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Considerações e justificações dos que bebem antes da maioridade

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Cedo demais. A cultura do álcool em Santos continua a fazer-se mais tarde. Antes disso, estivemos no Arco do Cego, também em Lisboa

O Governo aprovou a lei que proíbe os menores de 18 anos de consumirem qualquer tipo de álcool. O Expresso esteve em dois dos principais locais escolhidos pelos jovens em Lisboa para o consumo de bebidas alcoólicas. Retratos de uma noite na zona de Santos e de um fim de tarde no Arco do Cego, onde quase ninguém quer ouvir falar no assunto.

João Miguel Salvador (texto) e Nuno Botelho (fotos)

Cai a noite e Santos está praticamente vazia. Entre casais adultos que escolhem aquela zona para jantar e os seguranças e empregados de bar que esperam horas até que os jovens clientes apareçam, poucos são os que saem de casa tão cedo para os estabelecimentos de diversão noturna. É aqui que os mais novos se juntam. "A partir dos 13 anos, já se vê malta por aí, mas é mais a partir de sexta". É o dia errado, a quinta-feira é dia de noite universitária. Os alunos do ensino secundário, aqueles que preocupam a Organização Mundial de Saúde, estarão por casa. Hoje ainda há aulas.

Se a maior parte dos jovens apenas se preocupava com o caráter proibicionista da nova lei, Ricardo Madeira, um dos que junto dos seus amigos aproveitava a noite no Jardim de Santos, mostrou-se preocupado com os impactos económicos da nova legislação. "Os bares vivem disto, dos menores que vêm para cá divertir-se. Se o álcool for totalmente proibido antes dos 18, muitas destas casas terão dificuldades", afiança.

Do lado do governo, as perspetivas para o encaixe de impostos sobre as bebidas alcoólicas no corrente ano são altas. De acordo com a proposta de Orçamento do Estado para 2015, o imposto sobre as bebidas alcoólicas deverá render mais 23,2 milhões de euros aos cofres do Estado face a 2014. A título de exemplo, o imposto aplicado às bebidas espirituosas passou de 1.251,72 euros por hectolitro para 1.289,27 euros, mais 37,55 euros, valor que não se refletiu na carteira dos consumidores.

Brindemos com o que é nosso. Um grupo de jovens diverte-se na noite lisboeta e não dispensa a cerveja e o vinho

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Ricardo é o mais velho de um grupo de rapazes e raparigas que optam pelas bebidas não destiladas, a tão cultural cerveja e vinho que, segundo o estudante de enfermagem de 23 anos, "não reúnem as preferências dos mais novos, que preferem as espirituosas". As intoxicações alcoólicas preocupam-no e o facto de ter um irmão de apenas 16 anos é outro dos pontos que frisa durante a curta conversa com o Expresso. "Até aos 18, preferem apostar nos 'shots' [preparados de bebidas com alto teor de álcool servidas em pequenas porções, que devem ser bebidas de uma só vez]. É mais barato e o efeito é mais rápido", assegura.

Noite de excessos. Estudantes encontram em Lisboa um paraíso para horas bem regadas

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Aos 18 anos, Pierre não se preocupa que o seu país seja um dos que legislou a favor de uma recomendação da Organização Mundial de Saúde. A estudar em Lisboa ao abrigo do programa Erasmus, explica que a realidade francesa é até bem próxima da nacional. Lá, diz, "o álcool é totalmente proibido até que os jovens atinjam a maioridade, mas o consumo começa muito mais cedo, a partir dos 15". Quanto à fiscalização - que em Portugal é defendida pela ASAE -, diz-nos que também não é eficiente e que os responsáveis pelos estabelecimentos de diversão noturna do seu país não dão grande importância às idades, embora às vezes "peçam a identificação", que rapidamente é contornada quando é um outro colega mais velho a fazer o pedido.

Em Lisboa, a bebida é mais barata e os 'shots' fazem as delícias do grupo de franceses do qual faz parte. Vivem ao lado do bar, muito perto do local em que também falámos com Jorge, que nos explica que ali não há limites, nem monetários. "Ninguém vem sair à noite com menos de 20 euros e isso já dá para 20 a 25 shots, misturas de muito álcool."

Os últimos números avançados pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), divulgados a 10 de fevereiro, apontam que os menores de 18 anos continuam com o mesmo padrão de consumo de bebidas espirituosas, apesar da entrada em vigor da nova lei do álcool em abril de 2013, que restringiu o consumo de espirituosas aos maiores de idade - a cerveja e o vinho podiam ser consumidos por maiores de 16, algo que a lei aprovada esta semana já não permite. Tal como estabelece a própria legislação, o SICAD analisou a aplicação da nova lei e os impactos nos padrões de consumo por parte de jovens e adolescentes.

E o que se escreve, aplica-se? Inês Guedes tem 17 anos e frequenta o Liceu Camões, em Lisboa. Depois das aulas, opta por andar a pé durante 12 minutos, dirigindo-se para o Arco do Cego, onde decide passar o final de tarde com os amigos. O grande jardim convida à partilha de experiências e o fim da adolescência passa depressa. São poucos os menores que se aventuram por aquelas paragens, onde estudantes universitários se encontram, muito perto do Instituto Superior Técnico.

Sentados em rodinha, uns de pernas cruzadas, outros à chinês, vão falando sobre o dia, a amizade, o que se vai passando. Muitos não querem falar, não pretendem dar a cara. Mesmo entre os que já atingiram a maioridade, há quem explique que tem muitos amigos com 17 anos e não quer problemas.

Inês, sem papas na língua, diz que "a nova lei não vem mudar nada" e que os jovens "vão continuar a beber o que quiserem". No entanto, é a favor desta iniciativa legislativa. Para ela, "o álcool é todo igual e não faz sentido fazer uma distinção entre o vinho e a cerveja e as outras bebidas".

artigo publicado originalmente na edição de 17 de abril do Expresso Diário