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Afinal, as mulheres também se abatem

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Ashley White morreu em combate - foi a primeira mulher militar a quem isso foi reconhecido. O sorriso, largo, brilhante, apagou-se em outubro de 2011. Mas vai ser revivido em livro, no grande ecrã e permanecerá para sempre na memória dos Estados Unidos, do Exército e em especial das mulheres a quem abriu caminho para porem fim à política de exclusão militar.

Ashley White, aprendendo a vacinar antes de partir para o Afeganistão, onde perderia a vida

Ashley White, aprendendo a vacinar antes de partir para o Afeganistão, onde perderia a vida

Guarda Nacional dos EUA

Treinada para dar "apoio cultural" às tropas norte-americanas no Afeganistão, mulher, jovem ainda, com uma "rara combinação de coragem, compaixão e dever", a primeiro-tenente Ashley White foi privada de ter um futuro, mas a sua morte não se deu em vão. Volvidos três anos, a sua vida vai ser imortalizada numa bolsa de estudo, num livro e num filme e, consequência maior, nos direitos das mulheres militares norte-americanas que passaram a ter os mesmos dos camaradas de armas masculinos.

Ashley Irene White Stumpf, nascida no dia 3 de setembro de 1987, em Alliance, no Ohio, foi a primeira mulher militar a morrer em combate, num local onde nem sequer devia estar, por lhe ser vedado por lei, precisamente pelo facto de ser mulher. Se a política de exclusão, votada em 1994, tivesse sido seguida à risca, a jovem não poderia ter passado onde passou nem cair sem vida quando atacada com uma bomba artesanal.

A sua morte, no dia 22 de outubro de 2011, veio reabrir um debate, nos Estados Unidos, sobre a presença de mulheres militares no chamado teatro de operações, que culminou com a aprovação, em maio de 2013, da colocação de militares femininos em postos de combate, embora ainda existam umas pequenas restrições.

"Muffin" (espécie de queque tradicional dos EUA), como a tratavam os "rangers" que contavam com o seu apoio por a considerarem um doce dentro de uma dura carapaça, fazia parte de um projeto piloto que incorporava, numa força de operação especial, uma unidade feminina (CTS-2, no caso), destinada a lidar com as mulheres e crianças, e neste "lidar" inclui-se a conquista da confiança das afegãs, a revista por baixo das burcas, ou seja, tarefas difíceis de desempenhar por homens.

Em fevereiro de 2013, é a sua foto que surge nas mãos de outras mulheres, numa congratulação pelo fim da política de exclusão, intitulada "Projeto Molly Pitcher" - o problema maior é que muitas foram já as mulheres que morreram (135 no Afeganistão e no Iraque, entre mais de seis mil homens), mas sem o reconhecimento dado aos seus companheiros porque, em teoria, elas não podiam lá estar.  

Assim, Ashley, com a sua morte aos 24 anos, tornou-se uma personagem na Guarda Nacional e do Exército norte-americano, assim como no liceu de Marlington, onde concluiu o secundário em 2005, já que, ali, foi instituída uma bolsa de estudo com o seu nome e destinada a apoiar, anualmente, uma estudante que demonstre ter o carácter e as qualidades desportivas da jovem que os rangers "não aceitaram, apenas, mas amaram, admiraram e respeitaram", segundo o coronel Mark O'Donnell, vice-comandante do 75º Regimento.

Reese Witherspoon escolhida para o filme A jovem que fazia parte da equipa de primeiros socorros do exército é também a personagem principal do livro "Ashley's War", da jornalista norte-americana Gayle Tzemach Lemmon, que tem escrito em especial sobre o Afeganistão. A história parte da jovem de Ohio, mas envolve toda a CTS-2. O livro vai ser lançado no dia 21 de abril e já cativou a Fox 2000, que conseguiu há dias fechar um contrato para os direitos de um filme baseado na obra.

E até já está escolhida a atriz principal. Reese Witherspoon, de 39 anos, fará o papel da jovem que começou por se alistar na Guarda Nacional de Ohio, na Carolina do Norte, aos 18 anos, quando entrou para a Universidade de Ken, onde se formou em Ciência do Desporto, uma paixão que começou ainda criança praticando atletismo e conquistando algumas vitórias.

"Ela acreditava no que fazia, queria tomar parte em algo que era maior do que ela", diz uma amiga que serviu a seu lado na Guarda Nacional da Carolina do Norte. Apesar disso e de estar a gostar da missão que lhe coube, Ashley sentia falta da família e estava ansiosa por voltar para casa, segundo um "mail" que enviou pouco antes de morrer à mesma colega.

No dia do casamento com o capitão Jason Stumpf

No dia do casamento com o capitão Jason Stumpf

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Não admira que as saudades a atacassem, apesar de estar apenas há três meses no Afeganistão. Era a primeira missão longe do seu país, e longe do seu marido, o capitão do exército Jason Stumpf, seu colega de curso na faculdade, com quem casara apenas cinco meses antes de ser atingida pelo engenho explosivo atribuído aos talibãs.

Há dois anos, numa cerimónia evocativa dos caídos em combate, o seu irmão Josh White, detetive da polícia de Maryland, para quem a irmã possuía uma enorme coragem, lembrou um telefonema dias antes da data fatídica: "Notei um tom na sua voz. Tive a perceção de que ela era apenas uma jovem mulher com medo, num lugar perigoso, que não poderia entender".

No funeral, que reuniu mais de mil pessoas, quem desconhecesse a família - estavam lá os pais e os dois irmãos - iria apanhar um choque ao ver aparecer e ao ouvir a voz de uma jovem praticamente idêntica à militar abatida. A imagem da tristeza e as palavras sentidas contribuíram para a comoção, mas tomaram outra dimensão por se tratar de Brittany White, gémea de Ashley que não escolheu a carreira militar.

"Morreu com uma pagela (estampa com impressão de uma imagem e de uma oração) num bolso e um rosário no outro", disse Brittany, acrescentando que não havia palavras para descrever a beleza interior da sua irmã e o orgulho que sentiam. Uma outra amiga dirá aos jornais que só o facto de uma pessoa se aproximar dela era o suficiente para se tornar um melhor ser humano. Um outro amigo dirá: "No curto espaço de tempo que Deus lhe deu, ela foi capaz de tocar milhares de pessoas".

Memorial erguido em nome de Ashley White Stumpf

Memorial erguido em nome de Ashley White Stumpf

Kelly S. Lecompte/Guarda Nacional dos EUA

Ashley Irene White Stumpf, de 24 anos, morreu juntamente com dois rangers, o sargento Kristoffer Domeij, de 29, e Christopher A. Horns, de 20. A título póstumo recebeu a Estrela de Bronze, medalha atribuída para distinguir a bravura, a quarta mais importante. Obteve ainda "The Purple Heart" (Coração Púrpura), destinada a todos os militares feridos ou mortos, as medalhas de Serviços Distintos e da Campanha do Afeganistão e, por último, a medalha de participação em combate.

"Ela era a minha melhor metade, era verdadeiramente uma mulher incrível", foram as palavras do seu marido na cerimónia fúnebre.