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Aquilino Ribeiro, o mestre esquecido

Aquilino Ribeiro morreu há 50 anos. Dele dizem ser um mestre da língua portuguesa e um dos grandes prosadores do século XX, mas é hoje um escritor esquecido e fora de moda.

Aquilino Ribeiro gostava das verdades duras como punhos. Se fosse vivo, e como nunca fora homem de mandar recados por ninguém, não teria por certo dúvidas em desdenhar o epíteto de "mestre" que hoje lhe atribui uma sociedade que não lê os seus livros, ignora a riqueza do vocabulário por ele introduzido nos seus romances, e há muito depositou a sua obra num muito reverenciado mausoléu.

Não é sina, nem destino. É algo que acontece, mesmo a grandes escritores como o foi Aquilino Ribeiro, cujo ex-líbris era desde logo uma afirmação de persistência e vontade: "alcança quem não cansa".

Se fosse vivo, o escritor teria agora 127 anos. O seu tempo já não é deste tempo, sobretudo quando se percebe que o facto de ter passado de moda tem a ver, não tanto com a qualidade da escrita ou a originalidade dos temas, mas sobretudo com a desvalorização da ruralidade num imaginário português que se quer atribuir a si próprio um estatuto cada vez mais urbano.

Desaparecido das estantes 

Aquilino deixou de ser lido. As livrarias deixaram de o ter nas estantes. Os estudantes só com muito esforço conseguem aproximar-se do universo deste homem que soube como poucos conjugar a palavra liberdade. Fazia-o no modo como concebia o seu empenhamento cívico e político, ou na agudeza com que levava as suas personagens a contestarem o estabelecido, a questionarem os autoritarismos.

Aquilino Ribeiro nasceu a 13 de setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe, freguesia de Carregal, e morreu a 27 de maio de 1963, num ano de muitas homenagens públicas a que com gosto assistia.

Após o 25 de abril de 1974 o povo de Soutosa, para onde Aquilino foi viver com dez anos de idade, e onde está agora a Casa Museu com o seu nome, viveu uma festa nunca antes vista. Muitos terão despertado ali para a circunstância de respirarem o mesmo ar que tantos anos fora respirado pelo génio que naquela altura se homenageava com a colocação de um busto.

Para trás ficava a história longa daquele que muitos especialistas continuam a considerar um dos maiores prosadores portugueses do século XX.

Sesenta e nove livros 

Publicou em vida 69 livros distribuídos por áreas tão diversas como a ficção, jornalismo, crónica, memórias, ensaio, estudos de etnologia e história, biografias, crítica literária, teatro, literatura infantil, polémicas a que nunca se furtava e traduções (às vezes muito livremente recriadas) do latim, grego, espanhol (o D. Quixote, por exemplo), francês e italiano.

Com uma vida pessoal rica e intensa, Aquilino estudou no Liceu de Lamego, depois iniciou os estudos de filosofia em Viseu. A pedido da mãe foi para os seminário de Beja, mesmo se o que menos se lhe conhecia era vocação religiosa.

Acusado de bombista em 1907, devido à explosão em sua casa de uns caixotes de explosivos que levaram à morte de dois correligionários, acabou detido por fazer parte do Partido Republicano.

Não descansou enquanto não se evadiu da cadeia e encontrou refúgio em Paris. Depois de proclamada a República veio a Portugal, mas frequentara já na Sorbonne os cursos de Filosofia e Sociologia. Entretanto conhece Grete Teuidemann, com quem acaba por residir na Alemanha e de quem tem um primeiro filho.

Os exílios de Paris 

Espírito sempre inquieto e avesso a ditaduras, vê-se de novo em fuga política e refugiado na Beira Alta, e depois de novo em Paris, devido às suas posições contra a ditadura militar que se instalara no país após o golpe de 1926.

Nestas andanças tem um período em que se esconde em Soutosa e depois fica viúvo. Sempre em revolta, sempre em contestação, conhece uma vez mais o exílio. Em Paris casa com Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado, presidente da República destituído com o golpe militar de 1926.

Enquanto vivia a vida, Aquilino escrevia e fazia-o como poucos. Da sua pena saíram obras magistrais, como "Quando os Lobos Uivam", "Via Sinuosa, "Tombo no Inferno", ou "O Arcanjo Negro", entre muitas outras.

O escritor morreu há meio século. Há uma eternidade na sua obra, que as momentâneas vivências ou exigências do atual quotidiano têm feito esquecer.

Nada a que não consiga resistir o trabalho de um homem que se assumia como uma força da natureza, e para quem a natureza era o palco maior da vida que em cada instante imaginava e reconstruía.