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Apanhar e calar era a regra para as esposas da NFL. Até que surgiu um vídeo...

Ray Rice e a mulher Janay à chegada a uma audição em Nova Iorque, onde o jogador dos Baltimore Ravens tenta reverter a suspensão indefinida aplicada pela liga de futebol americano, na sequência da divulgação de um vídeo de violência doméstica no qual a companheira é violentamente esmurrada pelo futebolista

Andrew Burton/Getty Images

Caso de um jogador da National Football League que deixou a mulher inconsciente com um murro acordou o escândalo da violência doméstica no futebol americano. A discussão e as histórias não devem acabar tão cedo.

Luís M. Faria

Jornalista

Viviam com desportistas famosos que as agrediam, por vezes de forma extremamente brutal. Mas não iam queixar-se à polícia. Havia o risco de a má publicidade arruinar a carreira dos parceiros, e com ela a estabilidade financeira da família. Assim, aguentavam em silêncio durante anos, apoiando-se umas às outras na ideia de que acima de tudo urgia preservar a tranquilidade do desportista. Quando a violência era demasiada para calar, falava-se com alguém do clube - se houvesse alguém disponível. A equipa era mais importante que a família. Era ela a família. Até ao dia em que apareceu um vídeo.

A bem dizer, foram dois, ambos com o jogador de futebol americano Ray Rice e a sua então noiva, Janay. O primeiro, divulgado no passado mês de fevereiro, mostra Rice a sair de um elevador, puxando o corpo inconsciente de Janay, que jaz no chão. Num gesto quase de desprezo, Rice usa um pé para juntar as pernas da noiva, caída e desamparada. A seguir fala em tom aparentemente casual com alguém que se encontra ali. Alguém pergunta se a mulher estava bêbeda e ouve-se dizer "nada de chuis".

O vídeo foi filmado no casino Revel, em Atlantic City. Quando apareceu, houve indignação, Rice foi suspenso durante duas semanas pela National Football League, à qual pertence o seu clube, os Baltimore Ravens. Já na altura a pena foi criticada como demasiado ligeira. Parecia óbvio que Janay fora agredida. Mas ela própria tentou amenizar os protestos admitindo que parte da culpa fora sua e defendendo o parceiro em público. Dias depois, casou com ele.

Em princípio, seria o fim da história. Mas não foi. Pois um outro vídeo surgiria em setembro, mostrando a cena original no interior do elevador. Ray e Janay discutem e a certa altura ele dispara-lhe um murro com o punho esquerdo. Ela tomba inconsciente. É depois disso que Rice sai do elevador e lhe ajeita as pernas com o pé. Perante evidência tão clara e irrefutável, o comissário da NFL não teve remédio senão reconhecer que a pena antes aplicada fora de facto muito branda.

Os Ravens dispensam então Rice e a NFL suspende-0 por tempo indefinido. Assim permanece até agora, embora a esposa continue a defendê-lo. O caso teve como efeito trazer à luz outros casos e lançar um debate sobre violência doméstica na NFL - debate cuja única surpresa é não ter começado antes, a avaliar pelo que entretanto se tem sabido. Nos últimos dias, várias esposas de futebolistas deram entrevistas onde contam uma série de pormenores que sugerem as reais dimensões do problema. 

"Fazem-nos uma lavagem ao cérebro" O "Washington Post" entrevistou duas mulheres que viveram com jogadores dos New Orleans Saints. Uma delas, agora com 44 anos, conta que foi empurrada e apertada no pescoço pelo seu marido logo no início da relação, a qual acabaria por durar 16 anos. O conselho do clube na altura foi que não dissesse nada a ninguém, sobretudo à polícia. Ela cumpriu. Mas quando mais tarde encontrou marijuana em casa - algo por que o marido já tinha sido anteriormente suspenso - resolveu confrontá-lo. Ele pegou num taco de basebol e foi pela casa fora a partir coisas, enquanto a ameaçava.

Noutra ocasião, o marido atirou-lhe um telemóvel e bateu-lhe. Ela chamou a polícia, mas depois acabou por não apresentar queixa, para que o seu filho não tivesse o pai na cadeia, e este não perdesse o emprego. Mais tarde, o casal separou-se, mas um dia o jogador foi a casa buscar coisas que não lhe pertenciam e, na discussão subsequente, a mulher foi lançada através de uma porta de vidro. Ela fala também de casos de amigas cujos parceiros "passaram por cima delas como se estivessem num estádio de futebol". Mulheres com olhos negros que em público explicavam ter batido num armário...

A segunda entrevistada do Post, que não quis ser nomeada, descreve cenas do mesmo tipo. Um dia o marido puxou-a pelo cabelo e arrastou-a pela casa. "Empurrou-me para o topo das escadas e lançou-me para a cama. Quando me levantei, deu-me um murro e a coisa seguinte que recordo é ter acordado no chão. Lembro-me de ter posto as pernas em posição fetal para me proteger dos seus sucessivos pontapés. Estava a vomitar e a tentar respirar, e recordo-me de gritar, "tu vais-me matar". Os vizinhos ouviram a cena e chamaram a polícia, mas quando os agentes chegaram mostraram-se sobretudo interessados em falar com o jogador acerca de futebol. Um deles chegou a pedir-lhe um autógrafo.

Ray Rice mantém-se suspenso na NFL, embora a mulher continue a defendê-lo. "Tirar ao homem que amo algo para que ele trabalhou toda a vida apenas para ganhar audiências é horroroso. ISTO É A NOSSA VIDA! O que é que vocês todos não percebem?", escreveu Janay no Instagram

Ray Rice mantém-se suspenso na NFL, embora a mulher continue a defendê-lo. "Tirar ao homem que amo algo para que ele trabalhou toda a vida apenas para ganhar audiências é horroroso. ISTO É A NOSSA VIDA! O que é que vocês todos não percebem?", escreveu Janay no Instagram

Andy Lyons/Getty Images

O "New York Times", que esta semana também entrevista ex-mulheres de futebolistas, nota a relação próxima que existe entre as forças policiais e os clubes - os quais aliás empregam com frequência polícias em funções de segurança, à margem do seu trabalho normal. Quando há uma queixa, mesmo se o agressor acabar na esquadra não há nenhuma garantia de que venha a ser tratado como um cidadão normal. Os chefes saem com ele pelas traseiras e chegam a levá-lo ao estádio nas suas próprias viaturas.

Caso a mulher deixe o jogador, não é raro ficar em situação precária, sem acesso ao dinheiro que se encontrava na conta comum e privada de qualquer apoio por parte do clube. Uma das entrevistadas, por exemplo, tinha antes uma vida materialmente luxuosa e teve de ir trabalhar num restaurante. Várias delas confirmam a imagem dos clubes como um meio fechado, em termos mentais. Um meio onde, como afirma uma, "fazem-nos uma lavagem ao cérebro. É-nos inculcado que se protege o jogador, fica-se calado. Aprendemos que o nosso papel é ser a mulher NFL que dá apoio". 

Centenas de casos em três décadas Um dos jogadores, após agredir a mulher e ela se ter queixado, explicou-lhe que os polícias não queriam saber. Ela estava completamente sozinha. E era dispensável. "Usam as políticas da NFL como arma como contra nós. Há abuso em todas as equipas. Toda a gente sabe, mas não podemos dizer." Uma ideia entretanto confirmada pelo manager de uma equipa, que falou em "centenas de situações" desse tipo ao longo de três décadas. Depois desmentiu o que havia dito, mas o desmentido, feito claramente sob pressão, não soou muito credível.

Muitos dos casos publicitados desde que o segundo vídeo com Ray Rice apareceu no canal TMZ são tão maus como o dele. A maioria é de agressões a mulheres, mas também um em que a vítima é uma criança de quatro anos, filha do jogador. Com o escândalo em curso, não há remédio senão punir os jogadores, por mais relutância que as equipas tenham. Afinal, como explica um comentador do canal desportivo ESPN, o futebol americano hoje em dia é mais entretenimento do que desporto. E as famílias, quando veem os jogos, querem entusiasmar-se à vontade, sem sentimentos contraditórios em relação aos jogadores. Atendendo a isso (e talvez também aos dez mil milhões de dólares anuais que estão em causa), a NFL anunciou uma nova política de intolerância reforçada na matéria. 

A política é insuficiente, a julgar pela quantidade de espectadores perdidos e de ligas infantis que foram desativadas nos últimos meses. É nítido que o futebol americano perdeu parte da sua mística. Havia planos para começar a expandir a "franchise" no estrangeiro, mas agora devem ter de esperar. E falando em sentimentos complicados, o exemplo perfeito é o de algumas das mulheres agredidas. Veja-se, por exemplo, o que Janay Rice escreveu no Instagram após o marido ter sido suspenso indefinidamente em setembro: 

"Acordei esta manhã sentindo-me como se tivesse tido um pesadelo horrível, sentindo-me como se estivesse de luto pela morte do meu melhor amigo. Mas temos que aceitar o facto de que a realidade é um pesadelo em si. Ninguém sabe a dor que os media e opiniões indesejadas do público causaram à minha família. Fazer-nos reviver um momento das nossas vidas que lamentamos todos os dias é uma coisa horrível. Tirar ao homem que amo algo para que ele trabalhou toda a vida apenas para ganhar audiências é horroroso. ISTO É A NOSSA VIDA! O que é que vocês todos não percebem?. Se as vossas intenções eram magoar-nos, embaraçar-nos, fazer-nos sentir sozinhos, tirar toda a felicidade, conseguiram a tantos níveis. Mas saibam que vamos continuar a crescer e a mostrar ao mundo o que é o verdadeiro amor! Ravensnation adoramos-te! "