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Anatomia de um falhanço jornalístico

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Pedido de desculpas publicado esta segunda-feira pela Rolling Stone no seu site, depois da polémica em torno da história de violação

O que se passou naquela noite de setembro de 2012 não se sabe. Parece ser falsa a história de uma violação em grupo numa universidade norte-americana contada pela revista Rolling Stone e que gerou um debate nacional. A controvérsia prossegue nos Estados Unidos.

A revista Rolling Stone já pedira desculpa por ter publicado a reportagem "Violação no Campus" sem ouvir todas as partes envolvidas. Agora vem recriminar-se por ter desrespeitado as regras elementares do jornalismo e contar uma história falsa...

A reportagem foi publicada no passado mês de novembro e logo começaram a surgir as dúvidas quanto à veracidade da violação em grupo de uma estudante numa das irmandades da Universidade da Virgínia, onde, dizia-se, se realizara uma festa em 2012 que acabara em desgraça. Estava tudo posto em causa.

Nos Estados Unidos, existe a consciência de que estudantes violam estudantes nas universidades. Aliás, rara é a série de televisão norte-americana que não inclua um episódio sobre o assunto. Porém, quando a Rolling Stone fez sair a sua reportagem, a indignação ouviu-se pelo mundo fora. Tornava-se real, por escrito, o que todos desconfiavam e alguns murmuravam acontecer nas faculdades.

A Universidade da Virgínia, acusada de não ter ligado às queixas da aluna, resolveu dissolver as irmandades da escola e iniciar um rigoroso inquérito. No entretanto, mais "media" começaram a publicar depoimentos à volta do caso, trazendo outra luz, a de que algo estava errado na história da Rolling Stone (RS) - e não era só o facto de esta apenas contar uma versão, a da suposta vítima.

No mês passado, a polícia de Charlottesville anunciou publicamente que suspendia a investigação por não ter provas sobre qualquer incidente na irmandade, a qual já conseguira provar não ter realizado qualquer festa naquela noite de setembro. Mas deixou em aberto que algo se pode ter passado, só que não da forma que foi contado. Por isso, o caso não foi arquivado. Ainda hoje alguns estudantes dizem que a verdade "estará no meio das duas versões".

A questão é que a jornalista Sabrina Rubin Erdely, freelance e habitual colaboradora da RS, começou por ceder a um pedido da suposta vítima para não a sujeitar a mais vergonha e humilhação e não contactou nenhum dos rapazes a quem Jackie apontava o dedo. E a direção da revista aceitou "honrar" a vontade da entrevistada.

A 5 de dezembro de 2014, cerca de duas semanas após a revista norte-americana ter publicado a história, a RS lamentou o erro e pediu desculpa "a todos quantos possam ter sido afetados pela história". Numa nota aos leitores, o editor responsável Will Dana justificava a decisão dizendo que a versão de Jackie era corroborada por colegas e ativistas contra as agressões sexuais no campus. Mas, afinal, a irmandade não estava em causa.

No passado domingo, o caso explodiu. Face ao erro, a revista conhecida pelas suas reportagens de investigação resolvera encomendar um estudo à Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, cujo reitor é o jornalista Steve Coll, vencedor de um Pulitzer. Pretendia saber onde errara, já que editores da casa tinham confirmado a versão de Jackie (nome pelo qual a vítima é referida), confrontando-a para apanhar discrepâncias.

O relatório da faculdade chama-se "Anatomia de um falhanço jornalístico" ('An anatomy of a journalistic failure'). "É a história de um erro jornalístico evitável, um erro que inclui a reportagem, a releitura, a supervisão editorial e a confirmação dos factos", lê-se no documento.

Perante o relatório, a revista retrata-se uma vez mais, pela escrita do seu diretor Will Dana, que assume terem todos facilitado a publicação desta "história brutal" - o texto foi publicado esta segunda-feira. É um segundo pedido de desculpas por ter confiado apenas numa pessoa, não ter ouvido todas as partes envolvidas e uma promessa aos leitores de que tudo fará para não voltar a cometer estes erros.

Ainda na segunda-feira, a universidade também reagiu. O texto assinado pela presidente Teresa A. Sullivan é bastante agressivo e condenatório da RS, que praticou "um jornalismo irresponsável que injustificadamente manchou a reputação de muitos inocentes e da universidade". "A história da Rolling Stone, 'Uma violação no Campus', não contribuiu nada para combater a violência sexual" e só estragou os esforços que têm sido feitos nesse sentido, considera Teresa A. Sullivan. 

Os principais jornais norte-americanos publicaram esta terça-feira o ato de contrição da RS face à reportagem de Sabrina Rubin Erdely, que estava convencida que tinha falado com uma vítima de violação coletiva na Universidade da Virgínia, a quem chamou apenas Jackie. A polémica está de novo no auge. As explicações não chegam, o assunto já provocara um debate nacional sobre a violência sexual. 

Os últimos meses constituíram "o período mais doloroso" da sua vida, diz a jornalista num comunicado publicado no seu site, após a leitura do relatório da Universidade de Columbia, leitura que se traduziu "numa experiência brutal e humilhante".  

"Ao longo dos meus 20 anos de trabalho como jornalista de investigação - incluindo para a Rolling Stone, uma revista que eu cresci amando e me sinto honrada em trabalhar - tive de lidar muitas vezes com assuntos e fontes sensíveis e de sobrepor o dever de jornalista, a busca da verdade, à minha compaixão", escreve Sabrina Rubin Erdely, assumindo que no caso de Jackie não aprofundou a história como devia, deixou-se ir pelo seu medo de não a traumatizar mais.

 

"São erros que não vou cometer de novo", promete a jornalista.