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Criou o jogo mais popular de sempre. Agora só quer viver à grande

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Minecraft é o jogo para PC mais popular de sempre

Como Markus "Notch" Persson desenvolveu Minecraft, ficou milionário e chegou à capa da revista "Forbes".

Já ouviu falar do Minecraft? Se a sua reação foi "Mine quê?" eis um guia de compreensão rápida: é um jogo onde os utilizadores usam blocos que se assemelham a legos para construir o que quer que queiram, de casas a réplicas do Empire State Building e de cidades da Guerra dos Tronos; é o jogo de computador mais vendido de sempre (18 milhões de cópias só para PC, mais de 64 milhões em todas as plataformas); foi a segunda palavra mais pesquisada no Youtube em 2014, depois de "música"; e, desde a sua criação, em 2009, já gerou mais de 700 milhões de dólares (cerca de 660 milhões de euros) em receitas. Markus Persson, o seu criador, chega esta segunda-feira à capa que a prestigiada revista "Forbes" dedicada aos mais ricos do planeta.   

O feito surge depois de, em novembro, Persson ter decidido vender o jogo à Microsoft por 2,5 mil milhões de dólares (cerca de 2,35 mil milhões de euros). Como o sueco, de 35 anos, tinha 71% da empresa detentora do jogo, a Mojang, teve entrada direta na lista dos multimilionários da "Forbes". Depois do acordo ter sido finalizado, Persson e os outros dois cofundadores da Mojang, Jakob Porsér e Carl Manneh, e o irmão gémeo deste, voaram num jato privado para Miami e St. Barts para celebrar o negócio. Chamaram-lhe a "viagem dos vendidos", por alusão às críticas de funcionários da empresa e fãs do jogo que nunca esperaram que o jogo fosse vendido. Ao explicar a decisão, o sueco citou Leonardo Da Vinci: "A arte nunca está acabada, apenas abandonada".  

Desde esse momento, Persson parece apostado em gozar bem os milhões depositados na sua conta bancária. Para começar, comprou uma casa de quase 70 milhões de euros em Beverly Hills, a mais cara de sempre naquela zona exclusiva de Los Angeles. A propriedade tem 23 mil metros quadrados, 8 quartos, 15 casas de banho e uma garagem para 16 carros, com elevadores para os veículos, mas são os detalhes que mais surpreendem: há uma enorme parede com dispensadores de doces (carregados com uns 200 mil euros em guloseimas), um sofá desenhado pela Bentley avaliado em meio milhão de euros, uma réplica da mota de James Dean, incontáveis peças de arte, uma das maiores salas de cinema privadas de LA, com a porta revestida a pele de lagarto italiano, e, imagine-se, até uma escova de dentes em ouro.   

Apesar de ter criado uma nova empresa com o cofundador da Mojang, Jakob Porsér, num escritório vazio onde passa os dias a contar piadas, Persson parece pouco empenhado em criar algum outro jogo de sucesso. Ao invés, tem ficado conhecido por gastar quase 170 mil euros por noite nos clubes noturnos de Las Vegas.  

No início, foram os legos 

Longe vai a infância humilde na pequena cidade de Edsbyn, entre Estocolmo e o Círculo Polar Ártico. Enquanto as outras crianças jogavam futebol e bandy (uma variante de hóquei no gelo com uma bola), Persson preferia os legos. Até ao dia em que o pai, um trabalhador dos caminhos de ferro, lhe ofereceu um computador Commodore 128. Tinha 7 anos. Com 8, criou o primeiro programa e o computador tornou-se uma companhia inseparável. Vezes sem conta, inventou dores de cabeça para faltar à escola e passar horas com os dedos no teclado. Não terminou o liceu, mas, em boa hora, a mãe aconselhou-o a fazer um curso de programação online.  

Em 2004, com 24 anos, conseguiu emprego na Midasplayer, mais tarde conhecida como King.com, criadora do Candy Crush. Foi aí que se tornou amigo de Jakob Porsér. Em 2009, já a trabalhar no Jalbum, um serviço de partilha de fotografias online, começou a programar o seu próprio jogo nas horas vagas. Chamou-lhe Minecraft e postou-o, ainda incompleto, num portal de jogos independentes. Em apenas um ano, o jogo vendia já 400 unidades por dia, a 6 dólares cada. Persson e Porsér despediram-se dos seus empregos e criaram a Mojang, "gadget" em sueco. Para gerir o negócio, contrataram o antigo chefe de Persson, o CEO da Jalbum, Carl Manneh.  

No mundo virtual, Persson adotou o nickname "Notch" e ultrapassou o lado introvertido da vida real, participando em fóruns, blogues e no Twitter, respondendo a todas as perguntas e dúvidas dos fãs. O jogo tornou-se num sucesso instantâneo, sem necessidade de gastar um euro sequer em marketing. Em maio de 2012, quando foi lançada uma versão para a Xbox 360, vendeu mais de um milhão de cópias numa semana. Com cerca de 30 funcionários, a empresa faturou nesse ano 230 milhões de dólares (213 milhões de euros), mais de 150 milhões (cerca de 140 milhões de euros) em lucros. Persson não demorou a comprar o apartamento mais caro de Estocolmo.  

Depois, casou-se e deixou a posição de responsável pelo desenvolvimento do Minecraft para explorar novas ideias de jogos. A bonança foi curta. O pai, viciado em drogas e deprimido, suicidou-se pouco depois. E, devastado pela morte do progenitor, Persson divorciou-se ao fim de um ano de casamento. Por esta altura, o sueco começou também a desiludir-se com alguns comentários maldosos que recebia "online", do género "Notch é um falhado gordo".  

A 16 de junho do ano passado, a partir do seu luxuoso apartamento, Persson twittou 129 caracteres. "Alguém quer comprar a minha parte da Mojang para eu seguir com a minha vida? Ser odiado por tentar fazer o que está certo não é a minha cena", escreveu. Trinta segundos depois de ler o tweet, o CEO da Mojang, Carl Manneh, recebeu um telefonema. Um executivo da Microsoft queria saber se o sueco falava a sério. Na semana seguinte, os pretendentes multiplicaram-se, incluindo a Electronic Arts, mas, no final, foi mesmo a Microsoft que acabou por convencer Persson - que antes afirmara que não venderia a empresa - com um cheque de 2,5 mil milhões.  

Curtir a vida, sem remorsos 

Quando não está na sua mansão em Beverly Hills ou a torrar dinheiro num casino de Las Vegas, "Notch" passa os dias a ler os insultos dos amigos próximos, que criaram um grupo no Whatsapp a que chamaram "Farts" (Peidos), ou a bloquear seguidores no Twitter. Ocasionalmente, responde a alguns com uma cena do filme "Zoobieland", onde Woody Harrelson limpa as lágrimas com um maço de dinheiro.   

E não tem remorsos quanto às contas de 170 mil euros em clubes noturnos. "Estou um pouco a compensar o tempo perdido porque passei os meus 20s a programar", explicou à "Forbes". "Andar em festas não é uma forma saudável de gastar dinheiro, mas é divertido. Quando eramos jovens não tínhamos muito dinheiro, por isso pensei que se um dia fosse rico não seria um desses ricos aborrecidos que não gastam dinheiro".