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Dar vida ao que já não a tem

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João Fernandes pega nas peles dos animais e devolve-lhes a forma original. Não é embalsamador, é taxidermista. Um dos poucos que existem em Portugal.

Joana Madeira Pereira (texto) Tiago Miranda (fotos e vídeo)

Matou a primeira perdiz aos 12 anos. Não se esquece. Tinha saído para a caça com a mãe. Pararam para ela descansar e ele, que tem agora 51 anos, avistou a ave. "Peguei na espingarda da minha mãe, apontei e matei-a", conta, à distância de tantos anos, João Fernandes, um dos pouco taxidermistas que existem em Portugal.

Pouco depois, aos 13 anos, "montou" o primeiro troféu de caça, um pássaro. Utilizou o método simples, a injeção com formol. Mais tarde, foi apurando o trabalho e passou a utilizar outro procedimento: desmanchava a caça, tirava-lhe as vísceras e a carne, limpava a pele e enchia-a com esponja a servir de entranhas. "É como se fossem esculturas", diz. E tanto trabalho para quê? "Não há momento na caça como aquele em que se atira, a adrenalina sobe e o animal cai no chão. Uma pessoa mata uma lebre e, depois, quer ficar com essa recordação. Daí, criei o meu método e comecei a fazer animais cada vez maiores", explica.

Entrar no ateliê da Lusotroféus, empresa de que João Fernandes é sócio, em Sintra, é como chegar às planícies do Alentejo. Ou à savana africana. O pescoço gigantesco de uma girafa parece rasgar uma das paredes, recheadas de troféus de caça, como um búfalo africano, um órix ou vários gamos. Há uma zebra de corpo inteiro, um leopardo, uma chita, palancas (negras e vermelhas), linces, gazelas, veados. Não esquecendo os javalis, os gamos e as raposas. E patos, muitos patos - ou não fosse João Fernandes especialista em troféus de aves.

A um canto, uma águia-real, espécie ameaçada e em vias de extinção, estica as asas e abre o bico, ameaçadora. É por isso que logo, como introdução à conversa, o anfitrião avisa: "Todos os animais que aqui chegam têm uma licença. Ninguém matou esta águia. Ninguém pode atirar em águias-reais. Pertencia ao Jardim Zoológico Santo Inácio, em Vila Nova de Gaia, e teve morte natural. Pediram-me para montar o animal para ficar em exposição no museu do parque", explica, repetindo várias vezes a história. É o discurso (e a preocupação) de quem, pelas razões óbvias, muitas vezes se diz um "profissional incompreendido".

Numa feira de caça, no Baixo Alentejo, a GNR já lhe quis apreender o troféu de um lobo, que acreditavam ser ibérico e, portanto, proibido de caçar. "São situações difíceis. Porque aquelas pessoas dizem que aquele lobo é ibérico, mas não é. E tornam-nos a vida muito difícil. Parece que nós, os que fazemos troféus, somos os assassinos e caçadores ilegais", atira.

Taxidermia, a "arte" da preservação da pele João Fernandes monta troféus de caça. Também faz troféus só com os ossos dos animais, mas gosta mesmo é de pegar nas peles dos animais e, depois de curtidas, "devolver-lhes a vida". É taxidermista, dedica os seus dias à técnica - ele chama-lhe "arte" - de reproduzir animais para exibição ou estudo através da preservação da sua pele. Dos poucos que existem em Portugal. "Temos de criar toda a anatomia, os músculos do animal, o corpo, os movimentos naturais, para que a pele assente na perfeição em cima de uma coisa que parece ser carne e osso, mas não é. É só pele", explica.

FOTOGALERIA

Ao contrário do embalsamamento, em que se retiram as vísceras dos animais mas mantém-se a carne e o osso, a taxidermia só trabalha a pele: pelo, penas, escamas, o que for. Foi tomado por este gosto quando uma tia, médica, lhe ofereceu um livro sobre o tema. "Vinha com fórmulas muito antigas, básicas. Mas foi por aí que comecei. Fui estudando, desenvolvendo um método próprio. Nessa altura, ainda não se falava de taxidermia, apenas de embalsamamento, que não passa da mumificação dos animais. Fiz ainda os primeiros assim, injetando os animais com produtos secantes. Há ainda quem o faça, mas já caiu em desuso. Se bem que, agora com crise, tenha novamente aumentado a procura: duas injeções de formol bastam para fazer um troféu de perdiz por meros €20 ou €30. Com o processo da taxidermia, o trabalho pode chegar aos €250, mas não se compara em durabilidade e aspeto. Porque num animal embalsamado, a carne está seca, mas está lá. Terá sempre microrganismos e bichos da traça, que se alimentam de carne seca. Com o tempo, a carne vai mirrar, até morrer. O troféu ficará oco e não durará muito tempo", descreve, na linguagem de quem sempre.

Profissão rara e controversa Em Portugal, não há muita gente que tenha a profissão de João Fernandes. "Não somos mais de dez, certamente. É uma profissão raríssima. Agora, se for para Espanha são mais de 400. Quer dizer, aqueles que são legais, que têm certificação. Fora os outros 400 que não a têm, que trabalham nas suas garagens. Há até cursos de taxidermia para desempregados. É um mundo, o do outro lado da fronteira."

Por cá, trabalha muitas vezes solitário, no seu ateliê. Entramos, explicamos ao que vimos. Numa outra reportagem, deparámo-nos com uma sala cheia de troféus de caça grossa: as veias e os olhos pareceram-nos tão reais que não conseguimos esconder a estupefação. Não somos fãs nem praticantes de caça, dificilmente teríamos troféus expostos nas paredes da nossa casa, mas ainda assim decidimos saber mais sobre este universo. Procurámos por quem fizesse da taxidermia a sua profissão, mas dos três nomes que nos deram, ninguém quis falar connosco. Há quem diga que não quer aparecer porque já tem trabalho suficiente e "não precisa de publicidade". E há aqueles que fogem da controvérsia da profissão que eles próprios escolheram.

Até que chegámos a João Fernandes. Que nos abre a porta. À cautela, mas com a certeza que se quer dar a conhecer, mesmo que possa vir a ser figura mal-afamada para quem ler este artigo e discorde do que faz. O negócio está a crescer e a visibilidade até lhe vem a calhar.

Recentemente abriu um novo espaço em Évora, o coração do Alentejo e das caçadas, em sociedade com um outro taxidermista. Fábio Ferreira tem 32 anos, faz troféus há nove. Tinha uma espingardaria, mas viu-se obrigado a fechar a loja. Foi para Espanha fazer um curso de taxidermia durante seis meses e, depois, veio ter com o João, "que é um tipo que sabe muito desta arte".

Troféus podem custar acima de 4 mil euros O mentor desta casa já passou por várias atividades. Também já teve uma espingardaria, esteve "ligado" a um posto de caça e chegou a ser acionista de uma empresa de construção. Há oito anos lançou a empresa, faz hoje cerca de 700 troféus por ano, muito por conta da aposta que tem feito em Espanha, onde o negócio da caça e da taxidermia é gigantesco.

Não se queixa, a vida corre-lhe bem. Se bem que haja motivos para um ligeiro desânimo: "A construção civil é que fazia mexer isto tudo. Há muitos empresários ligados ao sector que sempre caçaram. Com a crise, a procura ressentiu-se", afirma.

"Um tordo, por exemplo, é trabalho que pode chegar aos €150. Se estivermos a falar num animal maior, inteiro, como um javali, o custo pode ir até aos €1500. Mas se estivermos a falar só da cabeça, fica-se pelos €500. Se bem me recordo, o trabalho mais caro que fiz até hoje terá sido um alce inteiro, para um caçador. Ficou à volta de €4500, era um animal muito grande", contabiliza.

Na manhã da primeira visita, que fazemos ao ateliê da Lusotroféus alguém toca à porta. É Inês Cottinelli (neta do arquiteto Cottinelli Telmo, mentor da grande Exposição Mundo Português e autor de "A Canção de Lisboa", e filha do célebre designer Daciano da Costa), também ela arquiteta e responsável pela galeria que tem o nome do pai. Experiente nestas lides, faz frequentemente safaris a cavalo em diferentes países africanos. Fez a primeira caçada grossa na Zâmbia, em 1999, onde matou uma zebra, que tem hoje em casa. Vem à procura de quem lhe faça novos troféus. Indicaram-lhe a Lusotroféus e vem pedir orçamento. "São a memória de um segundo da nossa vida, de uma adrenalina brutal, inesquecível. Funcionam como uma fotografia: estão ali e sempre que olhamos para eles lembramo-nos daquele segundo". Sai satisfeita: gostou da qualidade e do preço.

"A taxidermia em Portugal ainda não é conhecida nem está conotada com qualidade. Na última feira de caça em Madrid, estivemos presentes e fizemos negócio com imensos portugueses. Vão a Espanha para acabarem a trabalhar connosco, que falamos a mesma língua. Parece que lá é que é bom, mas afinal...", ironiza João Fernandes.

Como se "monta" um troféu de caça Neste negócio, como em muitos outros, o segredo é a alma do negócio. "Há quem queira cá vir para o atelier, ver como isto se faz com qualidade, para depois ir montar o seu negócio. A esses, não abro a porta. Há coisas que não posso contar", explica. Mesmo assim descortina o processo de "montagem", como diz, de um pato-real para o Expresso Diário. 

O trabalho divide-se em duas fases. "A primeira é a taxidermia propriamente dita, quando montamos a pele em cima do manequim. Pode demorar apenas umas horas no caso dos animais mais pequenos, um dia se for um javali", diz João Fernandes. A pele dos mamíferos é normalmente esfolada no local da caça e, quando chega a João Fernandes já vem curtida de Espanha. "Só trabalho com quem confio e os espanhóis são muito bons nisso. Este é um mundo sem fim. Estamos sempre a deparar-nos com situações novas, à procura de um material que seja maior do que aqueloutro. Só para dar um exemplo: agora, estamos a gastar olhos de vidro de um senhor que vive em Malta e que não faz mais nada na vida a não ser fabricar esses berlindes. E faz com tal perfeição que as pessoas ficam a olhar para os olhos dos nossos animais e perguntam-se se não serão reais", conta.

No caso dos animais de pequeno porte, como as aves, a tarefa de esfolamento acontece em plena oficina, depois das carcaças saírem das grandes arcas congeladoras que ali existem. Em poucos minutos, 'descasca' um pato-real. Depois, é preciso desengordurar a pele e as penas e o processo não podia ser mais simples: lavar sucessivamente com detergente de loiça e escovar a pele - mas só até as raízes das penas aparecerem. A seguir, é mergulhada num líquido que João Fernandes prefere não nomear - mas sempre avança que, nos Estados Unidos, se utiliza gasolina de avião para limpar a pele - e aí ficará durante vários minutos. Depois, o procedimento que empresta um lado de caricatura ao cenário: é preciso utilizar um prosaico secador de cabelo para secar o couro e as penas.

Seguem-se as "tarefas mais artísticas". Com poliuterano, pedaço de esponja bege, e munido de uma simples faca, o taxidermista esculpe a forma do interior do animal, quer servirá de entranhas ao troféu. Com arames, fixa as patas, a cabeça e outras partes do pato, enfia o enchimento e cose a pele. Colocam-se, nesta fase, os olhos. Usa-se cola para fixar as penas e espetam-se agulhas no rosto da ave para fixar determinadas expressões. Duas horas depois, a primeira fase do trabalho está terminada.

Será preciso esperar seis dias, no caso das aves (mais se for mamífero), para retomar a montagem. É a fase da maquilhagem: pinta-se o bico, as patas e constrói-se o habitat natural do animal, com pedras, terra, vegetação.

Fernandes é conhecido sobretudo pelo trabalho que faz com aves, "muito minucioso, de grande precisão", mas dá-lhe mais gozo "fazer" leopardos, "os felinos no geral": "Têm um carisma grande, são muito elegantes. E são bichos que têm muita subtileza de movimentos, é um desafio montá-los", refere.

Já esteve várias vezes em África, como caçador mas também a acompanhar clientes: ensina-lhes onde atirar, para danificar o couro o menos possível. Cada viagem é, para ele, também uma aula de anatomia. "É preciso ver os animais. Conhecer-lhes a anatomia e as expressões. Porque olhar para uma fotografia ou para um animal verdadeiro não é a mesma coisa", continua. E remata: "É por isso que os meus animais parecem estar vivos."