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Como a Cerâmica Valadares pode inspirar a Europa

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Resgate da centenária fábrica por ex-funcionários mereceu as atenções da Associated Press. Projetos low-cost e recurso a desempregados de longa duração são apontados como solução para a Europa em crise.

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

A reabertura "cautelosa" da histórica Cerâmica Valadares em Vila Nova de Gaia é retratada pela Associated Press como um caso inspirador de retoma num país ainda em crise mas "que  começa a levantar-se pelos seus próprios pés".

A empresa declarada insolvente em 2012 e que chegou a empregar 1500 trabalhadores voltou a laborar depois de quatro ex-funcionários, com a ajuda da Câmara de Gaia, terem chegado a acordo com os credores para reativar a empresa.

De volta à fábrica estão para já 43 ex-operários, mas os novos gestores mantêm o compromisso de contratar até ao final do ano outros 80 trabalhadores dos cerca de 300 que ficaram sem emprego após a falência.

"O futuro da Valadares está à mercê da incerteza financeira que se vive nos países da zona euro, onde muitas empresas estão ainda demasiado preocupadas para investir e contratar", refere Barry Hatton da Associated Press, sublinhando porém que são exemplos destes "que devolvem alguma esperança a Portugal na criação de emprego".

Na reportagem, o operário de 41 anos Rui Leitão revelou estar preocupado com o que se passa na Europa, razão pela qual os trabalhadores da Valadares "dão o seu melhor para mostrar que é em conjunto que se trabalha para erguer a Europa".

Para a Associated Press, o projeto de recuperação da Valares assenta em duas apostas dos governos europeus: simplificar as regras de negócios e encorajar a confiança dos investidores privados. A reabertura da fábrica foi ainda facilitada pelo programa de incentivo à contratação de desempregados de longa duração.

Após a falência da empresa que acumulou 90 milhões de dívidas, Henrique Barros, o ex-funcionário e agora diretor geral da ARCH, a nova empresa gestora da Cerâmica Valadares, afirma que "a cultura de negócio mudou". Custos e créditos apertados e controlados é a nova política de gestão, que passa ainda pelo pagamento de salários mais baixos.

Ainda a escoar stocks, a empresa está a dar os primeiros passos na exportação de louça sanitária, apostando na inovação e na adaptação aos mercados para viabilizar a longo prazo a empresa.

Na passada semana, Henrique Barros adiantou ao Expresso que a meta de produção é de 250 mil peças sanitárias por ano, ou seja quatro vezes mais do que produzem de momento, e uma faturação de 7 a 10 milhões de euros anuais em 2018.

Na pequena vila de Valadares, os moradores voltaram a acertar os relógios pelas sirenes da fábrica que foi durante décadas o maior ganha-pão das famílias locais.

Manuel Martins, de 42 anos, operário na secção de moldes e morador na vizinhança, confessou que "foi uma alegria" quando voltou a ouvir a sirene.