fala-se em português, sem sotaque. Theodoro tem mais de 50 anos, não nos precisa ao certo a sua idade. Nasceu e foi educado no seio de uma família católica apostólica romana. Até à adolescência. Por essa altura, começou a sentir que muitas das suas dúvidas não encontravam explicação nas respostas curtas e formais que os padres lhe davam. Lentamente, afastou-se dos rituais litúrgicos. E da Igreja. Mas a aproximação viria rápida e definitiva. "Como uma tempestade."

Um dia, foi ao Santuário da Ladeira do Pinheiro, perto de Torres Novas, onde conversou com o então metropolita, Gabriel, que o marcaria para sempre. Foi ganhando uma perspectiva de vida diferente. "Comecei por frequentar a Igreja até ser recebido como cristão ortodoxo." Converteu-se. Houve um ritual de passagem. "O modo de recepção é através do Crisma, porque se entende que é uma unção através da qual se recebe o Espírito Santo." Na sua vida, muita coisa mudou. "Foram preenchidas algumas lacunas e encontrei uma certa harmonia." A abordagem, a maneira de viver, de entender a Sagrada Escritura também mudou. Bem como o seu relacionamento com Deus, o compromisso com a Igreja. "Aqui, ou se está ou não se está. Não se está de vez em quando." Não é possível dizer: "Sou ortodoxo, mas não praticante." O compromisso é para ser levado a sério. "Não para ser pontuado por este ou aquele acto, por esta ou aquela cerimónia. Há uma continuidade entre a ida à Igreja e a entrega à comunidade, bem como no espaço doméstico." Idealmente, deverá haver uma oração de manhã e outra à noite e, se possível, com a família toda reunida.

A decisão de se entregar por completo ao serviço da Igreja veio mais tarde. Tinha 23 anos quando trocou uma vida profissional ligada à saúde pela vida num mosteiro. A vida monacal pareceu-lhe o caminho certo. "Sinto que esta é a minha vocação. Havia muitas evidências, questionei-me, mas não hesitei muito. A partir de certa altura, não tive dúvidas de que este era o caminho." Quase 30 anos depois de se ter dedicado por inteiro à Igreja, chegou a número dois na sua hierarquia. É um homem feliz. Ali encontrou uma beleza extraordinária. Que vai muito para além dos ícones.