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Cimeira do Clima com resultados positivos mas sem novas metas para cortar CO2

Estrelas do cinema como Leonardo DiCaprio e a actriz chinesa Li Bingbing discursaram também na Cimeira do Clima da ONU em Nova Iorque, dando mais projeção mediática à conferência climática de mais alto nível desde a Cimeira de Copenhaga de 2009.

MIKE SEGAR/Reuters

Organizações ambientalistas fazem um balanço positivo mas dizem que faltam compromissos concretos mais ambiciosos.

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A liderança da China e dos EUA - os dois maiores emissores de dióxido carbono (CO2) mundiais - e o apagamento da União Europeia - o terceiro maior emissor - foram visíveis na Cimeira do Clima da ONU convocada pelo seu secretário-geral, Ban Ki-moon, que terminou esta terça-feira ao final do dia na sede da organização, em Nova Iorque.

E apesar da falta de compromissos concretos mais ambiciosos, com metas e datas bem definidas, as organizações ambientalistas fazem um balanço positivo da cimeira, que juntou chefes de Estado e de governo e representantes de mais de 120 países de todo o mundo.

A cimeira, a de mais alto nível convocada pela ONU desde a Cimeira de Copenhaga de 2009, destinava-se a dar novos passos para um novo acordo climático vinculativo para todos os países do mundo que suceda ao Protocolo de Quioto, e que possa ser assinado na Cimeira de Paris marcada pelas Nações Unidas para dezembro de 2015.

Estrelas de cinema como Leonardo DiCaprio e a atriz chinesa Li Bingbing discursaram também na sede das Nações Unidas, dando mais projeção mediática à Cimeira do Clima. DiCaprio, nomeado Mensageiro da Paz da ONU por Ban Ki-moon para divulgar pelo mundo a mensagem contra as alterações climáticas, disse no seu discurso de quase três minutos, durante a abertura da cimeira, que tomar medidas contra o aquecimento global "não é uma questão política, é uma questão de sobrevivência" e pediu aos chefes de Estado e de governo presentes para enfrentarem o aquecimento global "com coragem e honestidade".



O ator sublinhou que "nada disto é retórica ou histeria, é um facto", embora reconhecesse que "a Humanidade tem encarado as mudanças climáticas como se fossem ficção, acontecendo noutro planeta". "Vocês podem fazer História... ou serem vilipendiados por ela", alertou DiCaprio, dirigindo-se aos líderes mundiais presentes na cimeira. "A boa notícia é que a energia renovável não é apenas possível, mas um boa política económica, que poderá atender a 100% das necessidades mundiais e criar milhões de empregos".    



 

Mais dinheiro para os países em desenvolvimento

Em termos mais práticos, vários Estados comprometeram-se a reforçar o Fundo Verde Climático criado em 2010 para financiar projetos de mitigação e adaptação às alterações climáticas nos países em desenvolvimento.

Foi o caso da França, que contribuirá com 780 milhões de euros, da Suíça e Coreia do Sul (78 milhões de euros cada) e da Dinamarca (55 milhões de euros).   

E vários países prometeram acelerar a transição dos combustíveis fósseis para 100% de energias renováveis, bem como tornarem-se neutros em carbono em 2050, como aconteceu com a Suécia, Dinamarca, Islândia, Etiópia, Costa Rica, Trindade e Tobago e vários pequenos estados do Pacífico.

 

China promete pela primeira vez medidas firmes

Uma das novidades foi a posição da China, que pela primeira vez afirmou a sua vontade de tomar medidas firmes para cortar as emissões de gases com efeito de estufa, embora isso não tenha acontecido pela voz do seu Presidente, Xi Jinping.

Representada na cimeira pelo vice-presidente Zhang Gaoli, a China, responsável por 29% das emissões globais em 2013, é não só o maior emissor do mundo como acaba de ultrapassar o nível das emissões per capita da União Europeia.

"Como um grande país responsável e um grande país em desenvolvimento, a China fará ainda maiores esforços para combater as alterações climáticas", afirmou Zhang Gaoli em Nova Iorque.

Mas o vice-presidente acabou também por repetir promessas anteriores, como a redução da intensidade carbónica do país (emissões de CO2 por unidade produzida) em 45% até 2020.

 

Obama assume liderança do processo

O mesmo aconteceu com o Presidente Barrack Obama, que repetiu a promessa de cortar as emissões em 17% até 2020, relativamente aos valores de 2005.

Mas também reconheceu no seu discurso que as alterações climáticas estão a acontecer mais depressa do que os esforços para as enfrentar e, por isso, os EUA e a China "têm a responsabilidade de liderar as outras nações" neste processo, porque são responsáveis por 44% das emissões globais.

Obama não quer, no entanto, um novo tratado climático que suceda ao Protocolo de Quioto com compromissos vinculativos como pretende a ONU, mas defende um modelo mais flexível que inclua compromissos vinculativos e voluntários de todos os países do mundo.

 

Europa apagada e sem ambição

A União Europeia acabou por ter um papel apagado na Cimeira do Clima, provavelmente em consequência da falta de liderança que se manifesta também noutras frentes da política internacional.

"A Europa, que merecia ser líder, pouco se afirmou", refere um comunicado da Quercus. "Mencionou ser necessário ela própria e os atuais países desenvolvidos reduzirem em 80% a 95% as emissões entre 1990 e 2050, mas todo o caminho a ser traçado para as decisões europeias é pouco ambicioso".

As negociações globais promovidas pela ONU vão, entretanto, prosseguir em Lima, capital do Peru, durante o próximo mês de dezembro.