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Acredite-se ou não, é bom ter mais oito

Patrícia de Melo Moreira/AFP/Getty Images

Diogo Ortega criou uma empresa em Portugal depois de a avó se ter enganado a tomar um comprimido e Dick Stroud escreveu um livro no Reino Unido sobre as várias oportunidades de negócio para responder às necessidades da população mais velha. Em três décadas, a esperança média de vida em Portugal aumentou oito anos e as estimativas apontam para o envelhecimento da população se vá acentuar. Durante os próximos dias, o Expresso conta a história de um número - hoje é 8.

Aos 27 anos, Diogo Ortega tem os quatro avós vivos. Um dia, uma das avós trocou os comprimidos e tomou um do marido. As consequências não foram graves, mas obrigou a uma ida ao hospital. Foi então que Diogo parou para pensar que valeria a pena arranjar uma solução para o problema: como assegurar que uma pessoa não troca os medicamentos e não se esquece de os tomar?

O primeiro passo foi agarrar nos conhecimentos que tinha de programação para participar numa competição de 24 horas para criar uma aplicação. Ganhou um prémio de 14 mil euros e decidiu investi-los na sua ideia: criar uma caixa de medicamentos especial, ligada a uma aplicação móvel, com alertas sempre que a caixa seja aberta ou que um comprimido não seja tomado às horas marcadas.

Em mente Diogo tinha a avó e a forma como a sua ideia poderia ser útil à população idosa. Seria esse o seu mercado, dentro e fora do país - um mercado que, de acordo com os números e estimativas, vai continuar a crescer. A esperança média de vida em Portugal aumentou oito anos em três décadas: um bebé nascido no início da década de 1980 poderia viver em média até aos 71,72 anos e hoje pode esperar viver até aos 80. No seguimento do aumento da esperança média de vida, mas também da quebra da fecundidade, estima-se que em 2060 um em cada três europeus tenha mais de 65 anos e que em Portugal haja 307 idosos por cada 100 jovens.

É nas crescentes necessidades dessa parte da população que Dick Stroud, consultor de marketing britânico, especializado na procura dos consumidores com mais de 50 anos, vê oportunidades de negócio. Foi isso que o levou a criar a empresa de consultoria '20plus30' e a escrever um livro com sugestões de marketing para que as empresas se adaptem à população mais idosa ("Marketing to the Ageing Consumer: The Secrets to Building an Age-Friendly Business"). "As pessoas mais velhas têm em comum a experiência do envelhecimento físico e isso determina a forma como compram e o que compram", diz Dick Stroud ao Expresso, por e-mail. "Se os vendedores não tiverem em conta o que está a acontecer aos sentidos, corpos e mentes dos seus clientes mais velhos, estarão a dar-lhes produtos desadequados."

Conhecer a fundo o segmento a que o negócio se destina é o ponto fundamental para quem opta por criar uma empresa do zero. Testar se os produtos são relevantes e acessíveis a esse segmento e ser claro sobre quais os canais de marketing a usar para chegar aos consumidores mais velhos são outras sugestões de Dick Stroud.

Acredite-se ou não

Com base na sua ideia, Diogo Ortega criou uma empresa, a PharmAssistant, à qual juntou mais uma pessoa. Começaram a explorar mais a fundo o mercado e foi então que perceberam as suas características e limitações. Durante os três meses em que participaram no Lisbon Challenge, um programa de apoio a start-ups, fizeram pesquisa e contactos com lares, instituições, médicos, enfermeiros e farmacêuticas. "Quisemos perceber quais as necessidades reais do mercado." Perceberam que a necessidade não está apenas nas pessoas idosas que vivem sozinhas, mas também nos lares. "É muito difícil fazer gestão de medicação, é muito repetitiva e tende a ser permeável a erros. Qualquer automatismo é bem-vindo."

Em resultado dessa pesquisa também descobriram as dificuldades económicas da população mais idosa e das instituições, assim como a "fraca adopção das tecnologias". "É o que vemos agora como barreira", diz Diogo, referindo-se à dificuldade que a população mais velha ainda tem em usar a tecnologia. Contudo, pelo caminho identificaram outro mercado: o dos doentes crónicos, muitos deles mais jovens, com um estilo de vida ativo, para quem "é muito difícil cumprir a medicação" e que não têm barreiras na utilização de tecnologias. Foi então esse o primeiro caminho escolhido e que arranca no início de janeiro de 2015, num projeto-piloto em Berlim, com o apoio da farmacêutica Bayer e numa fase em que a empresa já conta com quatro funcionários, todos próximos dos 26 anos de idade.

A caixa rondará os 19 euros e uma das preocupações da empresa é conseguir assegurar um preço acessível. "Nitidamente, num paralelo entre Portugal e o estrangeiro, o preço e o custo estão sempre presentes na realidade portuguesa", diz Diogo, numa referência às limitações orçamentais com que se foi deparando nos contactos que teve com lares e instituições. O passo futuro? "Ter uma solução mais completa para pessoas mais velhas. Uma solução mais integrada, que comporte vários tipos de medicamentos e que permita despoletar um alarme para um familiar caso o medicamento não seja tomado."

Conhecer bem as características da população idosa é importante, mas também é fundamental saber encarar o envelhecimento sem tabus. "Nenhum de nós gosta de pensar na ideia de ficar mais velho. Nem quem tem 20 anos, nem quem tem 65. Mas, na realidade, há várias vantagens, acredite-se ou não", considera Dick Stroud. "Em geral, as pessoas sentem-se mais calmas aos 60 anos do que aos 30", acrescenta, referindo como exemplo a segurança financeira que não se tem numa fase mais jovem.

E o que Stroud também sublinha é que "não é surpreendente" que um jovem empresário entre os 20 e os 30 anos prefira olhar para a realidade de quem tem uma idade próxima da sua, em vez de olhar para "os desejos e necessidades dos seus pais e dos seus avós". Mas num momento em que se junta o envelhecimento da população e as dificuldades dos mais jovens arranjarem emprego, "faz ainda mais sentido" apostar nesse segmento e olhá-lo de outra forma, sustenta Dick Stroud.