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Dar (literalmente) mais vida a São Tomé e Príncipe

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IMEDIATO: Luis Pereira vê os exames aos olhos em tempo real

António Pedro Ferreira

Programa do Instituto Marquês de Valle Flôr, que contribuiu para o aumento da esperança média de vida no país africano de 47 para 70 anos, celebra 25 anos com o lançamento hoje de um livro na Fundação Calouste Gulbenkian.

Um quarto de século permitiu mudar a realidade dos cuidados médicos num dos países mais carenciados da África subsariana. 25 anos é o tempo que já leva o Saúde para Todos, programa do Instituto Marquês de Valle Flôr - financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e pelo Camões, Instituto da cooperação e da língua - aplicado em São Tomé e Príncipe, que hoje (às 18h30m) vê o seu trabalho comemorado com o lançamento de um livro na FCG.

A cerimónia vai contar, entre outros, com a presença de Fernando Leal da Costa, Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde, em reconhecimento do trabalho feito pela ONG dedicada ao espaço da CPLP.

Ao longo deste período, mais de 150 profissionais de saúde envolveram-se em 350 missões médicas para o país, num trabalho que permitiu mudar de alguns dos piores indicadores continentais para o campo dos melhores. Veja-se o caso da esperança média de vida, que passou de 47 para 70 anos.

Telemedicina: uma janela portuguesa para tratar olhos

Uma das grandes vertentes deste programa é a oftalmologia, dada a inexistência de médicos da especialidade em São Tomé e Príncipe. Por isso, em 2009, arrancou o projeto iSEE que leva três a quatro missões por ano e que agora vai ganhar nova dimensão com o Teleye, ferramenta inovadora que permite uma avaliação oftalmológica completa à distância em tempo real.

Instalado em São Tomé e Príncipe pelo Instituto Marquês de Valle Flôr, o aparelho tem seis equipamentos fundamentais: lâmpada de fenda, retinógrafo, auto-refractómetro/keratómetro, tonómetro e câmara de alta definição. Cabe à técnica Elena Trigueiros e à médica Grimalde Trindade, no Hospital Dr. Ayres de Menezes, colocarem o doente no instrumento adequado, enquanto o oftalmologista Luis Pereira está em Portugal, no computador, a dar indicações. "É algo único no mundo", diz-nos.

As imagens dos diferentes exames aparecem diretamente no ecrã com uma qualidade que dá todas as condições a Luis Pereira para fazer o diagnóstico. O programa funciona em conjunto com a plataforma Medigraf, que permite armazenar de forma eficaz o historial clínico dos doentes e deixar indicações para emitir receitas. Para aceder ao dispositivo, basta ter um computador com internet.

A tecnologia portuguesa foi desenvolvida em parceria com a PT Inovação e instalada com o apoio da Cooperação Portuguesa, da Direção-Geral da Saúde e da Fundação Calouste Gulbenkian e os responsáveis não têm dúvida que estamos perante o futuro da medicina à distância: "Isto vai além da habitual telemedicina", explica Luis Pereira. "Em vez de haver só uma ligação vídeo para aconselhar quem está do outro lado, é possível juntarmos uma série de elementos fundamentais numa só ferramenta com grande facilidade de interacção. Abre muitas possibilidades", acredita.

Da árvore às folhas

Desde fevereiro deste ano que o Teleye se encontra a funcionar ao ritmo de "três ou quatro" consultas semanais e o objetivo é aumentar este número. Para tal são necessárias acções de formação para ajudar na triagem da população e identificar os casos que mais se qualificam para o programa. Situação em que Luis Pereira já é um veterano e para a qual se prepara para embarcar pela 17.ª vez para São Tomé e Príncipe onde, durante duas semanas, também vai acompanhar casos mais complicados.

O Teleye é um marco "que não está a passar despercebido a nível mundial", diz Ahmed Zaky, director de projectos da instituição. Cabo Verde é um dos países que manifestou interesse em ter o sistema e acredita-se que, além dos esforços filantrópicos, há interesse comercial num instrumento inovador e único. Chegar a áreas mais remotas, mesmo em Portugal, pode ser o futuro. Luís Pereira não tem dúvidas quanto ao impacto que esta 'janela portuguesa' vai ter: "O Teleye pode fazer a diferença entre não ver uma árvore e distinguir as folhas."

De 1988 até agora são 25 anos em que o Instituto Marquês de Valle Flôr ajudou a dar realmente mais vida a São Tomé e Príncipe. Capítulos de um livro que estão a ter impacto na "Saúde de Todos".   

2 mil

dias de missões

22

especialidades médicas

3 mil

cirurgias

20 mil

consultas

10 mil

exames complementares de diagnóstico 

300

sessões de formação

80%

redução prevista no custo geral das missões com o Teleye

650

consultas realizadas em cada missão iSEE

20 mil

exames e arquivos clínicos inseridos na plataforma Medigraf